segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Diagnóstico cético
No desenvolvimento da psicologia como ciência, diferentes pesquisadores realizaram diagnósticos sobre o estatuto epistemológico da disciplina, apontando seus limites e possibilidades. Mario Bunge, filósofo da ciência argentino, destacou que muitas práticas psicológicas do século XX ainda se encontravam em um estágio protocientífico, isto é, marcado por especulações, ausência de rigor metodológico e falta de integração com os avanços das ciências naturais. Para Bunge, a psicologia deveria abandonar concepções pré-científicas e aproximar-se de um modelo científico mais robusto, baseado em hipóteses testáveis, métodos experimentais e diálogo com a biologia e a neurociência. Seu diagnóstico foi contundente: a psicologia só se tornaria plenamente científica ao superar o dualismo mente-corpo e ao adotar uma postura materialista e sistemática (BUNGE, 1987).
Na mesma direção crítica, J. Ardila, em 1987, analisou a trajetória da psicologia na América Latina e apontou que grande parte da produção ainda se encontrava em um estágio pré-científico, caracterizado pela dependência de modelos importados e pela ausência de tradição própria de pesquisa empírica. Ardila ressaltou que, embora houvesse avanços institucionais — como a criação de cursos universitários e associações profissionais —, faltava à psicologia latino-americana uma base sólida de investigação experimental e teórica que permitisse consolidar sua autonomia científica. Seu diagnóstico enfatizava a necessidade de superar o ecletismo e a fragmentação, propondo uma psicologia mais integrada e rigorosa, capaz de dialogar com os padrões internacionais de ciência (ARDILA, 1987).
A distinção entre protocientífica e pré-científica é fundamental para compreender esses diagnósticos. O estágio protocientífico refere-se a práticas que, embora já possuam algum grau de sistematização, ainda carecem de rigor metodológico e de integração com o corpo mais amplo das ciências. Já o estágio pré-científico diz respeito a práticas que permanecem vinculadas a tradições filosóficas ou especulativas, sem critérios claros de validação empírica. Tanto Bunge quanto Ardila identificaram que a psicologia, em diferentes contextos, oscilava entre esses dois estágios, revelando a dificuldade de consolidar-se como ciência plena.
Essas críticas tiveram impacto significativo no debate epistemológico da psicologia. Elas reforçaram a necessidade de maior rigor metodológico, de integração com outras ciências e de construção de tradições próprias de pesquisa. Ao mesmo tempo, lembraram que a psicologia não pode se limitar a reproduzir modelos importados, mas deve desenvolver práticas científicas que respondam às especificidades culturais e sociais de cada contexto.
Referências
ARDILA, J. La psicología en América Latina: pasado, presente y futuro. Bogotá: Editorial Norma, 1987.
BUNGE, M. Epistemología: curso de actualización. Buenos Aires: Siglo XXI, 1987.
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