sexta-feira, 14 de agosto de 2026
A psicologia no século XX
A psicologia no século XX consolidou-se como disciplina científica e prática social, atravessando debates sobre normalidade, subjetividade e a relação entre indivíduo e sociedade. No início do século, a disciplina buscava legitimar-se por meio de métodos experimentais e instrumentos de medida, como os testes de inteligência. Em 1905, Alfred Binet e Théodore Simon elaboraram o primeiro teste de inteligência, com o objetivo de identificar crianças que necessitavam de apoio escolar. Esse instrumento foi posteriormente adaptado por Lewis Terman em 1916, nos Estados Unidos, dando origem à versão conhecida como Stanford-Binet Intelligence Scale, que se tornou referência internacional e foi amplamente utilizada em contextos educacionais e militares (FIGUEIREDO, 2008).
No Brasil, em 1925, o estado de Pernambuco realizou uma adaptação do teste de inteligência, mas em contraposição às teses eugenistas que circulavam na época. Enquanto em diversos países os testes eram utilizados para justificar políticas de exclusão e hierarquização racial, no contexto pernambucano buscou-se uma aplicação voltada à educação e ao desenvolvimento humano, evidenciando uma resistência às leituras deterministas e discriminatórias (SMITH, 2013). Esse episódio revela como a psicologia, desde cedo, esteve imersa em disputas políticas e sociais, ora servindo a projetos de controle e normatização, ora sendo apropriada em práticas emancipatórias.
A formação da disciplina também se deu em meio ao surgimento de sociedades e associações científicas. A Sociedade Psicológica fundada por Martin Gross, por exemplo, buscava institucionalizar a psicologia como campo autônomo, promovendo debates sobre o papel da ciência psicológica na compreensão do conflito entre indivíduo e sociedade. Esse conflito se expressava na tensão entre a busca por ordem e harmonia social e a valorização da rebeldia e da desadaptação como formas legítimas de subjetividade. A psicologia, nesse sentido, oscilava entre uma função de normalização — definindo padrões de normalidade e anormalidade — e uma função crítica, voltada para a compreensão das singularidades do Eu e das formas de resistência (WOLFF, 2011).
A definição do Eu tornou-se um dos pontos centrais da psicologia no século XX. As teorias psicanalíticas, por exemplo, enfatizaram o mundo interno, os conflitos inconscientes e as dinâmicas de desadaptação e rebeldia. Freud concebia o Eu como instância mediadora entre pulsões e exigências sociais, enquanto Lacan, mais tarde, destacou o papel da linguagem e do significante na constituição do sujeito. Já as abordagens humanistas e fenomenológicas buscaram compreender o Eu em termos de autenticidade e realização pessoal, propondo uma visão mais positiva e integradora da subjetividade (FIGUEIREDO, 2008).
Smith (2013) observa que, ao longo do século XX, a psicologia oscilou entre uma função disciplinadora e uma função emancipatória. De um lado, a disciplina contribuiu para a manutenção da ordem social, classificando indivíduos em categorias de normalidade e anormalidade. De outro, abriu espaço para práticas que valorizavam a singularidade, a rebeldia e a busca por harmonia interna. Essa ambivalência reflete o lugar da psicologia como ciência e prática situada entre demandas sociais de controle e aspirações individuais de liberdade.
Figueiredo (2008) destaca que, já no século XIX, havia uma versão liberal da psicologia, voltada para a valorização do indivíduo e da autonomia. Essa tradição influenciou o desenvolvimento da disciplina no século XX, especialmente nas abordagens humanistas e construtivistas, que enfatizaram a capacidade do sujeito de reorganizar sua experiência e construir narrativas próprias. Wolff (2011), por sua vez, argumenta que o ser humano, enquanto objeto das ciências, é um “antirretrato” do ser humano, ou seja, uma representação que nunca coincide plenamente com a experiência vivida. Essa crítica aponta para os limites das tentativas de objetivar a subjetividade, lembrando que o sujeito escapa às classificações rígidas e às normatizações científicas.
Assim, a psicologia no século XX pode ser compreendida como um campo em constante tensão entre ciência e prática social, entre normalização e emancipação, entre ordem e rebeldia. A disciplina se constituiu a partir de instrumentos como os testes de inteligência, mas também se reinventou em práticas clínicas e comunitárias que valorizavam a narrativa, a singularidade e a resistência. A definição do Eu, nesse contexto, não é apenas uma questão teórica, mas um problema político e social, que envolve a relação entre indivíduo e sociedade, entre mundo interno e mundo externo, entre adaptação e desadaptação.
Referências
FIGUEIREDO, L. C. História da Psicologia: da Antiguidade aos dias de hoje. São Paulo: Vozes, 2008.
SMITH, R. The Psychology of the Twentieth Century. London: Routledge, 2013.
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