sábado, 1 de agosto de 2026
Paradigmas do Século XX: Diversidade e Rupturas
O século XX assistiu a uma explosão de modelos que tentaram capturar a subjetividade sob novos prismas conceituais, muitas vezes antagônicos.
Psicanálise e Epistemologia Genética: Sigmund Freud (1856-1939) introduziu, em 1900, o inconsciente como uma dimensão irredutível, rompendo com a psicologia da consciência (FREUD, 1996). Simultaneamente, Jean Piaget (1896-1980) articulou a epistemologia genética em La naissance de l’intelligence chez l’enfant (1936), demonstrando como as estruturas cognitivas são construções ativas que evoluem por estágios de equilíbrio (PIAGET, 1936).
Behaviorismo Radical e Estruturalismo Lacaniano: B.F. Skinner (1904-1990) radicalizou o controle e a observação externa, reduzindo o psiquismo ao condicionamento operante. Jacques Lacan (1901-1981), em seus Écrits (1966), operou uma subversão linguística, afirmando que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e regido pela ordem do simbólico.
A filosofia da ciência pós-clássica trouxe modelos que, aplicados à psicologia, permitem compreender melhor sua condição epistemológica e metodológica. Karl Popper, com o princípio da falseabilidade, argumenta que uma teoria científica deve ser passível de refutação. Nesse sentido, ele classificou a psicanálise como pseudociência, pois suas hipóteses seriam irrefutáveis e adaptáveis a qualquer evidência, não atendendo ao critério de testabilidade. Thomas Kuhn, por sua vez, introduziu o conceito de paradigmas e sugeriu que a psicologia se encontra em estado de “pré-ciência” ou multiparadigmatismo, já que não possui um consenso unificador e convive com diferentes escolas teóricas que disputam legitimidade. Gaston Bachelard contribuiu com a noção de ruptura epistemológica, defendendo que o avanço científico exige cortes com o senso comum. No campo da psicologia, sua perspectiva se manifesta na utilização da lógica psicanalítica como instrumento para purgar obstáculos ao saber objetivo, permitindo que a disciplina se afaste de concepções ingênuas e se aproxime de uma racionalidade científica. Imre Lakatos, ao propor os programas de pesquisa, interpretou as escolas psicológicas como núcleos teóricos protegidos por um cinturão de hipóteses auxiliares. Essa visão ajuda a entender como diferentes correntes da psicologia se sustentam e se defendem diante de críticas, mantendo um núcleo central relativamente estável. Por fim, Paul Feyerabend, com seu anarquismo metodológico, defendeu que “tudo vale” na prática científica, legitimando a pluralidade de métodos. Aplicado à psicologia, esse modelo reconhece a complexidade do psiquismo humano e a necessidade de múltiplas abordagens para investigá-lo, sem impor uma única metodologia como superior. Em síntese, esses modelos da filosofia da ciência pós-clássica revelam que a psicologia, enquanto campo de saber, se caracteriza pela diversidade teórica e metodológica, pela ausência de um paradigma unificado e pela constante tensão entre ciência e senso comum. Essa multiplicidade, longe de ser um defeito, pode ser vista como reflexo da complexidade do objeto de estudo, exigindo uma postura crítica e aberta às diferentes formas de produção de conhecimento.
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