sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Sobre a teoria e a prática clínico-pedagógica. Esboço do trabalho dos profissionais com pessoas diagnosticadas de autismo

 

Sobre a teoria e a prática clínico-pedagógica.

Esboço do trabalho dos profissionais com pessoas diagnosticadas de autismo

 Sumário

Introdução ao tema e apresentação do problema

Hipótese

Encaminhamento

Procedimento

Pressupostos

Tarefas

Observações

Resultados

 

 

Introdução ao tema e apresentação do problema:

As pessoas que entram com diagnóstico de autismo são de ambos sexos e variadas idades (crianças, adolescentes, jovens e adultos). Os problemas que as famílias apresentam sobre a pessoa diagnosticada variam. Em geral as pessoas que ingressam têm dificuldades nos movimentos corporais, membros ou parte dos membros com rigidez, dificuldades na fala, ou na comunicação, dificuldades em estabelecer experiências cognitivas, sociais e de comunicação com todos ou com algumas pessoas ou em alguns âmbitos. Constata-se situações de ecolalia, estereotipia e/ou mania.

 

 

Hipótese:

A criança faz fantasia e, portanto, metáfora, quando está brincando. A brincadeira permite criar a possibilidade de lidar com a realidade enquanto tal, com aquilo que lhe aparece como externo, como não subordinado à sua vontade. O adulto limita ou obtura essa possibilidade instalando uma direção, uma orientação definida de sentido. Desse modo, o adulto exige uma resposta também definida, obriga a criança a responder desde um lugar específico. Nomear a criança, dar nome a ela é, entre outras coisas, obrigar a ela a responder pelo nome dado. Por outro lado, não nomear, não dar nome, é deixar o Real de um corpo a céu aberto, sim possibilidade de simbolização. A vida adulta não só exige uma renuncia pulsional (regular o esfíncter, não comer o corpo da mãe, não matar o pai etc.), também impõe determinados circuitos pulsionais (impulsos que tem como origem o corpo e como meta a descarga de energia em algum objeto, pessoa ou atividade), quer dizer, inflige determinadas formas de descarregar a energia do corpo, excluindo ou proibindo outras de acordo com os costumes sociais reconhecidos como corretos, certos ou adequados. Essa realidade socialmente construída impõe formas de repressão e satisfação e exclui àquele que não obedece mecanismos determinando o normal e o patológico, o legal e o ilegal, o moral e o imoral.

 

Um sofrimento corporal insuportável não permite que a criança brinque e provoca o fechamento, em diferentes intensidades, sobre um corpo ainda não simbolizado, quer dizer, ainda não determinado entre o interior e o exterior, um corpo topologicamente (espacialmente) peculiar buscando segurança na repetição compulsiva. Isso produz como efeito as dificuldades de comunicação, socialização e cognição. Quer dizer, dificulta os laços sociais e objetais por serem recebidos como estranhos. O sofrimento corporal é vivido como Real, sem sentido, sem causa, sem narrativa que o acolha desde uma posição de sujeito de um discurso. O sofrimento corporal Real não simbolizado nem imaginarizado na primeira infância poderia ser o determinante das condutas repetitivas. Assim, aparecem afetos: medo, pânico, desamparo que reaparecem imediatamente diante do estranho, do imprevisto. Isso pode produzir o apego a um objeto, a um ato repetitivo, a uma figura materna ou de cuidadora. Quando esta rotina é rompida por algum evento externo imprevisto ou inclusive uma sensação corporal o sujeito pode vir a reagir de modo violento para outros ou para si como os casos de automutilação como resposta não simbolizada diante do estranho.

 

Encaminhamento:

Acolher o sujeito na sua singularidade desde o primeiro encontro. Quer dizer, evitar pelo lado do profissional fazer uma demanda padrão ao sujeito. Assim, é preciso dar sentido de demanda àquilo que vem do sujeito. Fazer daquilo que vem do sujeito um apelo de reconhecimento de existência enquanto sujeito de uma experiência (baba, grito, papel amassado, repetição, chute, mordida.... são formas de dizer “eu existo). Dar lugar a esses gestos em um contexto onde o laço possa vir a aparecer. Deste modo, pode se estabelecer um vínculo afetivo. O vínculo afetivo se estabelece com mais de um profissional, com o lugar, com as atividades, com os objetos de intercâmbio, com os outros educandos trabalhando o acolhimento da diferença de cada sujeito e também o corte, quer dizer, o exercício da perda, a mudança de atividade e de lugar para possibilitar o aparecimento do sujeito individual e grupalmente. Deste modo, cada profissional pode trabalhar na sua área específica com suas técnicas específicas individual, grupal e transversalmente num projeto clínico-pedagógico singular e grupal.

O trabalho transversal coordenado permite sustentar a demanda alternadamente. Evita-se o apego individual e o desgaste físico e psíquico do profissional no esforço de sustentar sozinho um laço afetivo favorável ao trabalho. A clínica nos mostra que o profissional não tem condições (enquanto sujeito de desejo) de suportar o tempo todo a demanda do outro sem colocar sua própria demanda histérica, quer dizer, sem pedir que o outro responda à falta do próprio profissional. Quando isto acontece é aconselhável reconhecer a própria limitação e dar lugar a outro profissional.

 

O procedimento:

Cada profissional trabalha conteúdos da sua área de forma lúdica, criativa, inventiva, segundo a demanda do sujeito individual e do grupo entre o acolhimento, o deslocamento de sentido e o corte na medida do possível. Assim, as técnicas de adestramento (escovar dentes, ir no banheiro, sentar na mesa para comer etc) devem poder ter contexto explícito e abrir esses contextos deve ser o grande objetivo do trabalho já que permite a possibilidade de passar do significado fixo da repetição ao sentido polissêmico na medida do possível.

 

Pressupostos:

O suposto sujeito manifesta afetos, faz demandas, repete num contexto mínimo, tem algum entendimento do seu entorno. O sofrimento corporal Real originário que carrega é causa e prova disso.

As repetições são formas de tamponamento do desamparo diante do inesperado que se transforma num abito de segurança. Quer dizer que com isso executa mecanismos de sobrevivência, é o modo que encontra para realizar o impulso de vida que o sustenta. Quando isso não resulta, parte para a passagem ao ato, quer dizer, tenta dar conta de uma situação insuportável no Real pela via da violência e da automutilação. A saída pode estar em significar esse ato dando um horizonte de sentido diferente, uma simbolização e outra narrativa. Se isso não resulta o sujeito precisa de contenção até o Real do corpo poder diminuir sua excitação. Às vezes um corte pode funcionar, mas também não é regra. Aliás, nada aqui funciona como regra dentro de um protocolo definido a priori e válido para todos os casos. Sendo que o trabalho clínico-didático é sempre sobre a contingência não há protocolo a priori que responda de forma padrão.

 

Tarefas:

Tem dois aspectos que devem ser tratados em próximos encontros para poder refletir e encontrar possibilidades de abordagem: 1. O lugar e modo de se relacionar com as famílias dos educandos; 2. O desgaste emocional, corporal e psíquico inevitável dos profissionais no seu esforço por levar adiante seu trabalho com os educandos.

Se entendemos que o sujeito que acolhemos na clínica-escola se produz em relação com outros sujeitos, objetos e lugares, estes dois elementos não são meramente secundários senão fundamentais. A eficácia do nosso trabalho, no sentido de possibilitar a autonomia individual e o vínculo social, depende em grande medida da relação com a família e os profissionais. Assim sendo, ambos os aspectos devem ser pensados coletivamente. Os sentimentos e afetos de amor, ódio, ressentimento, frustração, decepção, angústia, compaixão, tristeza, pena etc dos profissionais e das famílias são elementos a serem considerados e elaborados. Embora seja pertinente separar o privado do profissional isso nem sempre é possível de ser controlado conscientemente. Por isso, propomos, com certa cautela e de modo não invasivo, falarmos sobre estas questões.

 

Observações preliminares:

Este texto é resultado do convívio com os educandos, da observação e escuta das famílias dos educandos do Ser e do trabalho realizado pelos profissionais do Ser. Entendo que o texto explicita o que os profissionais realizam este trabalho há anos. O objetivo do texto é colocar sobre o papel, de modo geral, essa experiência a fim de provocar um debate, uma reflexão e um escrito coletivo que mostre a originalidade e os resultados dessa prática fundada numa longa e aprofundada formação. Bem como avançar em novas formas de trabalho e técnicas específicas.

 

O convite é aberto a todos, a participação é voluntária. Porém, meu apelo é que todos possam contribuir na medida do possível e nos tempos de cada um.

 

Resultados esperados:

1.                  Refletir sobre o trabalho realizado com a perspectiva de enriquecer o trabalho futuro

2.                  Propiciar um lugar de encontro para a coordenação de atividades e a melhora da sintonia de trabalho entre os profissionais

3.                  Criar um espaço de formação continuada

4.                  Dar apoio científico-académico para quem quiser produzir artigos ou livros

5.                  Produzir coletivamente livros sobre o trabalho clínico-pedagógico com o intuito de mostrar e deixar estabelecida a originalidade científico-técnica.

 

Daniel Omar Perez

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