domingo, 6 de agosto de 2023

Grupo de Investigações Psicanalíticas

  

Grupo de Investigações Psicanalíticas

 Objetivo: promover investigações psicanalíticas mediante projetos de pesquisa, grupos de estudo, eventos, atendimentos, publicações e formação de pesquisadores em relação com a clínica, a saúde mental, a linguagem e a filosofia.

Resultados esperados:

1.             Resultados de projetos de pesquisa individual e coletiva em diferentes níveis (grad. Pós e pesquisa acad.)

2.             Eventos para intercâmbio de resultados

3.             Cursos e grupos de estudos para formação de pesquisadores

4.             Publicações

5.             Atendimentos específicos.

Dos membros: fazem parte do (GIP) os coordenadores e os colegas e estudantes que tenham um projeto de pesquisa aceito pelo (GIP) coordenação.

Dos colaboradores: serão considerados colaboradores os que participarem regularmente dos grupos de pesquisa e cursos, se assim o solicitarem.

Atividades:

1.             Grupos de estudo.

2.             Trabalho de extensão: 2.1. curso de introdução à psicanálise; 2.2. Atendimento a pessoas e familiares com diagnóstico de autismo e sofrimento psíquico.

3.             Projetos de pesquisa: 3.1. A constituição do sujeito em relação com o significante “autismo”. 3.2. Identificações individuais e Coletivas. 3.3. Saúde mental psicanálise. 3.4. Clínica pública e psicanálise

 Projeto de extensão com diagnóstico de autismo

 Sobre o termo autismo tal como definido no DSM5

O espectro de fenômenos que se nomeiam sob a categoria de autismo é suficientemente amplo e variado ao ponto que subsome casos extremamente divergentes. Também se apresentam desenvolvimentos de diferentes propostas terapêuticas. Assim, encontramos desde situações pessoas com dificuldades motrizes e cognitivas graves até indivíduos com vida social e familiar. Com relação às experiências terapêuticas podem se constatar desde situações com mínimo de mudança até situações de mudança radical. Tais pontos de partida são muito variados quanto a capacidades, disposições e condições circunstanciais de vida familiar e social.

Até o momento esse universo amplo não tem um marcador biológico comum. Condutas autistas não identificadas em mamíferos seria uma prova de inexistência de marcadores biológicos do autismo em seres humanos. Também não há algoritmo para decidir a priori nem a favor nem contra a possibilidade de um diagnóstico de autismo.

Assim sendo, entendemos que o autismo é um conceito geral (espectro) com projetos terapêuticos particulares.

 

Sobre os elementos gerais dos tratamentos

Os Tratamentos levados adiante com pessoas diagnosticadas de autismo se propões bem estar físico (acompanhamento médico) e projeto terapêutico-pedagógico particular.

·                O bem estar físico elimina fatores que indispõem o sujeito em relação com ele mesmo, com os objetos e com os outros.

·                O acolhimento da diferença na família e na sociedade contribui para favorecer a abertura e o laço com o mundo externo, os objetos e as pessoas.

·                O trabalho terapêutico não pode ser impositivo, nem ficar na lógica do prêmio e do castigo. Deve ser lúdico com o objetivo de poder reconhecer o corpo próprio, o mundo externo, a troca e a perda, o corpo do outro semelhante. Isso é condição de possibilidade de autonomia relativa e laço social.

          Por que autonomia relativa e laço social? Por que isso diminui o sofrimento do diagnosticado. Dessa forma passamos do mal-estar ao mínimo de prazer em relação com o outro, na forma de laço e não de autoerotismo como Gozo sem laço (Freud-Lacan).

          Não existe critério a priori que permita decidir qual será o resultado do tratamento. Pode haver condições favoráveis ou desfavoráveis, mas nenhuma garante uma consequência necessária. Porém, é trivial dizer que em condições favoráveis o mal-estar do diagnosticado diminui relativamente. Em condições desfavoráveis tudo poderia ser pior.

          O trabalho terapêutico não pode ser padrão porque não há padrão nos casos. Deve haver um projeto terapêutico específico. Isso não significa que o trabalho sempre deve ser individual. Muito pelo contrário, o grupo favorece o laço.

Trata-se de ampliar o horizonte de sentido, o contexto e não aperfeiçoar uma habilidade. Para isso se favorecem atividades que propiciem

·                Imagem de um corpo unificado (Imaginário).

·                Inscrição do corpo no discurso (Simbólico).

·                Relação interior-exterior (eu-outro).

·                Pragmática da enunciação e dos enunciados (Significante).

·                Reconhecimento de códigos sociais e culturais (imaginário).

·                Estratégias de socialização e recolhimento (imaginário).

·                Trabalho de autoconsciência (reconhecimento do seu corpo) e das limitações do outro semelhante. Castração própria e alheia. (Simbólico).

·                Criar as condições de possibilidade para favorecer aquilo que é sintomático e fazer disso um saber-fazer.

          Em todos os casos trabalhar a partir daquilo que o diagnosticado traz (desde seu sintoma: ecolalia, estereotipia, mania) e acolher isso como oferta para um possível laço, sem esperar nunca a resposta “certa” de uma demanda histérica do lado do terapeuta. A função de corte, de limite deve sempre ir junto com a possibilidade de substituição. Passar do proibido/permitido ao limite/substituição.

 

Sobre o grupo de trabalho

          O grupo de trabalho será composto por alunos e professores de diferentes áreas, tais como: filosofia, linguística, psicologia, música, dança, educação física, pedagogia, enfermagem e fonoaudiologia. O trabalho deve ser articulado em forma de projeto terapêutico singular, não sendo compartimentalizado senão articulado no diálogo entre os profissionais.

          Deve-se trabalhar supondo um sujeito capaz de fazer laço com os objetos e com os outros e não uma anomalia específica ou disfunção a ser normatizada.

          A família deve ter acompanhamento terapêutico e orientação médica, terapêutica e pedagógica.

          Os profissionais que trabalham em instituições com autistas não podem trabalhar mais de 6 horas e devem ter acompanhamento terapêutico, capacitação constante e encontros para articular as propostas de trabalho em cada caso.

          A tensão, o stress e o mal-estar da família e dos profissionais prejudica todo o trabalho com o diagnosticado, por isso também deve existir um planejamento de trabalho que diminua a tensão.

          As instituições de tratamento devem ter espaço para atividades lúdicas e esportivas e, especificamente, ambiente natural onde caminhar e correr livremente.

          Os exercícios físicos, os jogos com o corpo, a livre caminhada e corrida favorecem o reconhecimento de um corpo próprio e a diminuição de tensão na infância e na adolescência. A dança, o teatro, a piscina contribuem com a imagem corporal e a psicomotricidade.

          Deve-se propiciar a “inclusão social” com atividades além da casa e da instituição de tratamento. Não se trata simplesmente de “por” o sujeito no meio de qualquer lugar, mas de fazer um lugar para ele em relação com algo outro fora da rotina: Passeios, visitas a lugares de cultura e entretenimento, brincadeiras com animais, etc.

 

Considerações sociais sobre o fenômeno do autismo

          O termo autismo tem produzido o efeito de invisibilização do sujeito ou o tem transformado em mercadoria, o autista é excluído ou transformado em cliente (é objeto de matéria jornalística, é cliente de médicos e terapeutas, cliente de “políticas ou propostas inclusivas”). O mesmo fenômeno que permite “dar voz” e fazer aparecer um individuo com diagnóstico invisibiliza o sujeito em questão é o objetiva em mercadoria e cliente, inclui num sistema de produção e consumo. No entanto, o autismo como fenômeno nos oferece a oportunidade de nos demorar com relação a modos de ser, entre nós, dentro das sociedades urbanas de massas, diferentes, não normatizados para a produção e o consumo a ritmo regular. Dar lugar àquilo que se nomeia de autista,  oferece a oportunidade de refazer as exigências das nossas próprias demandas em relação com o outro, na vida cotidiana e nas instituições.

 

Metodologia de trabalho

Trabalho lúdico-terapêutico-pedagógico, de caráter transdisciplinar. O trabalho é direcionado para pessoas com diagnóstico de autismo e a seus familiares.

Atividades diárias realizadas a partir de um tema gerador, a ser escolhido conjuntamente a partir de uma primeira experiência. O planejamento semanal, mensal e semestral deve ser realizado coletivamente com os membros do grupo.

Uma vez por semana, encontro de todos os profissionais para discussão de casos e propostas pedagógicas.

 

Atividade

 

segunda-feira

terça-feira

quarta-feira

quinta-feira

sexta-feira

pedagógica

 

Terapêutica

 

Lúdico-recreativa

 

 

sábado, 5 de agosto de 2023

Para todos os profissionais Trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar com pessoas com diagnóstico de autismo

 

Para todos os profissionais

 

Trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar com pessoas com diagnóstico de autismo

 

Este rascunho foi redigido a partir da observação do trabalho clínico-pedagógico e da escuta dos relatos, argumentações e reflexões dos profissionais do instituto ser. É uma proposta de escrita coletiva sobre a experiência original de trabalho com pessoas diagnosticadas com o termo autismo. Convida-se a todos os interessados a participar da escrita a múltiplas mãos propondo modificações, ampliações, reduções, introdução de outros elementos e tudo aquilo que considere pertinente para apresentar aquilo que é a peculiaridade do trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar do instituto ser. A contribuição pode ser na forma de correção, acréscimo, mudança, introdução de dado, etc que lhe permita ao interlocutor entender o que se faz, qual é a modalidade do trabalho e quais os resultados que se procuram. NÃO É OBRIGATÓRIO, APENAS PODEM PARTICIPAR AQUELES QUE ASSIM O DESEJEM.

 

 

Objetivo: o presente escrito tem como objetivo apresentar os elementos conceituais básicos a partir de e com os quais os professionais de diferentes áreas (psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, educação física, educação artística (dança, teatro, música), pedagogia, letramento, ensino de ciências e filosofia, terapia ocupacional) do instituto Ser desenvolvem seus trabalhos com pessoas (crianças, adolescentes, jovens e adultos) diagnosticadas com o termo de autismo (grave, moderado e leve).

 

A fim de ser claros e precisos relacionaremos cada termo articulando um com outro.

 

  1. Desejo do profissional e desejo do educando

O desejo é o ponto de partida do trabalho do profissional. Esse desejo se apresenta nas perguntas acerca de:

1.      Por que está fazendo esse trabalho? O que sustenta diariamente essa atividade e não outra? Que objetos ou afetos se lhe apresentam em relação com esse desejo? (Dinheiro? Fama? Altruísmo? Pena? Culpa?...)

2.      Que mecanismos psíquicos o sustentam nessa atividade? (masoquismo? Narcisismo?...)

3.      Que elementos identitários sustentam a relação com os educandos?

4.      Que experiências afetivas são mobilizadas na prática cotidiana? (experiência de desamparo? Angustia? Carência?....)

Todos esses elementos conformam o lugar desde o qual o profissional se coloca em ato para seu trabalho clínico-pedagógico. É fundamental que o profissional trabalhe analiticamente sua posição como sujeito para poder reconhecer aquilo que pode afetar sua própria saúde psíquica e também seu labor clínico-pedagógico.

 

Se pensarmos que, aquilo que suporta a relação a objetos contingentes, mecanismos psíquicos, elementos identitários e experiências afetivas, é o desejo entendido como falta, isto é, não se trata do desejo de algo específico, mas de um sujeito que não é completo e por isso se coloca em movimento, um sujeito que não é autossuficiente (que não se satisfaz completamente consigo mesmo) e por isso estabelece vínculo com os outros, então, podemos dizer que o desejo do profissional é a própria falta, quer dizer a experiência de estar aberto, a experiência de que possa vir a acontecer o inesperado. Isso significa estar aberto à diferença e poder vir a acolher essa diferença. Essa posição do profissional que vivencia a falta como experiência de estar aberto a que ocorra algo inesperado é detentora de um saber, o saber de não saber o que pode acontecer e mesmo assim vir a lidar com isso. Isto implica em reconhecer que qualquer ilusão de controle do porvir está fadada ao fracasso, mas mesmo assim, age-se como se o contingente e o temporário não sejam meramente efêmeros.

A partir desse lugar de desejo enquanto falta como estar aberto ao inesperado é que podemos acolher o desejo do outro.

O desejo do outro é também a falta, a falha, a incompletude que o constitui enquanto tal.

 

  1. Demanda

O desejo do outro é a incompletude com a qual se apresenta diante de nós, mas aparece para nós como demanda. Demanda de que? Fundamentalmente demanda de reconhecimento. O sujeito demanda ser reconhecido como alguém que está-aí com os traços que o constituem enquanto tal.

Para que exista demanda alguém tem que acolher algo como sendo uma demanda. Não há demanda se alguém não se coloca no lugar de quem está na posição de demandado e sustenta a demanda. Sustentar a demanda é se colocar aberto ao inesperado vindo do outro e ao mesmo tempo produzindo efeitos que permita articular simbolicamente o elemento oferecido.

 

A situação padrão é se colocar no lugar de quem sabe e aplica o que sabe visando sanar uma falha no indivíduo objeto do saber e da técnica. Essa posição supõe que se sabe o que o indivíduo precisa e qual é o modo de obter aquilo. Assim, se procede por adestramento buscando a otimização das respostas previamente determinadas como corretas. Este funcionamento é adequado para aperfeiçoar mecanismos de repetição. A vida cotidiana opera com comportamentos repetitivos e automáticos (escovar dentes, ir ao banheiro, sentar-se à mesa, cumprimentar os outros...). Porém, na vida cotidiana quando o comportamento mecânico e repetitivo não está articulado num horizonte de sentido, isto é, numa ordem simbólica que permita dar sentido a um comportamento em relação com todos os outros, se produzem indivíduos autômatos capazes de significação binaria e unidirecional, treinados para responder segundo o previamente estabelecido. Assim, qualquer diferença emergente, qualquer contingência não prevista na vida cotidiana ou é incompreensível ou é considerada erro. Quando o sujeito não tem elementos simbólicos para lidar com esse imprevisto que rompe a rotina dos comportamentos controlados um ato violento pode ser o único modo encontrado para tentar se sustentar.

Portanto, a condição logicamente anterior ao comportamento mecânico e repetitivo é a constituição de um horizonte de sentido onde poder inscrever aquele.

Por isso, o trabalho clínico-pedagógico do instituto ser se pauta pela articulação de elementos dos dois registros, a saber, os comportamentos e o horizonte de sentido no qual se inscrevem. Deste modo, os professionais não só trabalham sobre os comportamentos demandados, esperados e socialmente aceitos, senão também com a possibilidade de que estes e outros inesperados possam vir a fazer sentido para o sujeito em questão. Quer dizer que os professionais reconhecem a exigência que a sociedade faz para aceitar e incluir indivíduos, mas também reconhecem o desejo que o sujeito apresenta na sua singularidade diante dos outros e da sociedade. A constituição de um horizonte de sentido ou ordem simbólica onde inscrever comportamentos mecânicos e repetitivos também permite deslocamentos de significado, quer dizer, que X tenha um significado A num contexto e um significado B noutro contexto e que a experiência desta compreensão não seja apenas resultado de um treinamento fechado que impõe essas duas possibilidades senão uma associação de pensamentos do sujeito segundo uma ordem simbólica que faz sentido para ele também.

A riqueza simbólica não só permite deslocamentos criativos de significação, também contribui para dar sentido ao inesperado sem cais no desespero do non sense que deriva no rompimento dos laços sociais e objetais ou em atos violentos. Para poder trabalhar sobre a ordem simbólica é preciso estabelecer um vínculo afetivo com o educando que permita deixar aparecer aquele elementos que o constituem enquanto tal.

 

  1. Reconhecimento da diferença e vínculo afetivo (transferencial)

Acolher o educando significa reconhecer lá um sujeito, quer dizer, alguém incompleto que ao mesmo tempo oferece algo com o qual estabelecer um laço. Aquilo que se oferece pode ser um chute, uma mordida, um olhar efêmero, um traço que possa ser destacado e articulado como elemento de vínculo. A transformação desse elemento que vem do sujeito permite operar o reconhecimento do sujeito e consequentemente o estabelecimento do laço ou vínculo afetivo. Que significa “transformar o elemento”? Significa seu uso lúdico, polissémico, onde o elemento não se fecha numa significação unidirecional senão que se abre para a possibilidade do equívoco que permite fazer aparecer o afeto que esse traço, ato ou objeto também carrega além ou aquém do significado fixado. Por exemplo, um chute pode ser entendido como um ato violento que eventualmente deveria ser reprimido, mas também pode significar um exercício de estiramento muscular que nos convida a um trabalho esportivo ou um modo de tocar o corpo do outro que nos propõe experiências de contato entre um eu e um outro ou entre interior e exterior ou ainda como um ato de violência que revela a sensação de medo, desespero, insegurança, incerteza diante do estranho. A questão é poder trabalhar com a multiplicidade de significações que podem ser dadas para, desde o lado do profissional, oferecer ao sujeito a possibilidade de ocupar outro lugar desde onde lançou o elemento que permite o laço. Isso pode permitir passar de uma situação afetiva para outra. De uma situação afetiva de recua para outra que possibilite aproximação e encontro entre os corpos.

O laço não é outra coisa que o ordenamento de corpos e no trabalho clínico-pedagógico precisamos de um ordenamento de corpos que facilite o labor sobre o simbólico.

Do lado do sujeito, o vínculo com o profissional pode se dar pelo modo de lidar com a polissemia do elemento vindo do sujeito, por um traço destacado pelo sujeito do profissional ( a cor do cabelo, o tom de voz, ...). O sujeito toma o traço destacado do profissional e o inscreve a partir da sua memória simbólica atualizando aquele elemento da sua memória no traço atual destacado do profissional. O sujeito atualiza um elemento que pertence a uma situação passada na nova situação diferente e ao mesmo tempo igual do presente.

 

Até aqui, a nossa experiência clínico-pedagógica nós revela que o nomeado “autista” tem demanda, tem registro de eventos passados com significado, tem capacidade de deslocar elementos significantes para tempos e contextos diferentes, isto é, tem plasticidade simbólica. De fato, a experiência prova a validade da sentença “não existe significado sem contexto”. A questão é quão limitada ou rica pode ser a ordem simbólica que permite que o sujeito possa fazer passar um elemento de um contexto para outro mudando o referente e seu significado.

 

O vínculo afetivo é a condição sine qua non para qualquer trabalho clínico-pedagógico que não se limite a mero adestramento e que se debruce sobre a ordem simbólica.

 

  1. Simbólico

O trabalho clínico-pedagógico se pauta fundamentalmente pela incidência sobre a ordem simbólica do sujeito, que dizer, sobre o horizonte de sentido onde um objeto X pode passar de significar A a significar B, quer dizer, onde um papel amassado pode virar uma bola de futebol, um pano pode virar um muro ou uma cama, ou um rio, um rabisco pode virar o desenho de uma árvore, um movimento repetitivo pode virar um gesto articulado... etc. Para que isso seja possível é preciso trabalhar no Real do corpo, na conformação de interior/exterior do corpo, da aproximação e distanciamento de corpos diferentes.... Constituir uns limites do corpo dito próprio em relação com os objetos e os corpos outros. O reconhecimento de um corpo dito próprio é trabalhado nos exercícios de educação física e fisioterapia experimentando o cansaço, a excitação e o relaxamento, a respiração, a tensão muscular, nos exercícios de fonoaudiologia experimentando a sonoridade no corpo, nas atividades pedagógicas favorecendo experiências cognitivas empíricas e intelectuais sobre os limites dos corpos. O corpo dito próprio precisa ser experimentado como próprio e não apenas como estranho, como excitação sem contorno. Para isso, o corpo real precisa ser inscrito na linguagem. É a linguagem que dá forma e lugar, na medida do possível, a esse corpo estranho que o sujeito habita sem se apropriar dele com um mínimo de usufruto. Assim, o trabalho do corpo na linguagem, nomear o que acontece é fundamental para inscrever o corpo real, permitir o deslocamento de sentido dos objetos reais e tentar lidar com as situações reais imprevistas.

 

  1. Linguagem

A linguagem é aquilo que permite dar forma e lugar ao corpo Real e ao deslocamento de sentido dos objetos, situações e enunciados. Não reduzimos linguagem apenas a palavras, mas incluímos estas num conjunto mais amplo. Um signo, uma imagem, um som, um movimento pode ser entendido como linguagem na medida em que permita dar forma e lugar ao Real dos corpos. Incluímos aqui também a linguagem falada do interlocutor do educando (tenha este fala ou não) na medida em que esse empréstimo temporário, porém sustentado, funcione articulado com o comportamento do sujeito para dar forma e lugar ao corpo Real.

Inclusão aqui talvez seja isso: estar-com-o-outro numa linguagem falada onde a diferença possa ser acolhida seja como familiar seja como inesperada e descontinua com a possibilidade de ser apreciada esteticamente como única ou como possibilidade de início de outra série de sentido.

 

Na vida cotidiana padrão nossos diálogos supõem a colaboração e a boa vontade dos interlocutores. Uma conversa bem-sucedida só avança se o receptor da mensagem colabora com a construção de sentido do enunciado. Uma conversa pressupõe significados excluídos, tem frases ou partes de palavras interrompidas onde o receptor completa o enunciado desde o que supõe ser o sentido que o outro procura dar e a resposta dada supõe estar no mesmo registro de sentido que a pergunta. Isto significa que o sentido se estabelece numa ordem simbólica que não é meramente individual e subjetiva ou puramente arbitrária em relação a um eu isolado, mas construída equivocamente no estar-com-o-outro reconhecendo singularidades articuladas em estruturas simbólicas logicamente anteriores ao sujeito e suas vivências. Isto significa que a fala do profissional no seu trabalho clínico-pedagógico não é apenas dele, mas também do sujeito em relação ao qual está sustentando uma demanda na medida em que opera como suporte simbólico do Real do sujeito dando forma e lugar.

 

  1. Fala

A fala no trabalho dos professionais com os educandos permite dar sustentação simbólica e criar narrativas imaginárias desde onde o sujeito pode se reconhecer como ele mesmo e não outro ou ninguém. Isso é sustentar a demanda que pode vir a provocar o movimento ou o trabalho do sujeito na elaboração de laços sociais  e objetais. A fala tem dois aspectos a serem destacados: a sonoridade (o tom de voz, o ritmo, a cadência...) e a narrativa (o dito e o não dito). A sonoridade pode ser um elemento que produz laço. A narrativa deve ser construída desde o sujeito embora a sonoridade das palavras possa ser emprestada pelo profissional.

Na vida cotidiana padrão tomamos emprestado do outro o idioma, o sotaque, o léxico, o modo de construirmos enunciados, as onomatopeias, as gestualidades... Todos esses elementos emprestados são tidos como próprios embora sejam alheios. O alheio é apropriado para construir o sentido no qual habitamos. Nos casos nomeados como “autismo” onde o sujeito não fala ele poderia estar tomando emprestada a sonoridade do profissional com o qual busca construir sentido.

Dar voz ao sujeito é extremamente importante, mas a condição logicamente anterior está em dar ouvidos àquilo que o sujeito, mesmo se fala, está dizendo. A condição de possibilidade do funcionamento da fala e da linguagem está na escuta.

 

  1. Escuta

Escutar é estar atento à aparição de elementos que possam ser tomados como significantes do sujeito. O que são elementos significantes do sujeito? São elementos que funcionam como elementos ordenadores de comportamentos ou enunciados em torno dos quais giram ou se organizam outros elementos de ação ou enunciação. Os elementos significantes do sujeito permitem que este apareça como alguém que diz ou faz algo. A partir da escuta deles é possível, trabalhando a polissemia, transformar e ampliar o horizonte de sentido onde articular novos movimentos corporais e novos enunciados.

Dar um significado rígido e unívoco a elementos significantes onde A significa B e somente B ou no máximo C obstaculiza o trabalho do encontro com o inesperado e condena ou elimina a possibilidade de resolução de problemas com respostas criativas. Isto é, nega o sujeito em prol da demanda socialmente aceita. Para que o nomeado “autista” fale é preciso que alguém escute e sustente a escuta mesmo do silêncio. A escuta, ao mesmo tempo que é colaborativa é também equívoca (polissêmica) acolhendo o significado e abrindo o horizonte de sentido para outras possibilidades de significação.

 

  1. Significante do autismo

A rigidez do significado de um significante provoca uma determinação identitária que obriga ao sujeito a responder desde um lugar determinado limitando suas possibilidades de agir e encontrar saídas para situações não programadas. Por isso, como todo significante só faz sentido em relação com outros significantes o trabalho da fala e da linguagem transforma o significante de obstáculo para facilitador de novas experiências do sujeito. Por exemplo, o chapeuzinho vermelho pode uma mocinha presa numa narrativa, mas também podemos recontar a história levando ela para a balada ou para a padaria. Assim, o significante chapeuzinho vermelho se articulou com outros elementos mudando o sentido. Também o significante autismo pode ter uma significação restrita ou pode ser a oportunidade de novas formas de conceber o corpo e os laços em novas experiências.

 

  1. Experiência, sensibilidade, olhar para a vivência

O que é uma experiência? Como uma experiência pode contribuir para a ampliação da ordem simbólica do educando?

 

  1. Repetição

A ecolalia e a estereotipia podem ser entendidas como modos de ordenar o mundo diante do inesperado, da experiência de desamparo, da sensação de insegurança, incerteza ou medo do estranho.

Na vida cotidiana padrão repetir comportamentos e hábitos nos dá a sensação de segurança, controle e previsão do que possa acontecer. Repetir também é uma forma de obter um prazer que foi experimentado ou atualizar a situação na qual vivenciamos um lugar de sofrimento ou de reconhecimento em relação com o outro. A repetição faz parte da constituição da própria subjetividade. Assim, trata-se menos de eliminar a repetição e mais de lhe encontrar um lugar na ordem simbólica e um mínimo de usufruto para o sujeito. Trata-se de transformar a estereotipia em gesto. A repetição pode passar de automatismo rígido a movimento lúdico. O jogo, o brincar é a atividade fundamental para alcançar a ampliação e a plasticidade simbólica.

 

  1. Brincar

O que significa brincar? O que é uma atividade lúdica e ao mesmo tempo clínico-pedagógica? Como brincar para alcançar a ampliação do horizonte de sentido, para inscrever o corpo real dando forma e lugar? Como as atividades lúdicas podem contribuir para lidar com a mudança de situações, regras e o surgimento do inesperado?

 

Trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar

A vida cotidiana e a experiência clínico-pedagógica nos mostra a dificuldade que temos para lidar com o diferente, com o inesperado, com aquilo que não se submete à regra que nós devemos seguir, com as rupturas, com as perdas, com os fracassos e frustrações, com as excitações do corpo real que nem sempre se nos aparece como sob o controle da nossa vontade.

Essas dificuldades aparecem nas pessoas que tem uma vida cotidiana padrão e também nas que são diagnosticadas de “autismo”. O inconveniente maior está em que algumas pessoas lidam com essas dificuldades de tal modo que resulta num sofrimento para além do suportável seja pela impossibilidade de inscrição do real do corpo seja pela impossibilidade de se submeter ao mandato da ordem social. É esse sofrimento excessivo que se procura transformar num mínimo de usufruto para o sujeito. Para isso, paralelamente com o acompanhamento médico e medicamentoso, nos propomos um trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar que não seja um mero adestramento e disciplinamento do indivíduo senão uma vivência que permita encontrar um lugar como sujeito e estabelecer laços sociais e de objetos que possibilitem uma autonomia relativa. Não se trata apenas de trabalhar por tabela para alcançar resultados pré-fixados, mas de reconhecer a singularidade do que pode vir a ser dito próprio em cada caso.  A experiência clínico-pedagógica nos revela que sob o termo do autismo cabem situações de subjetividades muito diversas. Trata-se de não negar essa diversidade senão, ao contrario, partir dela.

 

Cabe acrescentar que para que o sujeito possa melhorar sua qualidade de vida, além do tratamento médico e terapêutico do educando é preciso um trabalho com as pessoas mais próximas de convivência cotidiana (por exemplo, a família) que deve lidar com uma situação não comum e uma reformulação do espaço público e das regras de convivência social. Esta situação talvez seja o obstáculo mais complicado, a logica da produção e do consumo que pauta as relações sociais não tolera qualquer pausa ou interrupção. Condições sociais restritivas impedem o reconhecimento do diferente buscando sua adaptação forçada, sua negação ou diretamente sua eliminação como mero resíduo. Assim, o trabalho clínico-pedagógico transdisciplinar está focado na relação com o educando, mas se complementa no diálogo com a família e no trabalho de esclarecimento da sociedade.

 

Com estes elementos que conformam o dispositivo conceitual geral passamos agora a apresentar o modo de trabalho de cada profissional em cada área.

 

Apresentação do trabalho de cada profissional (breve relato de no máximo 4 ou 5 páginas)

  1. Como é o primeiro contato?
  2. Qual é o ponto de partida do trabalho com o educando?
  3. Como se propõem os objetivos e as metas em cada caso?
  4. Como se desenvolve o trabalho para alcançar os objetivos? Qual é o modo de trabalho?
  5. Como se reconhecem os progressos do trabalho e seus resultados?
  6. Relato BREVE de um exemplo ou mais de trabalho onde possa se verificar os elementos anteriormente apresentados.

 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Sobre a teoria e a prática clínico-pedagógica. Esboço do trabalho dos profissionais com pessoas diagnosticadas de autismo

 

Sobre a teoria e a prática clínico-pedagógica.

Esboço do trabalho dos profissionais com pessoas diagnosticadas de autismo

 Sumário

Introdução ao tema e apresentação do problema

Hipótese

Encaminhamento

Procedimento

Pressupostos

Tarefas

Observações

Resultados

 

 

Introdução ao tema e apresentação do problema:

As pessoas que entram com diagnóstico de autismo são de ambos sexos e variadas idades (crianças, adolescentes, jovens e adultos). Os problemas que as famílias apresentam sobre a pessoa diagnosticada variam. Em geral as pessoas que ingressam têm dificuldades nos movimentos corporais, membros ou parte dos membros com rigidez, dificuldades na fala, ou na comunicação, dificuldades em estabelecer experiências cognitivas, sociais e de comunicação com todos ou com algumas pessoas ou em alguns âmbitos. Constata-se situações de ecolalia, estereotipia e/ou mania.

 

 

Hipótese:

A criança faz fantasia e, portanto, metáfora, quando está brincando. A brincadeira permite criar a possibilidade de lidar com a realidade enquanto tal, com aquilo que lhe aparece como externo, como não subordinado à sua vontade. O adulto limita ou obtura essa possibilidade instalando uma direção, uma orientação definida de sentido. Desse modo, o adulto exige uma resposta também definida, obriga a criança a responder desde um lugar específico. Nomear a criança, dar nome a ela é, entre outras coisas, obrigar a ela a responder pelo nome dado. Por outro lado, não nomear, não dar nome, é deixar o Real de um corpo a céu aberto, sim possibilidade de simbolização. A vida adulta não só exige uma renuncia pulsional (regular o esfíncter, não comer o corpo da mãe, não matar o pai etc.), também impõe determinados circuitos pulsionais (impulsos que tem como origem o corpo e como meta a descarga de energia em algum objeto, pessoa ou atividade), quer dizer, inflige determinadas formas de descarregar a energia do corpo, excluindo ou proibindo outras de acordo com os costumes sociais reconhecidos como corretos, certos ou adequados. Essa realidade socialmente construída impõe formas de repressão e satisfação e exclui àquele que não obedece mecanismos determinando o normal e o patológico, o legal e o ilegal, o moral e o imoral.

 

Um sofrimento corporal insuportável não permite que a criança brinque e provoca o fechamento, em diferentes intensidades, sobre um corpo ainda não simbolizado, quer dizer, ainda não determinado entre o interior e o exterior, um corpo topologicamente (espacialmente) peculiar buscando segurança na repetição compulsiva. Isso produz como efeito as dificuldades de comunicação, socialização e cognição. Quer dizer, dificulta os laços sociais e objetais por serem recebidos como estranhos. O sofrimento corporal é vivido como Real, sem sentido, sem causa, sem narrativa que o acolha desde uma posição de sujeito de um discurso. O sofrimento corporal Real não simbolizado nem imaginarizado na primeira infância poderia ser o determinante das condutas repetitivas. Assim, aparecem afetos: medo, pânico, desamparo que reaparecem imediatamente diante do estranho, do imprevisto. Isso pode produzir o apego a um objeto, a um ato repetitivo, a uma figura materna ou de cuidadora. Quando esta rotina é rompida por algum evento externo imprevisto ou inclusive uma sensação corporal o sujeito pode vir a reagir de modo violento para outros ou para si como os casos de automutilação como resposta não simbolizada diante do estranho.

 

Encaminhamento:

Acolher o sujeito na sua singularidade desde o primeiro encontro. Quer dizer, evitar pelo lado do profissional fazer uma demanda padrão ao sujeito. Assim, é preciso dar sentido de demanda àquilo que vem do sujeito. Fazer daquilo que vem do sujeito um apelo de reconhecimento de existência enquanto sujeito de uma experiência (baba, grito, papel amassado, repetição, chute, mordida.... são formas de dizer “eu existo). Dar lugar a esses gestos em um contexto onde o laço possa vir a aparecer. Deste modo, pode se estabelecer um vínculo afetivo. O vínculo afetivo se estabelece com mais de um profissional, com o lugar, com as atividades, com os objetos de intercâmbio, com os outros educandos trabalhando o acolhimento da diferença de cada sujeito e também o corte, quer dizer, o exercício da perda, a mudança de atividade e de lugar para possibilitar o aparecimento do sujeito individual e grupalmente. Deste modo, cada profissional pode trabalhar na sua área específica com suas técnicas específicas individual, grupal e transversalmente num projeto clínico-pedagógico singular e grupal.

O trabalho transversal coordenado permite sustentar a demanda alternadamente. Evita-se o apego individual e o desgaste físico e psíquico do profissional no esforço de sustentar sozinho um laço afetivo favorável ao trabalho. A clínica nos mostra que o profissional não tem condições (enquanto sujeito de desejo) de suportar o tempo todo a demanda do outro sem colocar sua própria demanda histérica, quer dizer, sem pedir que o outro responda à falta do próprio profissional. Quando isto acontece é aconselhável reconhecer a própria limitação e dar lugar a outro profissional.

 

O procedimento:

Cada profissional trabalha conteúdos da sua área de forma lúdica, criativa, inventiva, segundo a demanda do sujeito individual e do grupo entre o acolhimento, o deslocamento de sentido e o corte na medida do possível. Assim, as técnicas de adestramento (escovar dentes, ir no banheiro, sentar na mesa para comer etc) devem poder ter contexto explícito e abrir esses contextos deve ser o grande objetivo do trabalho já que permite a possibilidade de passar do significado fixo da repetição ao sentido polissêmico na medida do possível.

 

Pressupostos:

O suposto sujeito manifesta afetos, faz demandas, repete num contexto mínimo, tem algum entendimento do seu entorno. O sofrimento corporal Real originário que carrega é causa e prova disso.

As repetições são formas de tamponamento do desamparo diante do inesperado que se transforma num abito de segurança. Quer dizer que com isso executa mecanismos de sobrevivência, é o modo que encontra para realizar o impulso de vida que o sustenta. Quando isso não resulta, parte para a passagem ao ato, quer dizer, tenta dar conta de uma situação insuportável no Real pela via da violência e da automutilação. A saída pode estar em significar esse ato dando um horizonte de sentido diferente, uma simbolização e outra narrativa. Se isso não resulta o sujeito precisa de contenção até o Real do corpo poder diminuir sua excitação. Às vezes um corte pode funcionar, mas também não é regra. Aliás, nada aqui funciona como regra dentro de um protocolo definido a priori e válido para todos os casos. Sendo que o trabalho clínico-didático é sempre sobre a contingência não há protocolo a priori que responda de forma padrão.

 

Tarefas:

Tem dois aspectos que devem ser tratados em próximos encontros para poder refletir e encontrar possibilidades de abordagem: 1. O lugar e modo de se relacionar com as famílias dos educandos; 2. O desgaste emocional, corporal e psíquico inevitável dos profissionais no seu esforço por levar adiante seu trabalho com os educandos.

Se entendemos que o sujeito que acolhemos na clínica-escola se produz em relação com outros sujeitos, objetos e lugares, estes dois elementos não são meramente secundários senão fundamentais. A eficácia do nosso trabalho, no sentido de possibilitar a autonomia individual e o vínculo social, depende em grande medida da relação com a família e os profissionais. Assim sendo, ambos os aspectos devem ser pensados coletivamente. Os sentimentos e afetos de amor, ódio, ressentimento, frustração, decepção, angústia, compaixão, tristeza, pena etc dos profissionais e das famílias são elementos a serem considerados e elaborados. Embora seja pertinente separar o privado do profissional isso nem sempre é possível de ser controlado conscientemente. Por isso, propomos, com certa cautela e de modo não invasivo, falarmos sobre estas questões.

 

Observações preliminares:

Este texto é resultado do convívio com os educandos, da observação e escuta das famílias dos educandos do Ser e do trabalho realizado pelos profissionais do Ser. Entendo que o texto explicita o que os profissionais realizam este trabalho há anos. O objetivo do texto é colocar sobre o papel, de modo geral, essa experiência a fim de provocar um debate, uma reflexão e um escrito coletivo que mostre a originalidade e os resultados dessa prática fundada numa longa e aprofundada formação. Bem como avançar em novas formas de trabalho e técnicas específicas.

 

O convite é aberto a todos, a participação é voluntária. Porém, meu apelo é que todos possam contribuir na medida do possível e nos tempos de cada um.

 

Resultados esperados:

1.                  Refletir sobre o trabalho realizado com a perspectiva de enriquecer o trabalho futuro

2.                  Propiciar um lugar de encontro para a coordenação de atividades e a melhora da sintonia de trabalho entre os profissionais

3.                  Criar um espaço de formação continuada

4.                  Dar apoio científico-académico para quem quiser produzir artigos ou livros

5.                  Produzir coletivamente livros sobre o trabalho clínico-pedagógico com o intuito de mostrar e deixar estabelecida a originalidade científico-técnica.

 

Daniel Omar Perez

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A psicanálise como experiência ética, o problema da cientificidade e da ontologia.

 

HF090 Tópicos Especiais de Filosofia da Epistemologia da Psic. e da Psicanálise II

A psicanálise como experiência ética, o problema da cientificidade e da ontologia.

 Docente: Daniel Omar Perez

 1 semestre de 2022

 Vetor Carga Horária: T:30 P:0 E:30 D:0 R:0 HS:4 SL:30 C:4

Tipo de Aprovação: Aprovação por Conceito e Frequência

Frequência: 75

 

 

Data e hora: segunda-feira de 9.00 a 11.00 horas

 

 

Ementa: O objetivo desta disciplina está dividido em partes:

1.      apresentar uma interpretação da psicanálise (Freud-Lacan) como experiência ética. Para alcançar tal fim, mostraremos os limites de uma psicanálise entendida como ciência nos padrões da epistemologia popperiana, indagaremos sua especificidade e interrogaremos o que compreende a sua eficácia; articularemos os conceitos fundamentais da teoria e da prática psicanalítica (lei e desejo) não como elementos de um modelo explicativo de fenômenos naturais senão como condição de possibilidade de uma experiência do sujeito com o próprio desejo e com as interdições que o constituem. Nesse ponto abordaremos as noções de natureza e de ideal. Será preciso ainda especificar as noções de experiência e de ética, já que a primeira não será usada no sentido de experiência perceptiva ou cognitiva, e a segunda não se referirá a um princípio ou regra ou conjunto de princípios ou regras de determinação de ação que procuram a realização ou conquista de um bem e, finalmente, concluiremos que a experiência analítica como experiência ética se produz no reconhecimento da lei que provoca um para-além-da-lei (desejo) que se distingue estruturalmente do gozo absoluto.

2.      mostrar que a elaboração da psicanálise desde Lacan se apresenta como uma reflexão pré-ontológica e ética. Contrariamente às interpretações “ontológicas” realizadas a partir de J.A. Miller e S. Zizek sustentamos desde os argumentos de Lacan que a psicanálise não precisa de ontologia para acolher a experiência de gozo e de desejo.

 

 

 

Programa:

 

Aula 1: A psicanálise como experiência ética e o problema da cientificidade

 

Aula 2: A psicanálise como experiência ética e a clínica

 

Aula 3: O esquecimento da tragédia e a psicanálise como experiência ética

 

Aula 4: O corpo e a lei moral entre Kant e Lacan

 

Aula 5: O problema da lei e do desejo entre Kant e Antígona

 

Aula 6: As figuras éticas de Santa Teresa, Borges, Nietzsche, Camões e Ernst Junger

 

Aula 7: Lembar, Elaborar... Perdoar?

 

Aula 8: Para além da lei

 

Aula 9: Os filósofos, os terapeutas e a cura

 

Aula 10: A psicanálise e a cura

 

Aula 11: A psicanálise entre a religião, a filosofia e a medicina

 

Aula 12: A clínica psicanalítica nas psicoses

 

Aula 13: Lacan contra a ontologia

 

Aula 14: Apresentação e debate das propostas dos trabalhos dos participantes

 

Aula 15: Apresentação e debate das propostas dos trabalhos dos participantes

 

[*em cada aula entregarei um texto escrito por mim para acompanhar a leitura e as referências.]

 

 

Bibliografia:

 

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Modo de exposição da disciplina: aulas expositivas com debate entre os participantes.

Horário de atendimento para consulta: terça-feira de 14 a 16 horas com agenda.

Avaliação: trabalho final escrito individual sobre um dos elementos abordados no curso

Tipo de Aprovação: Aprovação por Conceito e Frequência

Percentual Mínimo de Frequência: 75

Aceito alun@s especiais

Precisa-se sala de aula no IFCH