sábado, 9 de maio de 2020

Jorge Luis Borges e o estatuto da verdade

Borges trabalha com histórias e problemas reais que são contados de forma fantástica, da mesma forma que relata situações imaginárias que nos colocam problemas ontológicos e éticos reais. Isso se passa na difusa fronteira entre as ficções e os fatos. Não se trata de negar uns ou outros. Tlön não é uma província do Iraque nem um planeta. Pior, Tlön é aqui ao avesso. A ficção produz um efeito de verdade que desnaturaliza aquilo que na realidade aparece como evidente e inquestionável. Tlön questiona nosso princípio de identidade e de permanência.
Em “El idioma analítico de John Wilkins” nem John Wilkins nem a enciclopédia chinesa tem o mesmo modo de existência que tem a cadeira onde estou sentado neste momento. Porém, ambos existem de tal modo que provocam em Michel Foucault o riso e a inquietação suficiente como para questionar a ordem de um saber que se nos aparece como evidente e natural (supondo que a confissão de Foucault seja “verdadeira” e não uma ficção que produz mais um efeito de verdade). A classificação dos animais na China, não é da China, é a imagem especular da nossa classificação vista a partir do estranhamento, do infamiliar que em vez de causar o conforto que oferece o dado como fato provoca a excitação do encontro com o inusitado. O inusitado pode causar rejeição, ódio, negação, mas também angustia, desidentificação, mudança de posição do sujeito de uma fala que justifica e ordena uma hierarquia e sustenta um sintoma.

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