Sobre a teoria e a prática clínico-pedagógica.
Esboço do trabalho dos profissionais com pessoas diagnosticadas de
autismo
Introdução ao tema e
apresentação do problema
Hipótese
Encaminhamento
Procedimento
Pressupostos
Tarefas
Observações
Resultados
Introdução ao tema e apresentação do problema:
As pessoas que entram com
diagnóstico de autismo são de ambos sexos e variadas idades (crianças,
adolescentes, jovens e adultos). Os problemas que as famílias apresentam sobre
a pessoa diagnosticada variam. Em geral as pessoas que ingressam têm
dificuldades nos movimentos corporais, membros ou parte dos membros com
rigidez, dificuldades na fala, ou na comunicação, dificuldades em estabelecer
experiências cognitivas, sociais e de comunicação com todos ou com algumas
pessoas ou em alguns âmbitos. Constata-se situações de ecolalia, estereotipia
e/ou mania.
Hipótese:
A criança faz fantasia e,
portanto, metáfora, quando está brincando. A brincadeira permite criar a
possibilidade de lidar com a realidade enquanto tal, com aquilo que lhe aparece
como externo, como não subordinado à sua vontade. O adulto limita ou obtura
essa possibilidade instalando uma direção, uma orientação definida de sentido.
Desse modo, o adulto exige uma resposta também definida, obriga a criança a
responder desde um lugar específico. Nomear a criança, dar nome a ela é, entre
outras coisas, obrigar a ela a responder pelo nome dado. Por outro lado, não
nomear, não dar nome, é deixar o Real de um corpo a céu aberto, sim
possibilidade de simbolização. A vida adulta não só exige uma renuncia
pulsional (regular o esfíncter, não comer o corpo da mãe, não matar o pai etc.),
também impõe determinados circuitos pulsionais (impulsos que tem como origem o
corpo e como meta a descarga de energia em algum objeto, pessoa ou atividade),
quer dizer, inflige determinadas formas de descarregar a energia do corpo,
excluindo ou proibindo outras de acordo com os costumes sociais reconhecidos
como corretos, certos ou adequados. Essa realidade socialmente construída impõe
formas de repressão e satisfação e exclui àquele que não obedece mecanismos
determinando o normal e o patológico, o legal e o ilegal, o moral e o imoral.
Um sofrimento corporal
insuportável não permite que a criança brinque e provoca o fechamento, em
diferentes intensidades, sobre um corpo ainda não simbolizado, quer dizer,
ainda não determinado entre o interior e o exterior, um corpo topologicamente
(espacialmente) peculiar buscando segurança na repetição compulsiva. Isso
produz como efeito as dificuldades de comunicação, socialização e cognição.
Quer dizer, dificulta os laços sociais e objetais por serem recebidos como
estranhos. O sofrimento corporal é vivido como Real, sem sentido, sem causa,
sem narrativa que o acolha desde uma posição de sujeito de um discurso. O
sofrimento corporal Real não simbolizado nem imaginarizado na primeira infância
poderia ser o determinante das condutas repetitivas. Assim, aparecem afetos:
medo, pânico, desamparo que reaparecem imediatamente diante do estranho, do
imprevisto. Isso pode produzir o apego a um objeto, a um ato repetitivo, a uma
figura materna ou de cuidadora. Quando esta rotina é rompida por algum evento
externo imprevisto ou inclusive uma sensação corporal o sujeito pode vir a
reagir de modo violento para outros ou para si como os casos de automutilação
como resposta não simbolizada diante do estranho.
Encaminhamento:
Acolher o sujeito na sua
singularidade desde o primeiro encontro. Quer dizer, evitar pelo lado do
profissional fazer uma demanda padrão ao sujeito. Assim, é preciso dar sentido
de demanda àquilo que vem do sujeito. Fazer daquilo que vem do sujeito um apelo
de reconhecimento de existência enquanto sujeito de uma experiência (baba,
grito, papel amassado, repetição, chute, mordida.... são formas de dizer “eu
existo). Dar lugar a esses gestos em um contexto onde o laço possa vir a
aparecer. Deste modo, pode se estabelecer um vínculo afetivo. O vínculo afetivo
se estabelece com mais de um profissional, com o lugar, com as atividades, com
os objetos de intercâmbio, com os outros educandos trabalhando o acolhimento da
diferença de cada sujeito e também o corte, quer dizer, o exercício da perda, a
mudança de atividade e de lugar para possibilitar o aparecimento do sujeito
individual e grupalmente. Deste modo, cada profissional pode trabalhar na sua
área específica com suas técnicas específicas individual, grupal e
transversalmente num projeto clínico-pedagógico singular e grupal.
O trabalho transversal
coordenado permite sustentar a demanda alternadamente. Evita-se o apego
individual e o desgaste físico e psíquico do profissional no esforço de
sustentar sozinho um laço afetivo favorável ao trabalho. A clínica nos mostra
que o profissional não tem condições (enquanto sujeito de desejo) de suportar o
tempo todo a demanda do outro sem colocar sua própria demanda histérica, quer
dizer, sem pedir que o outro responda à falta do próprio profissional. Quando
isto acontece é aconselhável reconhecer a própria limitação e dar lugar a outro
profissional.
O procedimento:
Cada profissional trabalha
conteúdos da sua área de forma lúdica, criativa, inventiva, segundo a demanda
do sujeito individual e do grupo entre o acolhimento, o deslocamento de sentido
e o corte na medida do possível. Assim, as técnicas de adestramento (escovar
dentes, ir no banheiro, sentar na mesa para comer etc) devem poder ter contexto
explícito e abrir esses contextos deve ser o grande objetivo do trabalho já que
permite a possibilidade de passar do significado fixo da repetição ao sentido
polissêmico na medida do possível.
Pressupostos:
O suposto sujeito manifesta
afetos, faz demandas, repete num contexto mínimo, tem algum entendimento do seu
entorno. O sofrimento corporal Real originário que carrega é causa e prova
disso.
As repetições são formas de
tamponamento do desamparo diante do inesperado que se transforma num abito de
segurança. Quer dizer que com isso executa mecanismos de sobrevivência, é o
modo que encontra para realizar o impulso de vida que o sustenta. Quando isso
não resulta, parte para a passagem ao ato, quer dizer, tenta dar conta de uma
situação insuportável no Real pela via da violência e da automutilação. A saída
pode estar em significar esse ato dando um horizonte de sentido diferente, uma
simbolização e outra narrativa. Se isso não resulta o sujeito precisa de
contenção até o Real do corpo poder diminuir sua excitação. Às vezes um corte
pode funcionar, mas também não é regra. Aliás, nada aqui funciona como regra
dentro de um protocolo definido a priori e válido para todos os casos. Sendo
que o trabalho clínico-didático é sempre sobre a contingência não há protocolo
a priori que responda de forma padrão.
Tarefas:
Tem dois aspectos que devem
ser tratados em próximos encontros para poder refletir e encontrar
possibilidades de abordagem: 1. O lugar e modo de se relacionar com as famílias
dos educandos; 2. O desgaste emocional, corporal e psíquico inevitável dos
profissionais no seu esforço por levar adiante seu trabalho com os educandos.
Se entendemos que o sujeito
que acolhemos na clínica-escola se produz em relação com outros sujeitos,
objetos e lugares, estes dois elementos não são meramente secundários senão
fundamentais. A eficácia do nosso trabalho, no sentido de possibilitar a
autonomia individual e o vínculo social, depende em grande medida da relação
com a família e os profissionais. Assim sendo, ambos os aspectos devem ser
pensados coletivamente. Os sentimentos e afetos de amor, ódio, ressentimento,
frustração, decepção, angústia, compaixão, tristeza, pena etc dos profissionais
e das famílias são elementos a serem considerados e elaborados. Embora seja
pertinente separar o privado do profissional isso nem sempre é possível de ser
controlado conscientemente. Por isso, propomos, com certa cautela e de modo não
invasivo, falarmos sobre estas questões.
Observações preliminares:
Este texto é resultado do
convívio com os educandos, da observação e escuta das famílias dos educandos do
Ser e do trabalho realizado pelos profissionais do Ser. Entendo que o texto
explicita o que os profissionais realizam este trabalho há anos. O objetivo do
texto é colocar sobre o papel, de modo geral, essa experiência a fim de
provocar um debate, uma reflexão e um escrito coletivo que mostre a originalidade
e os resultados dessa prática fundada numa longa e aprofundada formação. Bem
como avançar em novas formas de trabalho e técnicas específicas.
O convite é aberto a todos,
a participação é voluntária. Porém, meu apelo é que todos possam contribuir na
medida do possível e nos tempos de cada um.
Resultados esperados:
1.
Refletir sobre o trabalho realizado com a perspectiva de
enriquecer o trabalho futuro
2.
Propiciar um lugar de encontro para a coordenação de
atividades e a melhora da sintonia de trabalho entre os profissionais
3.
Criar um espaço de formação continuada
4.
Dar apoio científico-académico para quem quiser produzir
artigos ou livros
5.
Produzir coletivamente livros sobre o trabalho
clínico-pedagógico com o intuito de mostrar e deixar estabelecida a
originalidade científico-técnica.
Daniel Omar Perez
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