sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Fenomenologia da percepção

A partir da obra de Merleau-Ponty, a **filosofia moderna** é apresentada como um movimento fundamental de **retorno ao sujeito**, caracterizado pela descoberta de que o mundo, antes de ser uma realidade em si, é um objeto para uma consciência. Abaixo, os principais pontos dessa apresentação contidos nos documentos: ### 1. A Reflexão Analítica e a Virada Subjetiva A filosofia moderna se define pela **reflexão analítica**. Em vez de simplesmente aceitar o mundo como ele nos aparece (a "atitude natural"), o pensador moderno retrocede da experiência para as condições que a tornam possível. Esse movimento busca encontrar no sujeito — seja no **Cogito cartesiano** ou no **sujeito transcendental kantiano** — o fundamento de todo conhecimento. ### 2. Os Dois Polos: Empirismo e Intelectualismo Merleau-Ponty situa o pensamento moderno em uma oscilação entre duas correntes principais: * **Empirismo:** Tenta explicar a percepção e o conhecimento através de processos causais, estímulos e sensações. * **Intelectualismo (ou Idealismo):** Argumenta que a percepção não é um mero registro de dados, mas uma construção do espírito, um julgamento ou um ato de entendimento. Ambas as correntes, segundo o autor, compartilham a crença em um "mundo objetivo" já constituído, diferindo apenas na forma como o sujeito se apropria dele. ### 3. A Construção do "Mundo Objetivo" Um marco da modernidade é a transformação do mundo vivido em um **mundo objetivo**. Influenciada pela ciência (Galileu e Descartes), a filosofia moderna passou a ver a natureza como um sistema de relações geométricas e qualidades puras, despojando-a de suas ambiguidades sensíveis. O corpo humano, nesse contexto, é frequentemente reduzido a um "objeto" ou máquina, separado da alma pensante. ### 4. O Sujeito como "Espectador" Na visão moderna, o sujeito torna-se um **sujeito espectador**. Ele não está mais mergulhado no mundo através de seu corpo, mas o sobrevoa. Conforme Merleau-Ponty descreve, para o pensamento moderno, o sujeito está "em toda parte e em lugar nenhum", agindo como uma consciência soberana que constitui o sentido de tudo o que observa. ### 5. A Tensão Identificada por Merleau-Ponty O documento sugere que a filosofia moderna, ao focar excessivamente na reflexão, acaba por criar um **"homem interior"** artificial, perdendo o contato com a fundação **pré-reflexiva** da experiência. Merleau-Ponty critica a tendência moderna de tratar a percepção como um "pensamento sobre perceber", em vez de reconhecê-la como o nosso contato primordial e carnal com o mundo antes de qualquer análise intelectual. A filosofia moderna nos documentos é o esforço de **autoconsciência** que, embora tenha libertado o sujeito do realismo ingênuo, acabou por gerar um distanciamento entre o "eu penso" e o mundo vivido.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A psicologia na Europa

A institucionalização dos cursos de Psicologia nas universidades europeias tem origem no final do século XIX, marcada pela transição da psicologia filosófica para uma disciplina científica autônoma. O marco inicial é geralmente atribuído a Wilhelm Wundt, que em 1879 fundou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, Alemanha. Esse laboratório não apenas inaugurou a prática sistemática de experimentos psicológicos, mas também atraiu estudantes de diversas partes do mundo, que posteriormente difundiram a disciplina em seus países de origem. Na França, a psicologia começou a se consolidar em instituições acadêmicas no final do século XIX, com a atuação de Théodule Ribot, que em 1889 ocupou a primeira cátedra de Psicologia na Sorbonne. Paralelamente, Jean-Martin Charcot e Pierre Janet contribuíram para o desenvolvimento da psicologia clínica e da psicopatologia, integrando a disciplina ao campo médico. No Reino Unido, a Universidade de Cambridge e a Universidade de Londres passaram a oferecer cursos e laboratórios de psicologia experimental no início do século XX, com foco em psicologia educacional e aplicada. Na Itália, a Universidade de Roma estabeleceu em 1905 um laboratório de psicologia experimental, reforçando a expansão da disciplina no sul da Europa. Já na Espanha, a psicologia ganhou espaço acadêmico mais tardiamente, consolidando-se como curso universitário apenas na segunda metade do século XX, especialmente após a Guerra Civil e a reorganização das universidades. O processo de consolidação dos cursos de Psicologia na Europa foi acelerado após a Segunda Guerra Mundial, quando a demanda por profissionais especializados em saúde mental, educação e trabalho aumentou significativamente. A partir da década de 1950, diversas universidades europeias passaram a oferecer graduações formais em Psicologia, com currículos estruturados e reconhecimento profissional. No século XXI, com o Processo de Bolonha (iniciado em 1999), os cursos de Psicologia foram padronizados em toda a União Europeia, geralmente com três anos de licenciatura seguidos de mestrado e estágio supervisionado. Além disso, o EuroPsy, certificado europeu de psicologia criado pela European Federation of Psychologists’ Associations (EFPA), estabeleceu critérios comuns de formação e prática profissional, garantindo mobilidade e reconhecimento entre os países membros. Assim, pode-se afirmar que os cursos de Psicologia nas universidades europeias surgiram entre o final do século XIX e início do século XX, com pioneirismo da Alemanha e da França, e se consolidaram como formação profissional em larga escala após a Segunda Guerra Mundial. Hoje, a disciplina é plenamente integrada ao sistema universitário europeu, com padrões comuns de qualidade e reconhecimento internacional. Referências EFPA – European Federation of Psychologists’ Associations. EuroPsy: European Certificate in Psychology. Bruxelas, 2024. RIBOT, Théodule. La psychologie anglaise contemporaine. Paris: Alcan, 1870. WUNDT, Wilhelm. Principles of Physiological Psychology. Leipzig: Engelmann, 1874. JANET, Pierre. L’automatisme psychologique. Paris: Félix Alcan, 1889. CHARCOT, Jean-Martin. Leçons sur les maladies du système nerveux. Paris: Bureaux du Progrès Médical, 1872. UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE. History of Psychology at Cambridge. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. UNIVERSIDADE DE ROMA. Laboratorio di Psicologia Sperimentale. Roma: Sapienza Università di Roma, 1905.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A criação do curso de psicologia no Brasil

A formação universitária em Psicologia tem uma trajetória marcada por avanços e interrupções, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. A primeira tentativa oficial de criar um curso superior de Psicologia no Brasil ocorreu em 1932, quando o governo provisório de Getúlio Vargas instituiu o Instituto de Psicologia, vinculado ao Ministério da Educação e Saúde. O curso tinha duração de quatro anos e previa disciplinas voltadas para a aplicação da psicologia na educação, medicina e direito. Contudo, o Instituto foi extinto após apenas sete meses de funcionamento, devido a pressões políticas e falta de estrutura, o que adiou a consolidação da formação de psicólogos no país. Somente em 1953, a Universidade de São Paulo (USP) criou o primeiro curso universitário de Psicologia, estruturado de forma contínua e com base científica. Esse marco representou a institucionalização da formação acadêmica de psicólogos no Brasil. Poucos anos depois, em 1958, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) também inaugurou sua graduação em Psicologia, ampliando a oferta de formação superior na área. A profissão foi oficialmente regulamentada em 1962, com a promulgação da Lei nº 4.119, que definiu as funções do psicólogo e estabeleceu a exigência de formação universitária para o exercício profissional. A partir desse momento, diversas universidades brasileiras passaram a criar cursos de Psicologia, consolidando a disciplina como campo científico e profissional. No contexto internacional, a psicologia já havia se estabelecido como disciplina acadêmica desde o século XIX. Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, Alemanha, considerado o marco inicial da psicologia como ciência autônoma. Nos Estados Unidos, William James e outros pioneiros consolidaram cursos e laboratórios de psicologia em universidades como Harvard, ainda no final do século XIX. Esses movimentos internacionais influenciaram diretamente o desenvolvimento da psicologia no Brasil, embora o processo tenha sido mais tardio e marcado por disputas institucionais. Portanto, pode-se afirmar que a primeira vez que uma universidade abriu o curso de Psicologia e formou psicólogos, no Brasil, foi em 1953 na USP, seguida pela PUC-Rio em 1958, com a regulamentação oficial da profissão em 1962. Internacionalmente, esse processo remonta ao final do século XIX, com destaque para o laboratório de Wundt em Leipzig. A trajetória evidencia que a psicologia, como ciência e profissão, nasceu em diálogo constante com a filosofia e com outras áreas do conhecimento, mas conquistou autonomia institucional ao longo do século XX. Referências ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. História da Psicologia no Brasil: da época colonial até 1934. São Paulo: Educ, 1999. BUNGE, Mario. La investigación científica. Barcelona: Ariel, 1980. CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. POLITZER, Georges. Crítica dos fundamentos da psicologia. Lisboa: Presença, 1974. WUNDT, Wilhelm. Principles of Physiological Psychology. Leipzig: Engelmann, 1874. BRASIL. Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo. Diário Oficial da União, Brasília, 1962. PUC-Rio. Histórico do curso de Psicologia. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2020. USP. Instituto de Psicologia: memória institucional. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015.

domingo, 23 de agosto de 2026

Psicologia no século XXI: Entre Filosofia, Ciência e Neurociência

Desde o seu nascimento como disciplina autônoma no final do século XIX, a psicologia tem oscilado entre proclamações de independência em relação à filosofia e críticas que a classificam como pré-científica ou fragmentada. Autores como Politzer, Canguilhem, Bunge e Ardila apontaram para a multiplicidade de paradigmas e a falta de unidade teórica como sinais de imaturidade científica. Ao mesmo tempo, surgiram discursos que defendiam a absorção da psicologia pelas ciências cognitivas e pela neurociência, como se estas fossem capazes de oferecer a base sólida que a psicologia não teria alcançado. No século XXI, entretanto, o cenário se transformou: a psicologia consolidou práticas metodológicas, ampliou seu diálogo interdisciplinar e redefiniu seu papel dentro das ciências humanas e naturais. O objetivo deste texto é analisar essas mudanças, compreender suas razões e discutir se a psicologia superou ou não os diagnósticos de fragmentação e pré-cientificidade. No início do século XX, a psicologia buscava se afirmar como ciência empírica, distanciando-se da filosofia especulativa. Contudo, como apontou Politzer, essa tentativa resultou em uma disciplina múltipla, marcada por escolas concorrentes — behaviorismo, psicanálise, gestalt, cognitivismo — sem uma teoria unificadora. Canguilhem reforçou a ideia de que a psicologia carecia de rigor epistemológico, enquanto Bunge e Ardila destacaram sua condição pré-científica, dependente de modelos externos. Nesse contexto, surgiram propostas de absorção da psicologia pelas ciências cognitivas, que, ao integrar neurociência, linguística e inteligência artificial, pareciam oferecer maior consistência teórica. No século XXI, porém, algumas mudanças significativas ocorreram. Em primeiro lugar, a psicologia fortaleceu sua base metodológica. A expansão da psicometria, da estatística aplicada e dos métodos experimentais trouxe maior confiabilidade às pesquisas. A psicologia clínica, por exemplo, passou a adotar protocolos baseados em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental, reconhecida internacionalmente por sua eficácia. Isso contribuiu para afastar a disciplina da acusação de pré-cientificidade. Em segundo lugar, houve uma intensificação do diálogo interdisciplinar. A psicologia não foi simplesmente absorvida pela neurociência, mas estabeleceu uma relação de complementaridade. A neurociência explica mecanismos cerebrais, mas não esgota os fenômenos psicológicos, que envolvem dimensões sociais, culturais e subjetivas. A psicologia social, por exemplo, continua a investigar processos de identidade, influência e comportamento coletivo, áreas que não podem ser reduzidas a circuitos neurais. Assim, a psicologia manteve sua autonomia, ao mesmo tempo em que se beneficiou da integração com outras ciências. Em terceiro lugar, a psicologia ampliou sua relevância social. No século XXI, ela se tornou central em debates sobre saúde mental, educação, trabalho e políticas públicas. A pandemia de COVID-19 evidenciou a importância da psicologia na compreensão dos impactos emocionais e sociais da crise, reforçando sua legitimidade científica e prática. Essa inserção social fortaleceu a disciplina como campo indispensável, não apenas como apêndice das ciências cognitivas. Por fim, é importante destacar que a multiplicidade da psicologia, antes vista como sinal de fragilidade, passou a ser interpretada como riqueza epistemológica. A diversidade de abordagens permite compreender o ser humano em sua complexidade, articulando dimensões biológicas, cognitivas, sociais e culturais. Em vez de buscar uma unificação rígida, a psicologia contemporânea valoriza a pluralidade como estratégia científica. Conclusão No século XXI, a psicologia não foi absorvida pela filosofia nem dissolvida nas ciências cognitivas. Ao contrário, consolidou-se como disciplina científica autônoma, fortalecida por métodos empíricos, diálogo interdisciplinar e relevância social. Embora continue múltipla, essa multiplicidade deixou de ser sinal de pré-cientificidade e passou a ser reconhecida como característica de uma ciência que lida com fenômenos complexos e multifacetados. Assim, os diagnósticos de Politzer, Canguilhem, Bunge e Ardila, ainda pertinentes em parte, foram relativizados pela evolução da disciplina. A psicologia do século XXI é, portanto, uma ciência madura, plural e indispensável para compreender o ser humano em sua integralidade. Referências ARDILA, Rubén. La psicología en el siglo XX. México: Trillas, 1986. BUNGE, Mario. La investigación científica. Barcelona: Ariel, 1980. CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. POLITZER, Georges. Crítica dos fundamentos da psicologia. Lisboa: Presença, 1974. APA. Evidence-Based Practice in Psychology. American Psychologist, v. 61, n. 4, 2006. DAMÁSIO, António. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

sábado, 22 de agosto de 2026

Máquinas de inteligência artificial que conseguem identificar afetos, emoções e sentimentos

IAs conseguem detectar emoções combinando diferentes tipos de sinais e dados. Quando analisam texto, utilizam processamento de linguagem natural para identificar palavras, frases e padrões que revelam sentimentos como tristeza, ansiedade ou alegria. Elas classificam o tom emocional das mensagens e observam a frequência de termos ligados a estados psicológicos específicos. Na voz, avaliam elementos como entonação, ritmo, pausas e melodia, que podem indicar raiva, cansaço ou preocupação; algumas chegam a detectar tremores ou alterações fisiológicas sutis. Já no comportamento digital, observam a forma como o usuário interage com o celular ou computador: velocidade de digitação, número de erros, tempo de resposta, horários de uso e até padrões de navegação. Em dispositivos vestíveis, podem coletar dados de batimentos cardíacos, sono e atividade física, correlacionando-os com estados emocionais. Os modelos mais avançados integram essas fontes — texto, voz e comportamento digital — para criar uma visão multimodal do estado afetivo, aumentando a precisão e permitindo intervenções personalizadas, como sugerir exercícios de respiração, meditação ou encaminhar para ajuda profissional.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Inteligência artificial e psicologia

Modelos de máquinas com IA de acompanhamento emocional são sistemas desenvolvidos para monitorar, interpretar e responder ao estado afetivo de uma pessoa, oferecendo suporte em tempo real. Eles combinam análise de linguagem natural, reconhecimento de padrões comportamentais e técnicas de psicologia cognitiva para criar interações empáticas. Exemplos incluem chatbots como Woebot, que utiliza princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental para ajudar usuários a refletirem sobre seus pensamentos; o Wysa, que oferece conversas guiadas e exercícios de respiração e mindfulness; e o Youper, que funciona como um diário emocional inteligente, adaptando intervenções de acordo com o humor registrado. Há também aplicativos como MindDoc, que fazem check-ins regulares para identificar padrões emocionais, e plataformas como Mindstrong, que analisam a forma como o usuário digita ou interage com o celular para detectar sinais precoces de depressão. Além disso, apps de meditação como Calm e Headspace usam IA para personalizar sessões de relaxamento e sono, enquanto ferramentas simples como Daylio permitem registrar o humor e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Essas soluções são úteis para promover autoconhecimento e bem-estar, mas devem ser vistas como complementares, não substituindo o acompanhamento profissional em saúde mental. Elas podem ajudar a identificar padrões emocionais, sugerir técnicas de regulação e incentivar hábitos saudáveis, mas em casos de sofrimento intenso ou risco de suicídio, é essencial buscar apoio humano especializado.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Leg to Stand On

Oliver Sacks, em sua obra autobiográfica A Leg to Stand On (1984), descreve sua experiência pessoal com uma lesão neurológica e a dificuldade de reintegrar o próprio corpo à consciência. Esse relato tornou-se emblemático para pensar a relação entre neurociência e subjetividade, pois evidencia que o corpo não é apenas objeto de estudo, mas parte constitutiva da experiência de si. A narrativa de Sacks antecipa debates que, a partir dos anos 1990, ganharam força nas ciências cognitivas, especialmente em torno da neurociência afetiva, da neuropsicanálise e do enativismo. A neurociência afetiva, desenvolvida por Jaak Panksepp, enfatiza que os sistemas emocionais básicos são fundamentais para compreender o comportamento humano. Esse diagnóstico desloca a psicologia de uma visão puramente cognitiva para uma perspectiva que integra emoção, corpo e cérebro, mostrando que os afetos são centrais na constituição da subjetividade. Já a neuropsicanálise, proposta por Mark Solms e outros pesquisadores, busca articular conceitos psicanalíticos com descobertas neurocientíficas, defendendo que o inconsciente pode ser compreendido em termos de processos cerebrais e que a psicanálise oferece uma linguagem clínica capaz de enriquecer a neurociência. O enativismo, por sua vez, surge como uma crítica às abordagens representacionalistas das ciências cognitivas. Francisco Varela, um dos herdeiros da fenomenologia, propôs que a cognição não é apenas processamento de informações, mas ação corporificada e situada. O diagnóstico enativista afirma que o sujeito se constitui na interação dinâmica com o ambiente, em um processo de acoplamento estrutural entre organismo e mundo. Essa perspectiva aproxima-se da fenomenologia de Husserl e Merleau-Ponty, ao destacar a experiência vivida como dimensão irredutível da cognição. As ciências cognitivas dos anos 1990 consolidaram um campo interdisciplinar que reunia psicologia, neurociência, linguística, filosofia e inteligência artificial. Nesse contexto, os diagnósticos de Sacks, Panksepp, Solms e Varela revelam diferentes modos de compreender a mente: ora enfatizando a dimensão afetiva, ora integrando inconsciente e cérebro, ora destacando a ação corporificada. Todos, porém, convergem na crítica a uma psicologia puramente abstrata e na defesa de uma ciência da mente que reconheça a complexidade da experiência humana. No século XXI, esses debates se intensificaram com a expansão da inteligência artificial e das neurotecnologias. Pesquisas recentes mostram que modelos de IA podem simular processos cognitivos, mas ainda enfrentam dificuldades em reproduzir a dimensão afetiva e fenomenológica da experiência. Autores como Gallagher (2020) e Colombetti (2022) reforçam que a fenomenologia continua sendo indispensável para compreender a subjetividade, lembrando que a cognição não pode ser reduzida a cálculos algorítmicos. A neuropsicanálise também se atualizou, explorando como redes neurais artificiais podem dialogar com conceitos de inconsciente e memória, mas sempre ressaltando os limites da analogia entre máquina e mente. Assim, o diagnóstico contemporâneo aponta para uma psicologia e uma ciência cognitiva em constante diálogo com a neurociência e a tecnologia, mas que não podem perder de vista a dimensão vivida da experiência. A obra de Sacks permanece como testemunho da inseparabilidade entre corpo e mente, enquanto Varela e os herdeiros da fenomenologia lembram que a cognição é sempre corporificada, situada e afetiva. Referências CANGUILHEM, G. O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1956. COLOMBETTI, G. The Feeling Body: Affective Science Meets the Enactive Mind. Cambridge: MIT Press, 2022. GALLAGHER, S. Action and Interaction. Oxford: Oxford University Press, 2020. PANKSEPP, J. Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions. New York: Oxford University Press, 1998. SACKS, O. A Leg to Stand On. New York: Summit Books, 1984. SOLMS, M.; TURNBULL, O. The Brain and the Inner World: An Introduction to the Neuroscience of Subjective Experience. London: Karnac, 2002. VARELA, F.; THOMPSON, E.; ROSCH, E. The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience. Cambridge: MIT Press, 1991.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um diagnóstico crítico sobre a psicologia cognitiva

Howard Gardner, em 1985, apresentou um diagnóstico crítico sobre a psicologia cognitiva ao propor a teoria das inteligências múltiplas. Sua análise questionava a hegemonia da visão unidimensional da inteligência, centrada no fator g, e defendia que o ser humano possui diferentes competências relativamente autônomas, como a inteligência linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Esse diagnóstico ampliou o campo da psicologia educacional e clínica, permitindo reconhecer talentos e déficits específicos em diferentes domínios, mas também gerou debates sobre a validade empírica da proposta, já que muitos críticos apontaram a ausência de evidências psicométricas robustas para sustentar a teoria (GARDNER, 1985). Gerald Hatfield, em 2002, ofereceu outro diagnóstico relevante ao analisar a história da psicologia experimental e sua relação com a filosofia e a ciência cognitiva. Hatfield destacou que a psicologia ainda carregava traços pré-científicos, marcada por debates conceituais e metodológicos, mas avançava ao integrar métodos empíricos e experimentais. Seu diagnóstico reforçava a necessidade de consolidar a psicologia como ciência, em diálogo com áreas como neurociência e filosofia da mente, evitando reducionismos e mantendo a complexidade da subjetividade (HATFIELD, 2002). No século XXI, esses diagnósticos se atualizam diante da integração da psicologia com a inteligência artificial (IA). A partir de 2020, estudos começaram a mostrar como algoritmos de aprendizado de máquina podem identificar padrões em linguagem e comportamento, auxiliando no diagnóstico precoce de transtornos mentais e na personalização de tratamentos. Revisões recentes apontam que a IA tem sido utilizada para desenvolver assistentes virtuais, ampliar o acesso a serviços psicológicos e apoiar práticas educacionais, especialmente durante a pandemia de COVID-19, quando ferramentas digitais se tornaram centrais para o ensino e acompanhamento clínico (VINAGRE; MONIZ, 2020). Contudo, os diagnósticos contemporâneos também ressaltam desafios éticos e epistemológicos. O Conselho Federal de Psicologia (CFP), em 2025, publicou diretrizes para o uso ético da IA, enfatizando que ela deve ser complementar à prática profissional, preservando o papel humano no cuidado psicológico. Pesquisadores como Sousa e Villela (2025) destacam que, embora a IA possa ampliar a eficiência diagnóstica, ela não substitui a dimensão relacional e ética da psicologia, que continua sendo fundamental para o processo terapêutico. Assim, podemos sintetizar que Gardner diagnosticou a insuficiência da visão unidimensional da inteligência, Hatfield apontou a psicologia como disciplina em transição entre filosofia e ciência experimental, e os diagnósticos contemporâneos (2020–2026) indicam que a psicologia enfrenta o desafio de integrar a inteligência artificial sem perder sua dimensão ética e relacional. A disciplina se encontra em um estágio de hibridização científica, em que métodos tradicionais convivem com tecnologias digitais avançadas, exigindo constante reflexão crítica sobre seus fundamentos e práticas. Referências GARDNER, H. Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences. New York: Basic Books, 1985. HATFIELD, G. Psychology, Philosophy, and Cognitive Science. Stanford: Stanford University Press, 2002. VINAGRE, J.; MONIZ, N. Inteligência Artificial: riscos e promessas. Revista de Ciência Elementar, v. 8, n. 4, 2020. SOUSA, L. A.; VILLELA, C. A. S. N. Inteligência artificial na psicologia: aplicações e implicações clínicas. SIPSICO, 2025. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília: CFP, 2025.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Diagnóstico cético

No desenvolvimento da psicologia como ciência, diferentes pesquisadores realizaram diagnósticos sobre o estatuto epistemológico da disciplina, apontando seus limites e possibilidades. Mario Bunge, filósofo da ciência argentino, destacou que muitas práticas psicológicas do século XX ainda se encontravam em um estágio protocientífico, isto é, marcado por especulações, ausência de rigor metodológico e falta de integração com os avanços das ciências naturais. Para Bunge, a psicologia deveria abandonar concepções pré-científicas e aproximar-se de um modelo científico mais robusto, baseado em hipóteses testáveis, métodos experimentais e diálogo com a biologia e a neurociência. Seu diagnóstico foi contundente: a psicologia só se tornaria plenamente científica ao superar o dualismo mente-corpo e ao adotar uma postura materialista e sistemática (BUNGE, 1987). Na mesma direção crítica, J. Ardila, em 1987, analisou a trajetória da psicologia na América Latina e apontou que grande parte da produção ainda se encontrava em um estágio pré-científico, caracterizado pela dependência de modelos importados e pela ausência de tradição própria de pesquisa empírica. Ardila ressaltou que, embora houvesse avanços institucionais — como a criação de cursos universitários e associações profissionais —, faltava à psicologia latino-americana uma base sólida de investigação experimental e teórica que permitisse consolidar sua autonomia científica. Seu diagnóstico enfatizava a necessidade de superar o ecletismo e a fragmentação, propondo uma psicologia mais integrada e rigorosa, capaz de dialogar com os padrões internacionais de ciência (ARDILA, 1987). A distinção entre protocientífica e pré-científica é fundamental para compreender esses diagnósticos. O estágio protocientífico refere-se a práticas que, embora já possuam algum grau de sistematização, ainda carecem de rigor metodológico e de integração com o corpo mais amplo das ciências. Já o estágio pré-científico diz respeito a práticas que permanecem vinculadas a tradições filosóficas ou especulativas, sem critérios claros de validação empírica. Tanto Bunge quanto Ardila identificaram que a psicologia, em diferentes contextos, oscilava entre esses dois estágios, revelando a dificuldade de consolidar-se como ciência plena. Essas críticas tiveram impacto significativo no debate epistemológico da psicologia. Elas reforçaram a necessidade de maior rigor metodológico, de integração com outras ciências e de construção de tradições próprias de pesquisa. Ao mesmo tempo, lembraram que a psicologia não pode se limitar a reproduzir modelos importados, mas deve desenvolver práticas científicas que respondam às especificidades culturais e sociais de cada contexto. Referências ARDILA, J. La psicología en América Latina: pasado, presente y futuro. Bogotá: Editorial Norma, 1987. BUNGE, M. Epistemología: curso de actualización. Buenos Aires: Siglo XXI, 1987.

domingo, 16 de agosto de 2026

Diagnóstico da psicologia no século XX

No campo da filosofia e da psicologia, o diagnóstico realizado por diferentes pensadores sobre o estatuto da disciplina e suas práticas foi decisivo para compreender os rumos da ciência psicológica no século XX. Georges Politzer, em 1928, publicou Crítica dos Fundamentos da Psicologia, obra na qual denunciava o caráter abstrato e idealista da psicologia de sua época. Para Politzer, a psicologia tradicional se afastava da vida concreta ao privilegiar construções teóricas desvinculadas da experiência vivida. Seu diagnóstico apontava para a necessidade de uma psicologia concreta, capaz de apreender o sujeito em sua dimensão histórica e social, e não apenas como objeto de experimentação isolado em laboratório. Politzer criticava a psicologia acadêmica por reduzir o homem a funções mentais abstratas, defendendo que a verdadeira psicologia deveria partir da ação e da narrativa da vida cotidiana (POLITZER, 1928). Já Georges Canguilhem, em 1956, em sua obra O Normal e o Patológico, ofereceu um diagnóstico distinto, mas igualmente fundamental. Canguilhem analisou como a medicina e a psicologia definem normalidade e anormalidade, mostrando que tais conceitos não são neutros, mas carregam valores e implicações sociais. Para ele, o normal não é simplesmente um estado estatístico ou uma média, mas uma normatividade vital, isto é, a capacidade do organismo de criar novas normas diante das adversidades. O patológico, por sua vez, não é apenas uma falha ou desvio, mas uma forma de vida que revela a plasticidade da existência. O diagnóstico de Canguilhem desloca a psicologia e a medicina de uma visão mecanicista para uma compreensão mais ampla da vida, em que saúde e doença são modos de relação com o mundo (CANGUILHEM, 1956). Ambos os diagnósticos revelam preocupações centrais com a forma como a psicologia se constituía como ciência. Politzer denunciava o risco de uma psicologia desligada da realidade concreta, enquanto Canguilhem mostrava que os conceitos fundamentais da disciplina carregam valores e não podem ser reduzidos a dados objetivos. Em conjunto, suas reflexões apontam para uma psicologia que não se limita a medir ou classificar, mas que busca compreender o sujeito em sua historicidade, normatividade e ação. Essas contribuições permanecem atuais, pois ainda hoje a psicologia enfrenta o desafio de articular práticas científicas rigorosas com uma compreensão crítica da subjetividade e da vida social. O diagnóstico de Politzer e Canguilhem nos lembra que a psicologia não pode se reduzir a técnica ou estatística, mas deve manter-se atenta às dimensões éticas, políticas e existenciais que atravessam o ser humano. Referências CANGUILHEM, G. O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1956. POLITZER, G. Crítica dos Fundamentos da Psicologia. Paris: Félix Alcan, 1928.

sábado, 15 de agosto de 2026

A psicologia, ao longo do século XIX e início do século XX

A psicologia, ao longo do século XIX e início do século XX, passou por um processo de emancipação em relação à filosofia, consolidando-se como disciplina científica autônoma. Hatfield (2002) observa que esse movimento foi marcado pela busca de métodos próprios e pela tentativa de se diferenciar das especulações filosóficas, enfatizando a experimentação e a observação empírica. Nesse contexto, a obra clássica de Boring (1929), A History of Experimental Psychology, tornou-se referência fundamental ao narrar a trajetória da psicologia experimental e destacar os principais marcos institucionais e teóricos que permitiram sua consolidação como ciência independente. Um episódio significativo nesse processo foi o Manifesto dos Filósofos Alemães, publicado em 1913 e traduzido por Saulo Araujo, que expressava a preocupação de filósofos em delimitar os campos de atuação da filosofia e da psicologia. O manifesto denunciava o chamado “psicologismo”, isto é, a tendência de reduzir problemas filosóficos a questões psicológicas. Essa crítica foi decisiva para que a psicologia buscasse sua própria legitimidade, evitando confusões conceituais e reforçando sua identidade científica. Wilhelm Wundt, considerado o fundador da psicologia experimental, desempenhou papel central nesse processo. Em 1879, ele criou em Leipzig o primeiro laboratório de psicologia experimental, marco institucional que simboliza a separação da psicologia em relação à filosofia. O laboratório de Wundt não apenas produziu pesquisas empíricas, mas também formou gerações de psicólogos que difundiram a disciplina em diferentes países. A institucionalização da psicologia, contudo, ocorreu de maneira distinta em cada contexto nacional. Na Alemanha, a psicologia se desenvolveu fortemente vinculada às universidades e ao modelo experimental de Wundt, com ênfase na investigação dos processos básicos da consciência. Na França, a tradição foi marcada pela psicopatologia e pela clínica, com figuras como Charcot e Ribot, que aproximaram a psicologia da medicina e da psiquiatria. Na Inglaterra, a psicologia se articulou com a filosofia empirista e com os estudos sobre associação de ideias, além de se vincular ao movimento da psicologia diferencial e da psicometria. Nos Estados Unidos, a psicologia ganhou contornos pragmáticos e aplicados, com William James e, posteriormente, com o behaviorismo de Watson e Skinner, que enfatizaram o estudo do comportamento observável e a utilidade prática da disciplina. No Brasil, a psicologia se institucionalizou mais tardiamente, inicialmente vinculada à filosofia e à educação, mas ganhou força com a criação de cursos universitários e laboratórios, especialmente a partir da década de 1930, consolidando-se como profissão regulamentada apenas em 1962. Esse panorama evidencia que a emancipação da psicologia em relação à filosofia não foi homogênea, mas variou conforme os contextos históricos e culturais. Em todos os casos, contudo, a crítica ao psicologismo e a busca por métodos próprios foram fundamentais para a afirmação da psicologia como ciência. A disciplina passou a se definir pela investigação empírica, pela construção de instrumentos e pela institucionalização em laboratórios e associações científicas, tornando-se capaz de dialogar com outras áreas sem perder sua especificidade. Assim, a psicologia no início do século XX consolidou-se como campo autônomo, mas em constante diálogo com a filosofia e outras ciências humanas e naturais. A criação de laboratórios, a crítica ao psicologismo e a diversidade de tradições nacionais mostram que a psicologia não apenas se emancipou da filosofia, mas também se reinventou em múltiplas direções, tornando-se uma disciplina plural e dinâmica. Referências BORING, E. G. A History of Experimental Psychology. New York: Appleton-Century-Crofts, 1929. HATFIELD, G. Psychology, Philosophy, and Cognitive Science: Reflections on the History and Philosophy of Experimental Psychology. In: Mind, Brain, and Function. Stanford: Stanford University Press, 2002. WUNDT, W. Principles of Physiological Psychology. Leipzig: Engelmann, 1874. ARAUJO, S. (Trad.). Manifesto dos Filósofos Alemães (1913). Belo Horizonte: UFMG, 2013. CHARCOT, J. M. Leçons sur les maladies du système nerveux. Paris: Bureaux du Progrès Médical, 1885. RIBOT, T. La psychologie allemande contemporaine. Paris: Germer Baillière, 1879. JAMES, W. The Principles of Psychology. New York: Henry Holt, 1890. WATSON, J. B. Behaviorism. New York: Norton, 1924. SKINNER, B. F. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953. FIGUEIREDO, L. C. História da Psicologia: da Antiguidade aos dias de hoje. Petrópolis: Vozes, 2008.

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