domingo, 16 de agosto de 2026
Diagnóstico da psicologia no século XX
No campo da filosofia e da psicologia, o diagnóstico realizado por diferentes pensadores sobre o estatuto da disciplina e suas práticas foi decisivo para compreender os rumos da ciência psicológica no século XX. Georges Politzer, em 1928, publicou Crítica dos Fundamentos da Psicologia, obra na qual denunciava o caráter abstrato e idealista da psicologia de sua época. Para Politzer, a psicologia tradicional se afastava da vida concreta ao privilegiar construções teóricas desvinculadas da experiência vivida. Seu diagnóstico apontava para a necessidade de uma psicologia concreta, capaz de apreender o sujeito em sua dimensão histórica e social, e não apenas como objeto de experimentação isolado em laboratório. Politzer criticava a psicologia acadêmica por reduzir o homem a funções mentais abstratas, defendendo que a verdadeira psicologia deveria partir da ação e da narrativa da vida cotidiana (POLITZER, 1928).
Já Georges Canguilhem, em 1956, em sua obra O Normal e o Patológico, ofereceu um diagnóstico distinto, mas igualmente fundamental. Canguilhem analisou como a medicina e a psicologia definem normalidade e anormalidade, mostrando que tais conceitos não são neutros, mas carregam valores e implicações sociais. Para ele, o normal não é simplesmente um estado estatístico ou uma média, mas uma normatividade vital, isto é, a capacidade do organismo de criar novas normas diante das adversidades. O patológico, por sua vez, não é apenas uma falha ou desvio, mas uma forma de vida que revela a plasticidade da existência. O diagnóstico de Canguilhem desloca a psicologia e a medicina de uma visão mecanicista para uma compreensão mais ampla da vida, em que saúde e doença são modos de relação com o mundo (CANGUILHEM, 1956).
Ambos os diagnósticos revelam preocupações centrais com a forma como a psicologia se constituía como ciência. Politzer denunciava o risco de uma psicologia desligada da realidade concreta, enquanto Canguilhem mostrava que os conceitos fundamentais da disciplina carregam valores e não podem ser reduzidos a dados objetivos. Em conjunto, suas reflexões apontam para uma psicologia que não se limita a medir ou classificar, mas que busca compreender o sujeito em sua historicidade, normatividade e ação.
Essas contribuições permanecem atuais, pois ainda hoje a psicologia enfrenta o desafio de articular práticas científicas rigorosas com uma compreensão crítica da subjetividade e da vida social. O diagnóstico de Politzer e Canguilhem nos lembra que a psicologia não pode se reduzir a técnica ou estatística, mas deve manter-se atenta às dimensões éticas, políticas e existenciais que atravessam o ser humano.
Referências
CANGUILHEM, G. O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1956.
POLITZER, G. Crítica dos Fundamentos da Psicologia. Paris: Félix Alcan, 1928.
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