terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Em breve, um livro de William Mac Cormick sobre identificação.

 Do líder, as identificações e as coletividades

O trabalho de Willian Mac-Cormick Maron publicado aqui sob a forma de livro é o resultado de uma pesquisa que se demorou uns quatro anos na sua formulação, detalhes e consequências. Desde o início do percurso a pauta foi determinada pela observação e a formalização dos modos em que alguém pode vir a ocupar a posição de líder de um conjunto de pessoas. Iniciou-se esse caminho em 2010 com uma interrogação sobre a questão e algumas hipóteses sobre grupos. O relevamento bibliográfico que compõe a história desse tema levou o pesquisador a trabalhar na história da filosofia política, nos escritos sociológicos e psicológicos do século XIX, nas formulações da psicanálise de Freud e Lacan durante o século XX e nas interpretações recentemente publicadas, no inicio do século XXI, especialmente interessadas tanto em questões clínicas quanto sociais e políticas.

A leitura e a análise das fontes não foi pouca. Assim o exige o tema e o problema proposto na investigação. O resultado levou à possibilidade de elaborar algumas tentativas de aproximação à questão:

Como é que aparece e funciona o lugar do líder e a coesão do grupo?

Há um primeiro momento de análise da liderança de grupos cuja tematização se realiza especialmente na filosofia política de Maquiavel e Hobbes, nos séculos XVI e XVII. Ambos os filósofos teorizaram sua própria prática política. O primeiro realizou seu trabalho como assessor dos Medici em Florença e com Cesar Borgia em Roma. O outro com a monarquia na Inglaterra. Os dois foram militantes de grupos que nem sempre se viram de cara ao sucesso e a vitória. Ambos sofreram na carne, literalmente, a exclusão do grupo hegemônico. O segundo momento de análise de liderança pode ser reconhecido nos trabalhos sociológicos e psicológicos do século XIX. Gustave Le Bom (2008) e Gabriel Tarde (2005) tornaram-se os mais significativos dos pesquisadores de psicologia social, quiçá por serem citados pelo trabalho de Freud (2010), mas também por ser referência na sua época. O trabalho realizado por aqueles psicólogos sociais tentava dar conta de um problema novo: as sociedades de massas na Europa em pleno desenvolvimento do capitalismo. O crescimento de cidades com excluídos da cultura oficial ocupavam grande parte do espaço urbano e isso era visto como uma ameaça. O terceiro momento poderia ser determinado como sendo o da psicanálise de Freud a Lacan tentando levar adiante interesses clínicos. Com a queda da noção de individuo como elemento central, a aparição do aparelho psíquico e logo do sujeito, a questão da identificação coletiva como processo é fundamental para entender a individualidade como resultado. O quarto momento é aquele representado pelas interpretações lacanianas no cruzamento ou encontro com conceitos da filosofia do fenômeno de identificação individual e coletiva. Nesse quarto momento se insere a pesquisa de Mac Cormick.
No andamento da investigação os grupos observados começaram a aparecer em suas diferentes modalidades como pequenos grupos, coletividades e massa ou multidões. Foi constatado aos poucos que se tratava de um detalhe não menor na dinâmica das identificações que nem sempre foi diferenciado. No caso de Gabriel Tarde (2005), talvez pelo afã de procurar uma teoria geral, nos mostra a constituição do público e das multidões. No caso de Sigmund Freud (2010), com o intuito de revisar o limite das teorias anteriores, grupo ou massa estão indistintamente nomeados, porém, só se refere a grandes instituições ou casos isolados de grupos espontâneos e momentâneos. Nesse sentido, a obra de Lacan ofereceu subsídios fundamentais para a estrutura formal da identificação com o traço unário e a noção de significante, o trabalho de Juan Bautista Ritvo (2006) e (2011) proporcionou elementos para pensar as diferentes modalidades de conjuntos de pessoas e o excluído da identificação e o texto de Carlos Kuri (2010) deu a reflexão precisa para indagar o sem fundamento de uma lógica da identificação.

O resultado de Mac Cormick aqui publicado na forma de livro progride na impossibilidade de dar um conjunto de características positivadas e substanciais àquele que ocupa o lugar do líder derrubando a ilusão voluntarista ou a ideia de fatalidade inata. Também acaba com a possibilidade arbitrária da criação de coesão grupal. Isso pode ser derivado de uma leitura e compreensão de O homem Moises e a religião monoteísta de Freud (2014). Porém, em lugar de mostrar apenas obstáculos ou negatividades o autor amplia o trabalho de formalização do evento. Com um conjunto de elementos que tínhamos desenvolvido nos seminários semanais do programa de pós-graduação em filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com a participação do professor Francisco Verardi Bocca, o autor prosseguiu nos detalhes conceituais, especificações e dessa forma buscou apresentar a questão do líder e a coesão do grupo com seus problemas e também com seu funcionamento. Assim, por exemplo, com Ernesto Laclau (2011) e Carl Schmitt (2008) conseguiu articular os conceitos de povo e conflito que esclarecem e definem o fenômeno de um determinado tipo de coesão. Foi preciso ainda uma compreensão do acontecimento do amor. Esse elemento já tinha sido apresentado por Freud (2010) com sendo a base da coesão social ou grupal. Entretanto, cabe destacar que o trabalho de pesquisa de Bruna Iodice (2014) sobre o amor de Lacan a Freud desenvolvido na mesma época da pesquisa de Mac Cormick dá ainda subsídios sob outra perspectiva para quem quiser avançar na pergunta de por que nos identificamos.
O livro de Mac Cormick convida a pensar a questão do líder, as identificações e as coletividades segundo a ordem do desejo, da demanda e do conflito. O autor trabalha sobre um horizonte de vazios e instabilidades como condição de identificação e orientação de demandas. Com isto não só temos ferramentas para a compreensão e acolhimento do evento da liderança e da identificação coletiva. A partir de aqui é possível continuar um caminho de investigação acerca dos sujeitos individuais e coletivos, os modos de organizar suas demandas e a satisfação destas, bem como desenvolver uma prática clínica e social.


Daniel Omar Perez
Professor de Filosofia da Unicamp


Referências
Freud, Sigmund (2010) Massenpsycholegie und Ich-Analyse. Hamburg: Nikol.
_____________ (2014) O homem Moises e a religião monoteísta. Três ensaios. Porto Alegre: LPM.
Iodice, Bruna (2014) O amor para além do narcisismo : o dom do amor na constituição do sujeito. Dissertação de mestrado em filosofia PUC-PR.
Kuri, Carlos (2010) La Identificación: Lo originario y lo primario: Una diferencia clínica. Rosário: Homo Sapiens Ediciones.
Laclau, Ernesto (2011) La razón populista. Buenos Aires: FCE.
Le Bon, Gustave (2008) Psicologia das Multidões. São Paulo: Martins Fontes.
Ritvo, Juan Bautista (2006) Figuras del prójimo. El enemigo, el cuerpo, el huesped. Buenos Aires: Letra Viva.
_________________ (2011) Sujeto massa, comunidade: la razón conjetural y la economia del resto. Santa Fe: Mar por médio Editores.
Schmitt, Carl (2008) O Conceito do Político. Belo Horizonte: Del Rey.
Tarde, Gabriel (2005) A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes.



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