domingo, 12 de novembro de 2017

A repetição do mesmo e a inscrição do fenômeno

A repetição do mesmo e a inscrição do fenômeno

Do mesmo modo que nunca me perguntei como é que tenho costas ou joelho, também nunca achei que poderia ser uma pergunta o fato de eu ser torcedor de Rosario Central. Várias vezes pensei nisso, mas nunca me pareceu algo sobre o qual caberia uma pergunta. Tem alienações tão consolidadas de coisas tão insolitamente estúpidas aos olhos de qualquer um que parecem absolutamente naturais para nós. Achamos estranho, feio ou errado que o outro não compartilhe a mesma situação de alienação. Ás vezes consideramos a situação anormal ou doentia.
Ser torcedor de futebol é uma situação que traz não só prazer ou alegria senão geralmente excitação, nervosismo, angustia e sofrimento e mesmo assim repetimos a cena inúmeras vezes.
Podemos dizer que é o futebol que nos faz vivenciar isso, mas também podemos pensar que é essa situação sensitiva que se justifica (precariamente) no relato do futebol, e desse modo, aparece mais ou menos tolerável na sociedade que vivemos.


Essa hipótese poderia se estender e poderíamos pensar que as excitações prazerosas ou desagradáveis encontram justificativa em essas narrativas: esportivas, estéticas, políticas, acadêmicas etc. Se aceitarmos a hipótese podemos pensar que há um jogo de afetividades que são vivenciadas como positivas ou negativas quando articuladas com a linguagem em narrativas imaginárias e inscritas simbolicamente produzindo um efeito de sujeito que goza de alguma forma. Vou explicar um pouco melhor.

Quando o gozo (estado de excitação e desgaste no real da carne) no real do corpo não se articula numa narrativa (num relato sobre a realidade circundante ou fantasiada) e não se inscreve simbolicamente (com elementos significantes que ordenem a estrutura do discurso) o real do corpo se goza na repetição do mesmo mecanismo sem sentido até se esgotar. Pensamos que o gozo deve se inscrever para encontrar sentido e um possível corte, interrompendo o caminho ao esgotamento final.

Aqui apontamos duas coisas: uma hipótese acerca da estrutura de funcionamento da repetição e um encaminhamento.
(1) agentes de trabalho na instituição mostram casos onde aquilo que se repete no fenômeno não é aleatório senão que tem sua base num acontecimento vivido pelo sujeito e marcado pelo gozo. (Isso implica que o alguma inscrição houve e um efeito de sujeito apareceu e continua aparecendo como alienação)
(2) todos os agentes  da instituição trabalham a partir do fenômeno e não contra ele dos seguintes modos: inscrevendo o fenômeno em outro horizonte de sentido, rearticulando seus elementos, substituindo os elementos, procurando passar do individual para o coletivo fazendo laço com o outro semelhante e o Outro enquanto horizonte de sentido, em vez de apenas treinar movimentos pautados socialmente exigindo respostas padrão se procura partir daquilo que o sujeito traz estando aberto a possíveis situações criativas e procurando fazer lugar num horizonte de sentido primeiro grupal e depois social.



Na medida em que a excitação repetitiva encontra articulação imaginária e simbólica pode vir a encontrar corte e possibilitar laço com sujeitos e objetos. É preciso advertir que o fenômeno pode vir a encontrar corte. Mas também pode ser o caso em que o sentido dado conduza ainda ao desgaste final. Porém, a articulação nos permite trabalhar com outros elementos que não apenas a intervenção medicamentosa, absolutamente necessária para obter um mínimo de estabilidade funcional em alguns casos, mas insuficiente para articular sentido à motricidade. Para passar do movimento mecânico ao ato inscrito culturalmente que possibilita laço e propicia comunicabilidade e sociabilidade devemos trabalhar no registro da linguagem. 

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