Do líder, as identificações e as coletividades
O trabalho de Willian Mac-Cormick
Maron publicado aqui sob a forma de livro é o resultado de uma pesquisa que se
demorou uns quatro anos na sua formulação, detalhes e consequências. Desde o
início do percurso a pauta foi determinada pela observação e a formalização dos
modos em que alguém pode vir a ocupar a posição de líder de um conjunto de
pessoas. Iniciou-se esse caminho em 2010 com uma interrogação sobre a questão e
algumas hipóteses sobre grupos. O relevamento bibliográfico que compõe a
história desse tema levou o pesquisador a trabalhar na história da filosofia
política, nos escritos sociológicos e psicológicos do século XIX, nas
formulações da psicanálise de Freud e Lacan durante o século XX e nas interpretações
recentemente publicadas, no inicio do século XXI, especialmente interessadas
tanto em questões clínicas quanto sociais e políticas.
A leitura e a análise das
fontes não foi pouca. Assim o exige o tema e o problema proposto na
investigação. O resultado levou à possibilidade de elaborar algumas tentativas
de aproximação à questão:
Como é que aparece e funciona o lugar do
líder e a coesão do grupo?
Há um primeiro momento de
análise da liderança de grupos cuja tematização se realiza especialmente na
filosofia política de Maquiavel e Hobbes, nos séculos XVI e XVII. Ambos os
filósofos teorizaram sua própria prática política. O primeiro realizou seu
trabalho como assessor dos Medici em Florença e com Cesar Borgia em Roma. O
outro com a monarquia na Inglaterra. Os dois foram militantes de grupos que nem
sempre se viram de cara ao sucesso e a vitória. Ambos sofreram na carne,
literalmente, a exclusão do grupo hegemônico. O segundo momento de análise de
liderança pode ser reconhecido nos trabalhos sociológicos e psicológicos do
século XIX. Gustave Le Bom (2008) e Gabriel Tarde (2005) tornaram-se os mais
significativos dos pesquisadores de psicologia social, quiçá por serem citados
pelo trabalho de Freud (2010), mas também por ser referência na sua época. O
trabalho realizado por aqueles psicólogos sociais tentava dar conta de um
problema novo: as sociedades de massas na Europa em pleno desenvolvimento do
capitalismo. O crescimento de cidades com excluídos da cultura oficial ocupavam
grande parte do espaço urbano e isso era visto como uma ameaça. O terceiro
momento poderia ser determinado como sendo o da psicanálise de Freud a Lacan
tentando levar adiante interesses clínicos. Com a queda da noção de individuo
como elemento central, a aparição do aparelho psíquico e logo do sujeito, a
questão da identificação coletiva como processo é fundamental para entender a
individualidade como resultado. O quarto momento é aquele representado pelas
interpretações lacanianas no cruzamento ou encontro com conceitos da filosofia do
fenômeno de identificação individual e coletiva. Nesse quarto momento se insere
a pesquisa de Mac Cormick.
No andamento da investigação
os grupos observados começaram a aparecer em suas diferentes modalidades como
pequenos grupos, coletividades e massa ou multidões. Foi constatado aos poucos que
se tratava de um detalhe não menor na dinâmica das identificações que nem
sempre foi diferenciado. No caso de Gabriel Tarde (2005), talvez pelo afã de
procurar uma teoria geral, nos mostra a constituição do público e das
multidões. No caso de Sigmund Freud (2010), com o intuito de revisar o limite
das teorias anteriores, grupo ou massa estão indistintamente nomeados, porém,
só se refere a grandes instituições ou casos isolados de grupos espontâneos e
momentâneos. Nesse sentido, a obra de Lacan ofereceu subsídios fundamentais
para a estrutura formal da identificação com o traço unário e a noção de
significante, o trabalho de Juan Bautista Ritvo (2006) e (2011) proporcionou
elementos para pensar as diferentes modalidades de conjuntos de pessoas e o
excluído da identificação e o texto de Carlos Kuri (2010) deu a reflexão
precisa para indagar o sem fundamento
de uma lógica da identificação.
O resultado de Mac Cormick aqui
publicado na forma de livro progride na impossibilidade de dar um conjunto de
características positivadas e substanciais àquele que ocupa o lugar do líder
derrubando a ilusão voluntarista ou a ideia de fatalidade inata. Também acaba
com a possibilidade arbitrária da criação de coesão grupal. Isso pode ser
derivado de uma leitura e compreensão de O
homem Moises e a religião monoteísta de Freud (2014). Porém, em lugar de
mostrar apenas obstáculos ou negatividades o autor amplia o trabalho de
formalização do evento. Com um conjunto de elementos que tínhamos desenvolvido
nos seminários semanais do programa de pós-graduação em filosofia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná, com a participação do professor Francisco
Verardi Bocca, o autor prosseguiu nos detalhes conceituais, especificações e
dessa forma buscou apresentar a questão do líder e a coesão do grupo com seus
problemas e também com seu funcionamento. Assim, por exemplo, com Ernesto
Laclau (2011) e Carl Schmitt (2008) conseguiu articular os conceitos de povo e
conflito que esclarecem e definem o fenômeno de um determinado tipo de coesão.
Foi preciso ainda uma compreensão do acontecimento do amor. Esse elemento já tinha
sido apresentado por Freud (2010) com sendo a base da coesão social ou grupal. Entretanto,
cabe destacar que o trabalho de pesquisa de Bruna Iodice (2014) sobre o amor de
Lacan a Freud desenvolvido na mesma época da pesquisa de Mac Cormick dá ainda
subsídios sob outra perspectiva para quem quiser avançar na pergunta de por que
nos identificamos.
O livro de Mac Cormick
convida a pensar a questão do líder, as identificações e as coletividades
segundo a ordem do desejo, da demanda e do conflito. O autor trabalha sobre um
horizonte de vazios e instabilidades como condição de identificação e
orientação de demandas. Com isto não só temos ferramentas para a compreensão e
acolhimento do evento da liderança e da identificação coletiva. A partir de
aqui é possível continuar um caminho de investigação acerca dos sujeitos
individuais e coletivos, os modos de organizar suas demandas e a satisfação
destas, bem como desenvolver uma prática clínica e social.
Daniel Omar Perez
Professor de Filosofia da Unicamp
Referências
Freud, Sigmund (2010) Massenpsycholegie und Ich-Analyse. Hamburg: Nikol.
_____________ (2014) O homem Moises e a religião monoteísta. Três ensaios. Porto Alegre:
LPM.
Iodice, Bruna
(2014) O amor para além do narcisismo
: o dom do amor na constituição do sujeito. Dissertação de mestrado em
filosofia PUC-PR.
Kuri, Carlos (2010) La
Identificación: Lo originario y lo primario: Una diferencia clínica. Rosário: Homo Sapiens Ediciones.
Laclau, Ernesto
(2011) La
razón populista. Buenos
Aires: FCE.
Le Bon, Gustave (2008) Psicologia das Multidões. São Paulo: Martins Fontes.
Ritvo,
Juan Bautista (2006) Figuras del prójimo.
El enemigo, el cuerpo, el huesped. Buenos Aires: Letra Viva.
_________________
(2011) Sujeto massa, comunidade: la razón
conjetural y la economia del resto. Santa Fe: Mar por médio Editores.
Schmitt,
Carl (2008) O Conceito do Político.
Belo Horizonte: Del Rey.
Tarde,
Gabriel (2005) A opinião e as massas.
São Paulo: Martins Fontes.

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