quinta-feira, 28 de maio de 2020

Melancolia


Na melancolia o sujeito não logra retirar a libido do objeto perdido. O sujeito não se separa do objeto produzindo e sustentando uma identificação narcísica: “A sombra do objeto abate-se assim sobre o ego que pode então ser julgado por uma instância particular como um objeto, como o objeto abandonado. Dessa maneira, a perda do objeto se transformou em uma perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada em uma cisão entre a crítica do ego e o ego modificado por identificação”  (Freud, Luto e Melancolia (1917), 2016). O ego se confunde com o objeto perdido e uma parte do ego se opõe a outra.
O sujeito em estado de depressão manifesta um forte impulso autodestrutivo. Freud entende que a relação de ambivalência afetiva (de amor e ódio) que nos vincula ao objeto oscila para o ódio e como se produz a identificação com o objeto no próprio ego então o ódio direcionado para o objeto recai no próprio ego, assim, amar o objeto é ser o objeto e sendo o objeto (perdido) se torna o alvo do ódio.
Freud entende também que a libido regride a uma fase oral ou canibalesca onde o sujeito incorpora o objeto na devoração do mesmo. Abraham é a referência imprescindível. A autopunição, a autoagressão é um modo de manifestar o ódio ao objeto perdido que não pode ser abandonado. Em 1920 em Introdução ao conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte Freud nos dará elementos para entender a melancolia como uma luta entre ambas pulsões. Em 1923 em Id e Eu a consciência moral ou a voz da consciência aparece como uma verdadeira instância psíquica. Assim, o superego, que exerce uma função reguladora das pulsões, aparece com um sadismo excessivo em relação ao Eu. Melanie Klein (1996) em Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos (1935) avançará na ideia de uma teoria de estados maníaco-depressivos em relação com a melancolia. Klein introduz a noção de reparação normal e patológica, a normal restauraria o objeto danificado e a patológica negaria os sentimentos depressivos ou tentaria eliminar magicamente a angústia depressiva.

Sonho

Sonhei que amanhecia caminhando por uma floresta interminável e labiríntica, que no pôr do sol alcançava a ouvir o barulho da água de um rio turbulento, cansado de caminhar sem rumo o tronco de uma imensa árvore serviu de barco ou lugar de descanso. Entre o som das águas e o movimento da correnteza dormi. Acordei numa praia. Um insecto ou talvez uma cobra que passava pelo meu braço quase enterrado na areia me deixou alerta. Levantei e caminhei. Atravessei dunas do tamanho de pirâmides, provavelmente um pouco maiores. Encontrei uma lagoa com alguma vegetação ao redor que me permitiu matar a sede e a fome. Comi umas raízes e uns frutos que não conhecia. Mas o temor de amolecer ainda mais por desnutrição me fez preferir o provável veneno a recuar diante do desconhecido. Continuei a jornada. Senti-me um peregrino em terras estranhas, às vezes eram longos vales, intermináveis platôs, acidentadas montanhas ou simplesmente nada. Vazio o espaço de andar sem rumo, incompreensível o tempo sem medida da travessia. Um barulho de carro ou de panela de cozinha acordou o homem que sonhava e eu desapareci quando deixei de ser sonhado.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Para uma análise sem divã

Atendimentos psicanalíticos on-line em época de pandemia e distanciamento social.
Alguns psicanalistas e analisantes no inicio da pandemia tiveram algum reparo com relação a continuar o trabalho analítico on-line. E na verdade acho até razoável. Ao final é a primeira vez que nos deparamos com isto na história da psicanálise. Alguns questionaram a questão do set de análise, algo que se questiona desde a época de Freud. Uns são fieis ao divão, outros entendem que o trabalho analítico está aquém e além do divã. Outros questionaram o lugar dos corpos, do corpo do analista e do analisante no encontro do espaço da análise, algo que é elaborado topologicamente e decide boa parte do encaminhamento analítico.
Há mais duas questões que devem ser repensadas para uma análise sem divã: a voz e o olhar. Isto é, a pulsão invocante e a escopofílica na sessão de análise.
A voz, sabemos, é uma pulsão que faz laço, estabelece uma relação com o objeto que contorna. O analista faz função de objeto para o analisante em posição de sujeito de uma fala. Esta cena opera, evidentemente, de modo diferente no espaço físico e no espaço virtual. Talvez seja preciso repensar em cada caso como articula o Real, o Simbólico e o Imaginário nessa fala do analisante que se dirige ao analista, mas retorna de modo invertido e provocando corte que pode desencadear angustia.

domingo, 24 de maio de 2020

Luto


Freud publicou Luto e melancolia no contexto dos escritos metapsicológicos. Ele abordou o problema da perda, da dor da perda, da perda de uma pessoa amada, da perda de um ideal ou também da decepção com relação a algo ou alguém. Diante dessa perda ou decepção aparece um afeto. A perda ou a decepção provoca uma dor e pode devir num estado depressivo. A essa situação se denomina de luto e o estado aparentemente mais agravado de melancolia. 
Com efeito, a perda desencadeia um processo de luto que pode ser percorrido até o desfecho onde o sujeito se reencontra com outros objetos e outras expectativas. Mas também pode acontecer, no caso da melancolia, que o sujeito não consiga reconhecer conscientemente o que foi que se perdeu em aquilo que perdeu. Assim, aparece uma inibição e, ao mesmo tempo, a perda do interesse no mundo externo, nas palavras de Freud tornando-se pobre e vazio, absorve-se o ego e deriva numa profunda diminuição da autoestima. Deste modo, aparecem auto-recriminações, autoacusações, autodepreciação pública e até escancarada e a espera de um castigo. Esses são os elementos daquilo que Freud entende como uma ruptura com o mundo externo e retraição narcísica. O sujeito rompe os laços afogando-se no próprio ego que deflagra um combate consigo mesmo.
No luto o sujeito consegue chegar à renuncia do objeto perdido. A libido investida naquele objeto se retrai ao sujeito e num terceiro momento reencontra outro objeto substitutivo. É este o movimento que não acontece na melancolia.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Publicações de 2019

Sentimentos em conflito: Acerca do que fazemos, podemos e devemos fazer de nós mesmos



Neste trabalho, intitulado Sentimentos em conflito - Acerca do que fazemos, podemos e devemos fazer de nós mesmos, procurei mostrar como se organiza e funciona o campo de sentido da experiência prática com vários dos seus desdobramentos internos. Chamamos aqui de experiência prática ao conjunto de experiências do sujeito no domínio prático: moral em sentido estrito, direito, política e história, incluindo reflexões sobre a loucura e o conhecimento antropológico. A pergunta em questão é acerca da possibilidade da experiência moral e nos conduz a indagar as estruturas proposicionais que aparecem na experiência prática, o sujeito dessa experiência que aparece como operador e objeto das operações, os afetos e sentimentos que se articulam com os enunciados morais, bem como as regras sintáticas e referenciais que estão em jogo no campo prático. Parafraseando Kant: deixamos para trás o presunçoso título de ontologia como também o de uma moral dos fatos em si e avançamos numa analítica das condições de possibilidade de uma experiência prática (em sentido amplo): moral, política, histórica e antropológica, incluindo ainda a experiência da loucura.

Coleção Modernos e Contemporâneos

ISBN: 978-85-66045-60-4
384  páginas
73R$

FRETE GRÁTIS (envio por registro módico)



O PÊNDULO DE EPICURO:
ensaio sobre o sujeito e a lógica de uma história sem finalidade – Kant, Freud e Darwin

Autores: Francisco Verardi Bocca - Daniel Omar Perez

Sinopse

O Pêndulo de Epicuro é, em princípio, uma estratégia de reflexão sobre a filosofia da história. O recurso a Kant parece-nos justificado em si mesmo quanto ao tema. Já o recurso a Freud tem um valor adicional: a simetria e dissimetria em relação a Kant que reconhecemos nele. A novidade, se podemos assim chamar, aparece no recurso a Darwin. Este nos deu o equilíbrio do pêndulo, o ponto de vista que faz verdadeiro contraponto a Kant e Freud, mas, principalmente, que delineia os dois enquadres que detectamos na história da filosofia, o acaso e a necessidade, o aprioristicamente determinado e a contingência, o progresso e o declínio, numa palavra, o mesmo e a diferença. Tudo isto, por outro motivo que não o diletantismo filosófico, a saber, uma reflexão consistente sobre o sujeito e, assim, sobre os destinos da humanidade, sobre as responsabilidades humanas, sobre as condições de possibilidade das ações e das autodeterminações humanas. A dimensão do desafio encontrado, verá o leitor, é que tudo está por ser feito e ninguém além dos seres humanos o fará.

Detalhes do produto

Editora: EDITORA CRV
ISBN:978-85-444-3592-2
DOI: 10.24824/978854443592.2
Ano de edição: 2019
Distribuidora: EDITORA CRV
Número de páginas: 190
Formato do Livro: 14x21 cm
Número da edição:1
28,70 R$


ONTOLOGIE SANS MIROIRS

Essai sur la réalité

Borges, Descartes, Locke, Berkeley, Kant, Freud

Josiane Cristina BocchiDaniel Omar PerezFrancisco Verardi Bocca

Traduit du portugais (Brésil) par Isabelle Alcaraz

Collection : La philosophie en commun
Livre papier :
19,5 €


sábado, 9 de maio de 2020

As batalhas do sul


No meio do lodo, entre o frio metal das armas e o sabor do sangue na boca Luiz Ferreira olhava desde o chão para a lança do soldado que acabava de matar de um tiro que destroçou o lado esquerdo da cabeça. A lança, enterrada entre suas tripas, seria o último objeto que veria. Luiz Ferreira pensou que se existia a eternidade então ele levaria essa imagem para sempre e isso não seria justo. Com as últimas forças buscou que sua vista encontrasse outra paisagem. Algo que merecesse ser levado ao final dos tempos. Ao redor não havia senão mais mortos, degolados, amputados, despedaçados, afogados no seu próprio sangue. O campo de batalha estava semeado de milhares de corpos inertes e então percebeu que a sua própria morte não fazia o menor sentido. Aferrou-se à lança e os olhos permaneceram abertos, mas sem imagem.
(No século XIX Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai travaram batalhas por territórios em meio de epidemias de cólera e febre amarela, quem não morria pelas doenças buscava todas as formas para morrer na guerra)

O ato

O ato da escrita literária cria mundos e seres imaginários, cria o castelo de Kafka, Tlön de Borges, Macondo de Garcia Marques... também cria Moby Dick de Melville, Frankenstein de Mery Shelley...
Margarita Guerrero e Jorge Luis Borges escreveram "O livro dos seres imaginários" uma espécie de catálogo de invenções literárias. Esses seres que não só foram entendidos como fantásticos, mas também como reais.
Umberto Eco escreveu "História das terras e lugares lendários", também parece um catálogo das invenções da literatura, mas que se confundem com o real.
Freud elaborou o conceito de realidade psíquica tentando explicar que não se tratava nem de que tudo era delírio nem de que possamos afirmar algo como a coisa em si. O sujeito faz parte da construção da realidade que habita. Nessa realidade convivem lembranças de fatos que nunca aconteceram, expectativas de futuros impossíveis, medos presentes de seres e mundos imaginários.

A história universal como história de umas poucas metáforas


Em "La esfera de Pascal" Jorge Luis Borges procura mostrar que todo o percurso da história do pensamento ocidental pode ser apresentado como uma história composta por umas poucas metáforas. Ele transita por alguns textos buscando explicitar a questão através da metáfora da esfera eterna. É com Xenófanes de Colofón, século VI a.C., que Borges inicia sua reflexão sobre a metáfora do Deus único a partir do pensamento da esfera. Xenófanes foi aquele que fustigou aos poetas que atribuíam carácter antropomórfico aos dioses propondo um só Deus. Através do Timeu de Platão é que Xenófanes obteve a caracterização da esfera como "la figura mas perfecta y mas uniforme, porque todos los puntos de su superficie equidistan del centro". Assim, ele teria representado a unidade absoluta através das características da esfera, ou seja, de um Deus esferóide. Em outro escrito antigo, o de Parmênides, é declarado que "el ser es semejante a la masa de una esfera bien redonda, cuya fuerza es constante desde el centro en cualquier dirección".
Segundo os comentadores Calogero e Mondolfo (historiadores da filosofia ocidental) –comenta Borges-, Parmênides intuyó una esfera infinita o infinitamente creciente concecendo um sentido dinâmico a essa esfera inaudita. Também na cosmogonia de Empédocles encontramos que "las partículas de tierra, de água, de aire y de fuego integran una esfera sin fin, o Sphairos redondo". Nos livros herméticos desde o Corpus Hermeticum até o teólogo Alain de Lille encontramos que: "Dios es una esfera ininteligible, cuyo centro está em todas partes y su circunferencia en ninguna". Para os medievais o sentido dessa figura era evidente: Deus está em cada uma das suas criaturas, porém nenhuma o limita. Posteriormente, Giordano Bruno inferiu, em defesa do mundo copernicano, que: podemos afirmar com certeza que "el universo es todo centro, o que el centro Del universo está em todas partes y su circunferencia en ninguna". Essa colocação ocorre em defesa do questionamento sobre a necessidade do sistema ptoloméico que é composto por esferas concêntricas. Entretanto, para Pascal também existe: "una esfera espantosa, cuyo centro está en todas partes y su circunferencia en ninguna".

As ruínas circulares


(sobre sonhos sonhados, um sonhador sonha um ser que não sabe que é sonhado)
Com o passar do tempo, o sonhador escuta de outros homens que há um homem em outro templo que pode caminhar pelo fogo sem dano. O homem sabe que este é seu filho e se preocupa da possibilidade de que ele se inteire de que não é um ser humano, senão uma projeção de outrem. De repente, um grande incêndio eclode no templo do sonhador. O homem aceita que tem chegado seu momento de morrer, e caminha para o fogo. Passa pelas chamas sem se queimar, e nesse momento compreende que ele também é uma projeção, um sonho de outro homem.
(Fragmento de Jorge Luis Borges)
Em alguns momentos do seu ensino Lacan nos propõe pensar nossas atitudes, escolhas e modos de ser como pautados pela relação que estabelecemos com um Grande Outro (o pai ou a mãe, mestre, figura ideal, ideal político, religioso ou de qualquer tipo) que estaria nos demandando determinadas atitudes, escolhas e modos de ser. Às vezes tudo se passa como se nossas atitudes, escolhas e modos de ser fossem a resposta (negativa ou positiva) daquele que entendemos como sendo a imposição, aconselhamento ou demanda desse Grande Outro que se dirige a nós com o olhar, com o tom de voz, com um gesto ou com uma palavra. No entanto, às vezes ocorre que aquilo que acreditávamos ser da nossa mais absoluta propriedade descobrimos que já estava presente nesse Grande Outro em relação ao qual nos achávamos diferentes, mas agora percebemos que estamos repetindo.
O desejo é o desejo do Outro e não está longe da alienação.

Jorge Luis Borges e o estatuto da verdade

Borges trabalha com histórias e problemas reais que são contados de forma fantástica, da mesma forma que relata situações imaginárias que nos colocam problemas ontológicos e éticos reais. Isso se passa na difusa fronteira entre as ficções e os fatos. Não se trata de negar uns ou outros. Tlön não é uma província do Iraque nem um planeta. Pior, Tlön é aqui ao avesso. A ficção produz um efeito de verdade que desnaturaliza aquilo que na realidade aparece como evidente e inquestionável. Tlön questiona nosso princípio de identidade e de permanência.
Em “El idioma analítico de John Wilkins” nem John Wilkins nem a enciclopédia chinesa tem o mesmo modo de existência que tem a cadeira onde estou sentado neste momento. Porém, ambos existem de tal modo que provocam em Michel Foucault o riso e a inquietação suficiente como para questionar a ordem de um saber que se nos aparece como evidente e natural (supondo que a confissão de Foucault seja “verdadeira” e não uma ficção que produz mais um efeito de verdade). A classificação dos animais na China, não é da China, é a imagem especular da nossa classificação vista a partir do estranhamento, do infamiliar que em vez de causar o conforto que oferece o dado como fato provoca a excitação do encontro com o inusitado. O inusitado pode causar rejeição, ódio, negação, mas também angustia, desidentificação, mudança de posição do sujeito de uma fala que justifica e ordena uma hierarquia e sustenta um sintoma.

Borges, Jünger e Celine


Borges faz filosofia fora do padrão da seriedade acadêmica estabelecida pela normativa universitária, escreve supostamente literatura fantástica, usa figuras retóricas, inventa histórias, faz piadas, muda os relatos segundo a conveniência como Groucho Marx, ironiza, com tudo o que isso implica, chega a ser engraçado. Porém, ao mesmo tempo, não é um marginal nem na academia nem na sociedade. Aceito nos círculos mais conservadores e elitistas da sociedade aparece como um escritor popular, quase como Ernst Jünger. Ambos escrevem corroendo os fundamentos do lugar que habitam e mesmo assim....
A radicalidade da escrita de Borges e Jünger não se mostra como escandalosa, denunciadora ou indignada, aparece como publicável.
Ao contrário de Celine que com insultos, obscenidades e bastante ressentimento se apresenta como transgressor enquanto afirma o mais recalcitrante fascismo. Celine é o exemplo mais nítido de uma escrita escandalosa que não faz outra coisa que afirmar o poder real que se sustenta na certeza de uma realidade inquestionável. Sua literatura é tão pequena quanto seu problema (de inveja) pessoal com Sarte.

Playlist de vídeos de psicanálise e filosofia


daniel omar perez


https://www.youtube.com/playlist?list=PLtQTl0gs8aWxjCXfJvKgIPMaXY5GfGqRH



Budismo e modernidade no ocidente