No meio do lodo, entre o frio metal das armas e o sabor do sangue na boca Luiz Ferreira olhava desde o chão para a lança do soldado que acabava de matar de um tiro que destroçou o lado esquerdo da cabeça. A lança, enterrada entre suas tripas, seria o último objeto que veria. Luiz Ferreira pensou que se existia a eternidade então ele levaria essa imagem para sempre e isso não seria justo. Com as últimas forças buscou que sua vista encontrasse outra paisagem. Algo que merecesse ser levado ao final dos tempos. Ao redor não havia senão mais mortos, degolados, amputados, despedaçados, afogados no seu próprio sangue. O campo de batalha estava semeado de milhares de corpos inertes e então percebeu que a sua própria morte não fazia o menor sentido. Aferrou-se à lança e os olhos permaneceram abertos, mas sem imagem.
(No século XIX Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai travaram batalhas por territórios em meio de epidemias de cólera e febre amarela, quem não morria pelas doenças buscava todas as formas para morrer na guerra)
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