terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Em breve, um livro de William Mac Cormick sobre identificação.

 Do líder, as identificações e as coletividades

O trabalho de Willian Mac-Cormick Maron publicado aqui sob a forma de livro é o resultado de uma pesquisa que se demorou uns quatro anos na sua formulação, detalhes e consequências. Desde o início do percurso a pauta foi determinada pela observação e a formalização dos modos em que alguém pode vir a ocupar a posição de líder de um conjunto de pessoas. Iniciou-se esse caminho em 2010 com uma interrogação sobre a questão e algumas hipóteses sobre grupos. O relevamento bibliográfico que compõe a história desse tema levou o pesquisador a trabalhar na história da filosofia política, nos escritos sociológicos e psicológicos do século XIX, nas formulações da psicanálise de Freud e Lacan durante o século XX e nas interpretações recentemente publicadas, no inicio do século XXI, especialmente interessadas tanto em questões clínicas quanto sociais e políticas.

A leitura e a análise das fontes não foi pouca. Assim o exige o tema e o problema proposto na investigação. O resultado levou à possibilidade de elaborar algumas tentativas de aproximação à questão:

Como é que aparece e funciona o lugar do líder e a coesão do grupo?

Há um primeiro momento de análise da liderança de grupos cuja tematização se realiza especialmente na filosofia política de Maquiavel e Hobbes, nos séculos XVI e XVII. Ambos os filósofos teorizaram sua própria prática política. O primeiro realizou seu trabalho como assessor dos Medici em Florença e com Cesar Borgia em Roma. O outro com a monarquia na Inglaterra. Os dois foram militantes de grupos que nem sempre se viram de cara ao sucesso e a vitória. Ambos sofreram na carne, literalmente, a exclusão do grupo hegemônico. O segundo momento de análise de liderança pode ser reconhecido nos trabalhos sociológicos e psicológicos do século XIX. Gustave Le Bom (2008) e Gabriel Tarde (2005) tornaram-se os mais significativos dos pesquisadores de psicologia social, quiçá por serem citados pelo trabalho de Freud (2010), mas também por ser referência na sua época. O trabalho realizado por aqueles psicólogos sociais tentava dar conta de um problema novo: as sociedades de massas na Europa em pleno desenvolvimento do capitalismo. O crescimento de cidades com excluídos da cultura oficial ocupavam grande parte do espaço urbano e isso era visto como uma ameaça. O terceiro momento poderia ser determinado como sendo o da psicanálise de Freud a Lacan tentando levar adiante interesses clínicos. Com a queda da noção de individuo como elemento central, a aparição do aparelho psíquico e logo do sujeito, a questão da identificação coletiva como processo é fundamental para entender a individualidade como resultado. O quarto momento é aquele representado pelas interpretações lacanianas no cruzamento ou encontro com conceitos da filosofia do fenômeno de identificação individual e coletiva. Nesse quarto momento se insere a pesquisa de Mac Cormick.
No andamento da investigação os grupos observados começaram a aparecer em suas diferentes modalidades como pequenos grupos, coletividades e massa ou multidões. Foi constatado aos poucos que se tratava de um detalhe não menor na dinâmica das identificações que nem sempre foi diferenciado. No caso de Gabriel Tarde (2005), talvez pelo afã de procurar uma teoria geral, nos mostra a constituição do público e das multidões. No caso de Sigmund Freud (2010), com o intuito de revisar o limite das teorias anteriores, grupo ou massa estão indistintamente nomeados, porém, só se refere a grandes instituições ou casos isolados de grupos espontâneos e momentâneos. Nesse sentido, a obra de Lacan ofereceu subsídios fundamentais para a estrutura formal da identificação com o traço unário e a noção de significante, o trabalho de Juan Bautista Ritvo (2006) e (2011) proporcionou elementos para pensar as diferentes modalidades de conjuntos de pessoas e o excluído da identificação e o texto de Carlos Kuri (2010) deu a reflexão precisa para indagar o sem fundamento de uma lógica da identificação.

O resultado de Mac Cormick aqui publicado na forma de livro progride na impossibilidade de dar um conjunto de características positivadas e substanciais àquele que ocupa o lugar do líder derrubando a ilusão voluntarista ou a ideia de fatalidade inata. Também acaba com a possibilidade arbitrária da criação de coesão grupal. Isso pode ser derivado de uma leitura e compreensão de O homem Moises e a religião monoteísta de Freud (2014). Porém, em lugar de mostrar apenas obstáculos ou negatividades o autor amplia o trabalho de formalização do evento. Com um conjunto de elementos que tínhamos desenvolvido nos seminários semanais do programa de pós-graduação em filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com a participação do professor Francisco Verardi Bocca, o autor prosseguiu nos detalhes conceituais, especificações e dessa forma buscou apresentar a questão do líder e a coesão do grupo com seus problemas e também com seu funcionamento. Assim, por exemplo, com Ernesto Laclau (2011) e Carl Schmitt (2008) conseguiu articular os conceitos de povo e conflito que esclarecem e definem o fenômeno de um determinado tipo de coesão. Foi preciso ainda uma compreensão do acontecimento do amor. Esse elemento já tinha sido apresentado por Freud (2010) com sendo a base da coesão social ou grupal. Entretanto, cabe destacar que o trabalho de pesquisa de Bruna Iodice (2014) sobre o amor de Lacan a Freud desenvolvido na mesma época da pesquisa de Mac Cormick dá ainda subsídios sob outra perspectiva para quem quiser avançar na pergunta de por que nos identificamos.
O livro de Mac Cormick convida a pensar a questão do líder, as identificações e as coletividades segundo a ordem do desejo, da demanda e do conflito. O autor trabalha sobre um horizonte de vazios e instabilidades como condição de identificação e orientação de demandas. Com isto não só temos ferramentas para a compreensão e acolhimento do evento da liderança e da identificação coletiva. A partir de aqui é possível continuar um caminho de investigação acerca dos sujeitos individuais e coletivos, os modos de organizar suas demandas e a satisfação destas, bem como desenvolver uma prática clínica e social.


Daniel Omar Perez
Professor de Filosofia da Unicamp


Referências
Freud, Sigmund (2010) Massenpsycholegie und Ich-Analyse. Hamburg: Nikol.
_____________ (2014) O homem Moises e a religião monoteísta. Três ensaios. Porto Alegre: LPM.
Iodice, Bruna (2014) O amor para além do narcisismo : o dom do amor na constituição do sujeito. Dissertação de mestrado em filosofia PUC-PR.
Kuri, Carlos (2010) La Identificación: Lo originario y lo primario: Una diferencia clínica. Rosário: Homo Sapiens Ediciones.
Laclau, Ernesto (2011) La razón populista. Buenos Aires: FCE.
Le Bon, Gustave (2008) Psicologia das Multidões. São Paulo: Martins Fontes.
Ritvo, Juan Bautista (2006) Figuras del prójimo. El enemigo, el cuerpo, el huesped. Buenos Aires: Letra Viva.
_________________ (2011) Sujeto massa, comunidade: la razón conjetural y la economia del resto. Santa Fe: Mar por médio Editores.
Schmitt, Carl (2008) O Conceito do Político. Belo Horizonte: Del Rey.
Tarde, Gabriel (2005) A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes.



O cínico e a política

A origem e o traço destacável
A palavra cinismo pode ser lida como a tradução do termo grego Kynismós, que deriva de kynos ou cachorro. Cinismo refere historicamente a um movimento que poderíamos caracterizar como filosófico-político da Grécia –mais precisamente Atenas- do século IV aC. Sua origem remete a diferentes histórias orais que fundamentalmente foram documentadas por Diógenes Laercio.
Em Vida dos filósofos mais ilustres encontramos a menção a Antístenes como sendo o fundador da escola cínica e o Cinosargo como o seu lugar de reunião. Foram numerosos seus membros e também os lugares onde essa “filosofia” era praticada. A princípio qualquer espaço público era considerado como o apropriado para desenvolver uns modos de vida e umas maneiras no agir e existir. Antístenes era neto de uma escrava trácia e, portanto, nunca foi reconhecido como cidadão legítimo de Atenas. Marginalizado, seu saber era a astucia de quem sobrevive ao poder estabelecido. O cinismo teria se constituído menos como um conjunto de ensinamentos teóricos que como um estilo de vida.
Um dos membros mais significativos do grupo foi Diógenes o cínico. Exilado por causa de uma fraude que seu pai teria cometido em sua terra natal. Chegou a Atenas como um pária e viveu como um excluído. O cão –nas suas múltiplas figuras- era então um signo de um modo de vida sem aparências nem grandes mediações. O estilo de vida cínico era o de se aproximar da natureza se desfazendo de formalidades, hierarquias, protocolos ou qualquer outro modo da mentira ou do autoengano[1]. Sua linguagem era direta, igual que seu modo de agir e satisfazer suas necessidades e prazeres.
Diógenes Laercio documentou vários momentos do discurso cínico. Diante de uma pergunta ou uma sentença afirmativa a resposta ou a contrapartida se voltava para o próprio sujeito da interrogação ou afirmação.
Diógenes Laercio escreveu que um amigo de Aristipo disse:
Amigo- com esse dinheiro posso comprar um escravo.
Aristipo responde: Compra e terás dois.
Em outro diálogo, este entre Diógenes o Cínico e Aristipo, Diogenes Laercio escreve:
D- se tivesses aprendido a preparar esta comida não procurarias os paços dos tiranos.
A-      se soubesses tratar com as pessoas não estarias lavando ervas.
A rigor não se tratava de uma argumentação em favor de uma proposta, mas de deixar o outro numa situação desconfortável. Uma espécie de pragmática o de ato de fala que revelava a posição do sujeito que sustentava um enunciado. Sem possibilidade de replica o adversário mostraria sua vulnerabilidade na sua posição e não apenas em seu enunciado. A retórica cínica usava como recurso constante a ironia e o sarcasmo: um dardo envenenado com efeito retardado. O veneno fazia efeito posteriormente. Mas corroía até seu desfecho. Quem não resistir ao embate da zombaria cínica seria conduzido a um movimento sem retorno à possibilidade de conversação. Ofensivo, o discurso cínico apontava para o sujeito da enunciação e não só para o conteúdo do enunciado. Tratava-se de desmascarar o interesse por detrás das palavras solenes e dos discursos honoráveis. Uma espécie de denuncia da hipocrisia pela via ad hominem.


O que acontece com o diálogo argumentativo em política quando o outro é um cínico?
Em diferentes estudos realizados por Michel Foucault e publicados como cursos encontramos elementos de análise do cinismo como uma posição contra o poderoso. O cinismo é abordado em alguns dos seus aspectos como uma espécie de resistência, de contra-poder. Ernani Chaves (2013) avança em estes estudos em seu livro Michel Foucault e a verdade cínica. De acordo com Chaves (2003, 34 e ss) Foucault introduz o exemplo do cinismo dentro de uma discussão acerca da relação entre metafísica da alma e estilos de vida e destaca sua exterioridade com relação a uma História da Filosofia. Chaves (2003, 38) citando Pierre Hadot (1999, 162) mostra a exterioridade e radicalidade do cínico:
O modo de vida cínico opõe-se de maneira espetacular não só aos olhos dos não filósofos, mas mesmo aos olhos dos outros filósofos. Estes, com efeito, apenas se diferenciam de seus concidadãos em certos limites, por exemplo, porque consagram sua vida à investigação científica, como os aristotélicos, ou porque levam uma vida simples e retirada, como os epicuristas. A ruptura do cínico com o mundo é radical. O que ele rejeita é que os homens consideram as regras elementares, as condições indispensáveis da vida em sociedade, a propriedade, o governo, a política.

O que está em jogo no cinismo não é tanto uma obra escrita, um tratado ou texto esotérico ou exotérico, mas a exposição da própria vida e a partir daqui também a exposição da vida dos outros. Ironia, insulto, escândalo, riso são os instrumentos do cínico diante do poder estabelecido. Assim, Chaves aproxima o cinismo antigo de Nietzsche, Benjamin e Baudelaire trazendo a impostura do cinismo antigo para a atualidade. Dessa forma se opõe com Foucault à posição dos “intérpretes que defendem a tese de que há uma diferença marcante entre o cinismo antigo (filosófico, e por isso positivo) e o moderno (uma palavra ofensiva, no geral), diferença que foi marcada na língua alemã, desde o início do século XIX pelas palavras “Kynismus” (o antigo) e “Zynismus” (o moderno) (Chaves, 2013, 63).
Em parte da Crítica da razão cínica Peter Sloterdijk (1987) retoma a distinção dos termos em alemão e destaca no Kynismus a forma da rejeição popular contra a cultura oficial, diferente da razão cínica ou Cinismo. Esta distinção é importante porque não se trata apenas do uso de recurso retóricos ou pragmáticos em um ato de fala, mas de uma relação de fato do sujeito com uma posição de poder.
Aqui à pergunta pelo diálogo argumentativo acrescentemos um elemento a mais: Como se estabelece a relação entre os sujeitos de um acontecimento político quando o outro de uma disputa política é um cínico que controla o poder do Estado, da economia e / ou das armas? Como se dialoga? O que Sloterdijk chama de cinismo é a resposta do poder concentrado à impostura subversiva do Kynismus. Um cinismo contra outro.
Slavoj Zizek (2009) em O sublime objeto da ideologia retoma os termos de Sloterdijk e comenta exatamente esta posição moral e política do poder dominante na sua forma cínica. Cito (Zizek, 2009, 57):
Este cinismo não é uma posição direta de imoralidade, é antes a moralidade ao serviço da imoralidade –o modelo de sabedoria cínica é conceber a probidade, a integridade, como uma forma superior de desonestidade, e a moral como uma forma superior de libertinagem, a verdade como a forma mais efetiva da mentira. Este cinismo é, portanto, uma espécie de “negação da negação” pervertida da ideologia oficial: confrontada com o enriquecimento ilegal, com o roubo, a reação cínica consiste em dizer que o enriquecimento legal é muito mais efetivo e, além disso, está protegido por lei. Como diz Bertoldt Brecht em sua Ópera de três centavos: “o que é o roubo a um banco comparado com a fundação de um novo banco?”

Assim, o cinismo funciona como o recurso de quem não mais está interessado em argumentar ou sustentar algum tipo de discurso dialógico senão apenas como fachada, como ideologia no sentido mais vulgar da palavra. Trata-se de sustentar o discurso ideológico estrito sensu como falsa consciência, porém desde uma posição consciente e voluntária. Esse instrumento funciona como reafirmação de poder. É comum encontrar na América Latina aquele que reivindica o Estado mínimo e o livre mercado desde uma posição monopólica adquirida após décadas de enriquecimento possibilitado pelo aparelho do Estado tomado em ditaduras cívico-militares ou a paz desde o comando de um exército pronto para atacar uma população desarmada sob o pretexto de estar contendo os violentos. Em nenhum caso a questão é argumentativa, mas de posição de sujeito.

O cínico e o diálogo racional
Enrique Dussel introduz a perspectiva de um cinismo do poder concentrado em um diálogo com Apel sobre a argumentação e a política. Assim, caracteriza a própria posição filosófica como se constituindo no enfrentamento com o cínico que funda a "moral" do sistema vigente sob a força irracional do poder. Essa posição de sujeito é a que lhe permite argumentar contra o déficit da proposta apeliana de uma ética do discurso onde as condições de possibilidade de um acordo pressupõem a boa vontade de um sujeito que é guiado apenas pela falta de prova.
O cético de Apel (1973) precisa ser uma boa pessoa, moralmente falando. Não é suficiente saber que a argumentação tem uma racionalidade, é também necessário se sentir afetado por um dever moral que impele a se submeter a ele. A boa vontade é uma exigência não declarada da teoria apeliana.
Em Alberto Damiani (2010) La buena voluntad. Um examen ético-discursivo encontramos exatamente esta questão do diálogo e da boa vontade. De acordo com Damiani (2010, 37) “a ética do discurso se apresenta desde o inicio como uma transformação pós-metafísica da filosofia prática de Immanuel Kant”. Nessa transformação, afirma Damiani, há alguns elementos que permanecem e outros que são eliminados ou substituídos. A noção kantiana de boa vontade parece ser um dos elementos que deve ser eliminado pela virada linguístico-pragmática. A razão disso seria o fato de que esse elemento dependeria de uma ética da intencionalidade e da perspectiva do solipsismo metódico que seria próprio do kantismo e que deveria ser superado. Entretanto, o pesquisador demonstra em seu trabalho que a eliminação não é tal e que em certo sentido a ética do discurso pode e deve conservar a noção de boa vontade. Cito Damiani (2010, 40):
A tese que gostaria de sustentar pode ser formulada da seguinte maneira. Após a virada linguístico-pragmática proposta pela ética do discurso não parece possível nem necessário eliminar o conceito de uma boa vontade, herdado de Kant, senão que ele pode ser compreendido de maneira acorde com a virada como a vontade do interlocutor discursivo. Entendo por “interlocutor discursivo” alguém que contribui à solução de um problema mediante a proposta e avaliação de argumentos porque está interessado em achar a solução. Por isso, o único que um interlocutor discursivo quer e pode querer é contribuir a resolver mediante argumentos as pretensões de validade que ele e outros interlocutores discursivos sustentam quando propõem soluções para o problema em questão. A vontade de um interlocutor discursivo não deve ser confundida com um desejo arbitrário e contingente. Ele já sempre quer atuar de acordo com as condições de sentido do discurso. Estas condições são necessárias e entre elas podem ser encontradas algumas normas com conteúdo moral. Estas últimas são princípios práticos a priori, que determinam desde o início a vontade do interlocutor discursivo. Estes princípios são leis morais que o interlocutor discursivo, enquanto ser racional, necessariamente obedece.

A questão colocada por Damiani à ética do discurso é decisiva. Sem uma boa vontade à qual o participante do diálogo se submeta não há possibilidade de levar adiante uma solução argumentativa. É exigência estrutural do próprio funcionamento do diálogo uma regra prática de obediência e uma boa vontade.
No ano de 1975, Herbert Paul Grice publica Logic and conversation, nesse texto (traduzido no Brasil como Lógica e conversação, 1982) o filósofo afirma que para poder levar adiante uma conversação é preciso de um conjunto de regras práticas que devem ser respeitadas pelos que estão engajados no intercâmbio conversacional e propõe o Princípio de cooperação. Esse princípio funciona de acordo com quatro categorias que determinam as máximas do agir e regulam o diálogo. A saber:
1.       quantidade: faça com que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido para o propósito da conversação;
2.       qualidade: não diga o que você acredita ser falso; não diga senão aquilo para que você possa fornecer evidência adequada;
3.       relação: seja relevante;
4.       modalidade: seja claro – evite obscuridade, evite ambiguidades, seja breve; seja ordenado.
Com efeito, de acordo com Grice (1982) qualquer tipo de diálogo que queira ter o estatuto de uma conversação, e aqui estaria incluído o diálogo ético e político, deve obedecer a regras básicas de cooperação. Para isso, tal como sustenta Damiani (2010) se precisa de um interlocutor com boa vontade que queira levar adiante a conversação e, eventualmente, a busca de solução de problemas.

E se o interlocutor não for uma boa pessoa e ainda assim for racional?
Enquanto Apel destaca a argumentação e o enunciado pressupondo regras conversacionais de cooperação levadas adiante por um sujeito com boa vontade, Dussel destaca o sujeito da enunciação desde um lugar diferente. Apel entende que o interlocutor se quiser argumentar então deverá aceitar que nem todo princípio é falseável, isto é, não pode argumentar contra a argumentação sem cair em uma autocontradição performativa. Já Dussel entende que o sujeito da razão cínica não se importa com esse detalhe. Ele não se submete ao princípio da cooperação de Grice (1982) e não obedece ao princípio da boa vontade de Kant (2009). O sujeito da razão cínica é racional, entende o que a autocontradição e entende também que um ser racional deve poder seguir princípios práticos racionais, mas ele não se coloca sob essa alçada. Transgressor, interessado, ambicioso, quer dizer afetado, o sujeito da razão cínica age racionalmente e afetado. Mas não afetado de qualquer modo. Afetado e detentor do poder de fato que não precisa de justificativas nem argumentos, a não ser como fachada, como aquilo que não é, como falsa consciência consciente. O sujeito ao qual se refere Dussel é o da racionalidade utilizada para a administração de recursos táticos e estratégicos no exercício do poder, mas não para o diálogo e a solução de problemas que reconhecem o outro como parte integrante de uma comunidade com igualdade de direitos. O sujeito da razão cínica, de acordo com Dussel, nega o outro como sujeito e o transforma em objeto, um elemento do seu projeto, em coisa. Nós poderíamos avançar por este caminho e afirmar que a relação entre o sujeito da razão cínica e o interlocutor, é uma operação onde se destitui o lugar de sujeito ao interlocutor sendo reduzido a mero objeto descartável. O outro não é alguém a ser considerado no seu estatuto de sujeito, mas posto como coisa.

A ética do discurso pareceria funcionar em uma democracia representativa, parece que esse seria o pano de fundo onde, politicamente, um argumentador e seu cético poderiam exercer as normas exigidas para o diálogo. Diferentemente, os exemplos do cínico de Dussel são o político maquiavélico que invade Panamá, o empresário da transnacional que demite seus trabalhadores, o militar que deve ganhar a guerra, o espião que planeja um atentado e o torturador. Esse quadro pareceria uma lista de puro estado de exceção, se não fosse a descrição do permanente estado de exceção que acontece não só na América latina, senão também na África, na Ásia e até em parte da Europa. Entretanto, poderíamos acrescentar ainda à situação das democracias contemporâneas de ocidente em seu funcionamento atual a concentração da mídia em mãos de poucas empresas ligadas a grupos de poder financeiro. Esse é já um problema nas condições empíricas de produção de razões e motivos para estar de acordo com uma ou outra posição dentro de um debate público. Além disso, grandes grupos midiáticos no mundo foram flagrados não só na tentativa de divulgar notícias falsas para produzir opinião publica senão também em operações de espionagem e grampos em políticos e empresários ao mesmo tempo em que predicavam a transparência e a luta contra a corrupção. Esses exemplos apontam para certo cinismo no exercício do discurso político no seio da própria democracia representativa. O problema não só fica no terreno do discurso político ou jornalístico, na sociedade civil temos mais exemplos no mesmo sentido. Para darmos apenas um exemplo. Uma empresa como a Siemens apresenta publicamente um compromisso com a ética e a legislação e ao mesmo tempo seus funcionários declaram terem pagado propina para o governo do Estado de São Paulo durante 20 anos para se beneficiar de contratos. Mais ainda, no terreno das ideias, os modos em que o neoliberalismo se apresenta para a opinião pública como alternativa na democracia é decididamente a cara da razão cínica. Ao mesmo tempo em que defende publicamente a independência dos poderes e a segurança jurídica elimina legislações inteiras quando estas favorecem direitos populares, propicia lobby de corporações e até sustenta CEOs em cargos públicos. Assim, o debate político entre um argumentador e seu cético se não está clausurado pelo menos está restrito a um pequeno segmento da vida política e da sociedade civil.
O cínico do poder real levanta as bandeiras da transparência e da luta contra a corrupção, da ética e da legislação não porque sejam princípios a serem levados adiante e defendidos argumentativamente senão porque provocam adesão entre a opinião pública e os eleitores. O cínico sabe que a adesão não se consegue apenas nem necessariamente com argumentos, mas com palavras que provocam identificação e com afetos que acompanham essas palavras ou segmentos de discurso. Assim, o discurso deixa de ser argumentativo para ser de outra ordem. Há um calculo racional à hora de operar discursivamente, mas essa operação racional não é argumentativa, é apelativa e afetiva. Assim, a política se pauta num circuito de afetos que sustentam segmentos de discurso. No caso do cínico, este não se importa com o valor de verdade desse segmento discursivo, mas com a adesão a seu exercício de poder.

Consideração final
O texto de Enrique Dussel sobre o cínico e o cético nos coloca diante das limitações que tem uma teoria que sempre exige um compromisso ético do interlocutor. Na atual democracia esse compromisso ético de fato não acontece sempre. Talvez, como disse Kant, é possível fazer uma república de demônios. Não é necessário aderir a uma legislação desde o princípio da boa vontade. Pode se aderir apenas por conveniência o medo. Também pode não se aderir, mas fazer de conta, contar uma história e insistir sistematicamente com uma prática exatamente indiferente a essa legislação. Isso é o que faz o sujeito da razão cínica apresentado por Dussel. Porém, é preciso destacar que essa república de cínicos ou demônios tem como ponto de partida e consequência a redução do outro a mero resto. A posição perversa do sujeito da razão cínica não dá lugar para que o outro apareça na sua diferença, no seu desejo e seu argumento é irrelevante.
Uma teoria da ação política que leve em consideração a aparição da razão cínica no debate contemporâneo deverá levar em conta não só os argumentos, também a ordem dos afetos e dos desejos, bem como o lugar das regras morais e de cooperação. Uma teoria da ação política deve pensar os sujeitos envolvidos nesse agir. Entendo que esse trabalho requer de uma retomada dos conceitos fundamentais da filosofia política e também de recursos da antropologia e da psicanálise.


Referências
Abraham, T. (2003) El último Foucault. Buenos aires: Editorial Sudamericana
Apel, K.O. (1973) Transformation der Philosophie, 2 Bande. Frankfurt a.M: Suhrkamp.
Chaves, E. (2013) Michel Foucault e a verdade cínica. Campinas: editora PHI
Damiani, A. (2010) La buena voluntad. Um examen ético-discursivo. IN Ética del discurso. Aportes a la ética, la política y la semiótica. Michelini, Crelier, Salerno (ed). Rio Cuarto: Ediciones del ICALA.
Diógenes Laercio (XXXX) Vida de filósofos ilustres. Domínio público. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bk000431.pdf
Droit, R.-P. & de Tonnac, J-P. (2003) Tan locos como sábios. Vivir como filósofos. Buenos Aires: FCE.
Grice, H.P. (1982) Lógica e conversação. IN Fundamentos metodológicos da linguística. Dascal, M. Campinas: Edição particular, pp 81-103.
Kant, I. (2009) Fundamentação da metafisica dos costumes. São Paulo: Discurso Editorial.
Onfray, M. (2004) Cinismos. Retrato dos filósofos chamados perros. Buenos Aires: Paidós.
Sloterdijk, P. (1987) Critique of cynical reason. Minneapolis: University of Minnesota Press.
Zizek, S (2009) El sublime objeto de la ideologia. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.



(em breve será publicado como capítulo de um livro organizado por Suze Piza)



[1] Existem alguns trabalhos introdutórios que divulgam a ideia de cinismo grego como modo de vida. Ver Onfray, Michel (2004) Cinismos. Retrato dos filósofos chamados perros. Buenos Aires: Paidós. Droit, Roger-Pol & de Tonnac, Jean-Philippe (2003) Tan locos como sábios. Vivir como filósofos. Buenos Aires: FCE. Esses textos nos oferecem um anedotário baseado em Diógenes Laercio, alguns comentários e pequenas análises. Em Abraham, Tomás (2003) El último Foucault. Buenos aires: Editorial Sudamericana; encontramos estudos sobre Foucault e a filosofia como estilo de vida que incluem menções sobre o cinismo e a tradução de A Coragem da verdade, de Michel Foucault, onde também encontramos análises de situações de Diógenes.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Fragmento do livro "Kant e os sentimentos de uma filosofia prática" I

Assim então, perguntamos: Qual é a natureza de um problema prático? Como é possível formular um problema moral, de história, de política ou de direito? Qual problema pode ser considerado da moral, da história, da política ou do direito? Como decidir sua pertinência, sua validade e sua possibilidade de resolução? Poderiamos pensar que se trata de uma ingenuidade ou ilusão e que tais questões devem ser reduzidas às determinações biológicas ou ao mecanismo de forças da Realpolitik e assim dissolveríamos a petulante fantasia da suposta autonomia do âmbito do que poderiamos entender como prático. Se isto é possível, então uma reflexão acerca da moral, da história e do direito seria apenas uma narrativa meramente subjetiva e arbitrária, condenada à variação de humor de quem a sustenta. Não haveria deveres, mas também não haveria direitos nem ação política senão apenas determinação natural ou pura arbitrariedade.
Nosso trabalho começará destacando elementos que não podem ser reduzidos a uma condição cognitiva ou à determinação natural. Assim, nos interrogaremos pelas condições de possibilidade do que poderia ser o sentido do moral, do histórico e do direito. Buscaremos elucidar outros registros de determinação que nos permitam formular autonomamente esse tipo de problemas. É para isso que recorremos aos textos kantianos, mas não apenas a eles. Antes de explicitar melhor um autor do que o próprio autor conseguiu se explicitar buscamos abordar um problema filosófico, a saber: indagar as condições de possibilidade da experiência prática.

A tarefa aqui empreendida está pautada pela busca do significado dos conceitos e da formulação de proposições que permitem elaborar esse tipo de questões. Trata-se de saber quais são os elementos, os princípios, as operações retóricas e as regras lógico-semânticas que propiciam as condições necessárias para a elaboração de um domínio no qual seja possível formular diferentes problemas de moral, história, política e direito. 

Fragmento de "Kant e os sentimentos de uma filosofia prática"

A questão
Neste trabalho, intitulado Kant e os sentimentos de uma filosofia prática. Acerca do que fazemos, podemos e devemos fazer de nós mesmos, procurei mostrar como se organiza e funciona o campo de sentido da experiência prática com vários dos seus desdobramentos internos. Chamamos aqui de experiência prática ao conjunto de experiências do sujeito no domínio prático: moral em sentido estrito, direito, política e história, incluindo reflexões sobre a loucura e o conhecimento antropológico. A pergunta em questão é acerca da possibilidade da experiência moral e nos conduz a indagar as estruturas proposicionais que aparecem na experiência prática, o sujeito dessa experiência, os afetos e sentimentos que se articulam com os enunciados morais, bem como as regras sintáticas e referenciais que estão em jogo no campo prático.

Parafraseando Kant: deixamos para trás o presunçoso título de ontologia como também o de uma moral dos fatos em si e avançamos numa analítica das condições de possibilidade de uma experiência prática: moral, política, histórica e antropológica, incluindo ainda a experiência da loucura.

Siglas das obras de Kant para referência

Siglenverzeichnis

AA
Akademie-Ausgabe
Anth
Anthropologie in pragmatischer Hinsicht (AA 07)
AP
Aufsätze, das Philanthropin betreffend (AA 02)
BDG
Der einzig mögliche Beweisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes (AA 02)
Br
Briefe (AA 10-13)
DfS
Die falsche Spitzfindigkeit der vier syllogistischen Figuren erwiesen (AA 02)
Di
Meditationum quarundam de igne succincta delineatio (AA 01)
EAD
Das Ende aller Dinge (AA 08)
EACG
Entwurf und Ankündigung eines Collegii der physischen Geographie (AA 02)
EEKU
Erste Einleitung in die Kritik der Urteilskraft (AA 20)
FBZE
Fortgesetzte Betrachtung der seit einiger Zeit wahrgenommenen Erderschütterungen (AA 01)
FEV
Die Frage, ob die Erde veralte, physikalisch erwogen (AA 01)
FM
Welches sind die wirklichen Fortschritte, die die Metaphysik seit Leibnitzens und Wolf’s Zeiten in Deutschland gemacht hat? (AA 20)
FM/Beylagen
FM: Beylagen (AA 20)
FM/Lose Blätter
FM: Lose Blätter (AA 20)
FRT
Fragment einer späteren Rationaltheologie (AA 28)
GAJFF
Gedanken bei dem frühzeitigen Ableben des Herrn Johann Friedrich von Funk (AA 02)
GMS
Grundlegung zur Metaphysik der Sitten (AA 04)
GNVE
Geschichte und Naturbeschreibung der merkwürdigsten Vorfälle des Erdbebens, welches an dem Ende des 1755sten Jahres einen großen Theil der Erde erschüttert hat (AA 01)
GSE
Beobachtungen über das Gefühl des Schönen und Erhabenen (AA 02)
GSK
Gedanken von der wahren Schätzung der lebendigen Kräfte (AA 01)
GUGR
Von dem ersten Grunde des Unterschiedes der Gegenden im Raume (AA 02)
HN
Handschriftlicher Nachlass (AA 14-23)
IaG
Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht (AA 08)
KpV
Kritik der praktischen Vernunft (AA 05)
KrV
Kritik der reinen Vernunft (zu zitieren nach Originalpaginierung A/B)
KU
Kritik der Urteilskraft (AA 05)
Log
Logik (AA 09)
MAM
Muthmaßlicher Anfang der Menschengeschichte (AA 08)
MAN
Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaften (AA 04)
MonPh
Metaphysicae cum geometria iunctae usus in philosophia naturali, cuius specimen I. continet monadologiam physicam (AA 01)
MpVT
Über das Mißlingen aller philosophischen Versuche in der Theodicee (AA 08)
MS
Die Metaphysik der Sitten (AA 06)
    RL
Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre (AA 06)
    TL
Metaphysische Anfangsgründe der Tugendlehre (AA 06)
MSI
De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis (AA 02)
NEV
Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem Winterhalbenjahre von 1765-1766 (AA 02)
NG
Versuch, den Begriff der negativen Größen in die Weltweisheit einzuführen (AA 02)
NLBR
Neuer Lehrbegriff der Bewegung und Ruhe und der damit verknüpften Folgerungen in den ersten Gründen der Naturwissenschaft (AA 02)
NTH
Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (AA 01)
OP
Opus Postumum (AA 21 u. 22)
Päd
Pädagogik (AA 09)
PG
Physische Geographie (AA 09)
PhilEnz
Philosophische Enzyklopädie (AA 29)
PND
Principiorum primorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio (AA 01)
Prol
Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik (AA 04)
Refl
Reflexion (AA 14-19)
RezHerder
Recensionen von J. G. Herders Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menscheit (AA 08)
RezHufeland
Recension von Gottlieb Hufeland’s Versuch über den Grundsatz des Naturrechts (AA 08)
RezMoscati
Recension von Moscatis Schrift: Von dem körperlichen wesentlichen Unterschiede zwischen der Structur der Thiere und Menschen (AA 02)
RezSchulz
Recension von Schulz’s Versuch einer Anleitung zur Sittenlehre für alle Menschen (AA 08)
RezUlrich
Kraus’ Recension von Ulrich’s Eleutheriologie (AA 08)
RGV
Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft (AA 06)
SF
Der Streit der Fakultäten (AA 07)
TG
Träume eines Geistersehers, erläutert durch die Träume der Metaphysik (AA 02)
TP
Über den Gemeinspruch: Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht für die Praxis (AA 08)
TW
Neue Anmerkungen zur Erläuterung der Theorie der Winde (AA 01)
UD
Untersuchung über die Deutlichkeit der Grundsätze der natürlichen Theologie und der Moral (AA 02)
ÜE
Über eine Entdeckung, nach der alle neue Kritik der reinen Vernunft durch eine ältere entbehrlich gemacht werden soll (AA 08)
ÜGTP
Über den Gebrauch teleologischer Principien in der Philosophie (AA 08)
UFE
Untersuchung der Frage, ob die Erde in ihrer Umdrehung um die Achse, wodurch sie die Abwechselung des Tages und der Nacht hervorbringt, einige Veränderung seit den ersten Zeiten ihres Ursprungs erlitten habe (AA 01)
VAEaD
Vorarbeit zu Das Ende aller Dinge (AA 23)
VAKpV
Vorarbeit zur Kritik der praktischen Vernunft (AA 23)
VAMS
Vorarbeit zur Metaphysik der Sitten (AA 23)
VAProl
Vorarbeit zu den Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik (AA 23)
VARGV
Vorarbeit zur Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft (AA 23)
VARL
Vorarbeit zur Rechtslehre(AA 23)
VASF
Vorarbeit zum Streit der Fakultäten(AA 23)
VATL
Vorarbeit zur Tugendlehre(AA 23)
VATP
Vorarbeit zu Über den Gemeinspruch: Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht für die Praxis (AA 23)
VAÜGTP
Vorarbeit zu Über den Gebrauch teleologischer Principien in der Philosophie (AA 23)
VAVT
Vorarbeit zu Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Ton in der Philosophie (AA 23)
VAZeF
Vorarbeiten zu Zum ewigen Frieden (AA 23)
VBO
Versuch einiger Betachtungen über den Optimismus(AA 02)
VKK
Versuch über die Krankheiten des Kopfes (AA 02)
VNAEF
Verkündigung des nahen Abschlusses eines Tractats zum ewigen Frieden in der Philosophie (AA 08)
Vorl
Vorlesungen (AA 24 ff.)
V-Anth/Busolt
Vorlesungen Wintersemester 1788/1789 Busolt (AA 25)
V-Anth/Collins
Vorlesungen Wintersemester 1772/1773 Collins (AA 25)
V-Anth/Fried
Vorlesungen Wintersemester 1775/1776 Friedländer (AA 25)
V-Anth/Mensch
Vorlesungen Wintersemester 1781/1782 Menschenkunde, Petersburg (AA 25)
V-Anth/Mron
Vorlesungen Wintersemester 1784/1785 Mrongovius (AA 25)
V-Anth/Parow
Vorlesungen Wintersemester 1772/1773 Parow (AA 25)
V-Anth/Pillau
Vorlesungen Wintersemester 1777/1778 Pillau (AA 25)
V-Eth/Baumgarten
Baumgarten Ethica Philosophica (AA 27)
V-Lo/Blomberg
Logik Blomberg (AA 24)
V-Lo/Busolt
Logik Busolt (AA 24)
V-Lo/Dohna
Logik Dohna-Wundlacken (AA 24)
V-Lo/Herder
Logik Herder (AA 24)
V-Lo/Philippi
Logik Philippi (AA 24)
V-Lo/Pölitz
Logik Pölitz (AA 24)
V-Lo/Wiener
Wiener Logik (AA 24)
V-Mo/Collins
Moralphilosophie Collins (AA 27)
V-Mo/Kaehler(Stark)
Immanuel Kant: Vorlesung zur Moralphilosophie (Hrsg. von Werner Stark. Berlin/New York 2004)
V-Mo/Mron
Moral Mrongovius (AA 27)
V-Mo/Mron II
Moral Mrongovius II (AA 29)
V-Met/Arnoldt
Metaphysik Arnoldt (K 3) (AA 29)
V-Met/Dohna
Kant Metaphysik Dohna (AA 28)
V-Met/Heinze
Kant Metaphysik L1 (Heinze) (AA 28)
V-Met/Herder
Metaphysik Herder (AA 28)
V-Met-K2 /Heinze
Kant Metaphysik K2 (Heinze, Schlapp) (AA 28)
V-Met-K3/Arnoldt
Kant Metaphysik K3 (Arnoldt, Schlapp) (AA 28)
V-Met-K 3E/Arnoldt
Ergänzungen Kant Metaphysik K3 (Arnoldt) (AA 29)
V-Met-L1/Pölitz
Kant Metaphysik L 1 (Pölitz) (AA 28)
V-Met-L2/Pölitz
Kant Metaphysik L 2 (Pölitz, Original) (AA 28)
V-Met/Mron
Metaphysik Mrongovius (AA 29)
V-Met-N/Herder
Nachträge Metaphysik Herder (AA 28)
V-Met/Schön
Metaphysik von Schön, Ontologie (AA 28)
V-Met/Volckmann
Metaphysik Volckmann (AA 28)
V-MS/Vigil
Die Metaphysik der Sitten Vigilantius (AA 27)
V-NR/Feyerabend
Naturrecht Feyerabend (AA 27)
V-PG
Vorlesungen über Physische Geographie (AA 26)
V-Phil-Th/Pölitz
Philosophische Religionslehre nach Pölitz (AA 28)
V-PP/Herder
Praktische Philosophie Herder (AA 27)
V-PP/Powalski
Praktische Philosophie Powalski (AA 27)
V-Th/Baumbach
Danziger Rationaltheologie nach Baumbach (AA 28)
V-Th/Pölitz
Religionslehre Pölitz (AA 28)
V-Th/Volckmann
Natürliche Theologie Volckmann nach Baumbach (AA 28)
VRML
Über ein vermeintes Recht, aus Menschenliebe zu lügen (AA 08)
VT
Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Ton in der Philosophie (AA 08)
VUB
Von der Unrechtmäßigkeit des Büchernachdrucks (AA 08)
VUE
Von den Ursachen der Erderschütterungen bei Gelegenheit des Unglücks, welches die westliche Länder von Europa gegen das Ende des vorigen Jahres betroffen hat (AA 01)
VvRM
Von den verschiedenen Racen der Menschen (AA 02)
WA
Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung? (AA 08)
WDO
Was heißt sich im Denken orientiren? (AA 08)
ZeF
Zum ewigen Frieden (AA 08)

Fragmento do início do livro "Kant e os sentimentos de uma filosofia prática"

ABERTURA: da ontologia às condições de possibilidade

O percurso até chegar à questão
Quando escrevi Kant e o problema da significação (2008) procurei mostrar que a partir do trabalho crítico de Kant já não podemos sustentar uma ontologia como ciência do ser enquanto ser e seus atributos fundamentais ou uma metafísica como ciência do suprassensível e que o labor do filósofo consiste em perguntar pelas condições de possibilidade das proposições abrindo campos semânticos em cada caso segundo o tipo proposicional (cognitivo, prático ou reflexivo) e assim poder dar conta de experiências desde um lugar de enunciação marcado pela finitude.
Na sequência, quando escrevi Ontologia sem espelhos (2015), em colaboração com meus colegas Bocca e Bocchi, a ideia foi mostrar o fracasso de uma teoria última sobre uma realidade última a partir da polêmica de Descartes a Kant sobre a prova da realidade dos objetos externos e a necessidade de recorrer a uma ficção originária. Para isso utilizamos os textos de Jorge Luis Borges e Sigmund Freud. Sem citar, aquele trabalho retomava o espectro de Hans Vaihinger (2011) em A filosofia do como se onde a marca ficcional da realidade não pode ser senão originária do ponto de vista estrutural. Esses dois livros me conduziram a pensar que a ontologia não poderia ser mais fundamental ou primeira senão apenas transformada em teoria dos objetos e campos de sentido desses objetos e a metafísica devia ser substituída kantianamente por uma investigação acerca das condições de possibilidade.
Dito por outras palavras se trata de avançar numa teoria de domínios ou campos semânticos enquanto condições de possibilidade de objetos, sujeitos e problemas. Assim, as diferentes experiências, incluídas as do conhecer, do agir e do contemplar com todos seus elementos não poderiam se entender senão dentro de diferentes campos de sentido. Isto supõe que o conhecer, o agir ou o contemplar não seria possível senão a partir de algum tipo de determinação ou reflexão específica que deve ser explicitada.
Em O inconsciente: onde mora o desejo (2012), a ideia da produção do livro foi mostrar que a elaboração freudiana de o Inconsciente se pautava pela abertura de uma nova causalidade, isto é, um novo campo de sentido. Assim, uma ação poderia ser pensada (1) desde o ponto de vista da causalidade natural dos corpos, numa experiência cognitiva, (2) desde o ponto de vista da causalidade livre consciente de um sujeito, numa experiência prática, ou (3) desde a determinação psíquica inconsciente, numa experiência de desejo e recalque. Deste modo, o doutor Freud não só acolheria sintomas somáticos (causalidade natural) e ações volitivas (causalidade livre consciente) senão também casos de histeria e neurose obsessiva introduzindo um novo registro de determinação (psíquica inconsciente).

Aquilo que estava em jogo no percurso do nosso trabalho era (1) uma crítica a um realismo ontológico do ser enquanto ser enunciado desde o absoluto (lugar impossível de ser ocupado e ao mesmo tempo pressuposto como lugar de enunciação do realista) e (2) a proposta de uma tarefa filosófica como indagação das condições de possibilidade (em sentido transcendental) de uma experiência. Formulação esta que só pode ser feita desde um lugar de enunciação finito e, portanto, até certo ponto determinado. Assim, deixamos a filosofia do absoluto para aqueles que conseguem demonstrar a possibilidade de falar desde um não-lugar de enunciação ou se autorizam a pensar desde uma mente divina.