quarta-feira, 2 de agosto de 2023

A psicanálise lacaniana a partir da diferença com Freud

Freud inventa a psicanálise aos poucos. Como toda ciência, a psicanálise não nasceu pronta nem foi apresentada de forma completa em uma tarde de sol. Primeiro foi a formação científica e laboratorial de Freud, depois os casos clínicos de Charcot que não pareciam se ajustar aos modelos epistemológicos da época, logo a tentativa de elaborar novas hipóteses e dispositivos que permitissem dar um encaminhamento terapêutico àqueles casos, a seguir, as apresentações das histórias clínicas com Breuer e, finalmente, o diálogo com Fliess. Para sermos breves, essa é a base mais elementar do novo método para o tratamento das histerias no final do século XIX. O desenvolvimento dos trabalhos, os novos casos, a participação de outros clínicos de diferentes lugares da Europa, especialmente do centro e do leste europeu, foram colaborando para ampliar a psicanálise como prática clínica e como campo de investigação científica. Diferentes contribuições foram feitas e muitos que se reconheciam estando dentro desse campo foram propondo outros elementos teóricos e outros tipos de tratamento. Melanie Klein, Donald Winnicott, Wilfred Bion entre outros propuseram algumas diferenças em relação com distintos elementos propostos por Freud. Assim, a questão do inconsciente, a transferência, a castração, a angustia, o desejo e os modos de entender uma experiência clínica foi sendo modificada e abrindo novas perspectivas. Nesse horizonte também encontramos as contribuições de Jacques Lacan. Seus primeiros trabalhos aparecem na segunda metade de 1930. Já nos anos 1940 encontramos textos significativos que marcaram o início do que ele chamou de “seu ensino” a partir de 1953 e se encerra próximo da data da morte com 26 seminários, escritos e a carta de dissolução da sua escola.

Propomos apresentar 9 tópicos que nos permitam dimensionar as contribuições de Lacan em relação com a psicanálise de Freud. Na metade do século XX, em meio de diferentes perspectivas psicanalíticas, Lacan propõe um “retorno a Freud”. Este retorno trata de uma reformulação de diferentes conceitos fundamentais e modos de entender a clínica.

 

  1. O inconsciente freudiano e o lacaniano
  2. A transferência freudiana e a lacaniana
  3. A castração freudiana e a lacaniana
  4. A angústia em Freud e em Lacan
  5. O desejo e o objeto em Freud e em Lacan
  6. As formalizações de Freud e as de Lacan
  7. A lógica em Freud e em Lacan
  8. A topologia e o sujeito
  9. Finais de análise e a formação do analista em Lacan

 

Referências Bibliográficas Básicas

Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

_______ Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

_______ O Seminário 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

_______ O Seminário 5. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_______ O Seminário 7. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

_______ O Seminário 8. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

_______ O Seminário 10. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

_______ O Seminário 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

_______ O Seminário 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

Escuta coletiva A psicanálise como práxis da construção do laço social

Apresentação  

Procuramos apresentar dois usos do dispositivo psicanalítico. O primeiro como modo de abordagem para acolher a experiência de identificação coletiva entre a alienação e a emancipação. Isto permite observar modos de organização coletiva que podem ser social, econômica e politicamente transformadoras. O segundo como trabalho de escuta coletiva com o intuito de acolher os conflitos psíquicos dos membros do grupo e possibilitar os encaminhamentos pertinentes. Deste modo, a dinâmica de auto-organização possibilita dar conta das condições materiais de vida das pessoas, desde o alimento e a educação até a saúde física e psíquica.

 

Encontro 1. A identificação coletiva: alienação e emancipação. A lógica da identidade positiva e excludente. A lógica da identificação pela falta. A construção da massa pelo líder. A identificação de grupo em torno da demanda. A passagem da demanda ao desejo. Da reclamação à organização política.

 

Encontro 2. A identificação coletiva: alienação e emancipação. A lógica da identidade positiva e excludente. A lógica da identificação pela falta. A construção da massa pelo líder. A identificação de grupo em torno da demanda. A passagem da demanda ao desejo. Da reclamação à organização política.

 

 

Encontro 3. O que faz a psicanálise para além do divã? As clínicas públicas de Freud na Europa. As clínicas públicas da psicanálise na Argentina dos anos 1950, 1960, 1970.

 

Encontro 4. A experiência de trabalho clínico de Marie Langer na Nicarágua com campesinos e trabalhadores urbanos auto-organizados nos anos 1980.

 

Bibliografia teórica básica

 

Aleman, J. (2009). Parta una izxquierda lacaniana... Intervenciones y textos. Buenos Aires: Grama.

Danto, E. A. (2005). As clínicas públicas de Freud. São Paulo: Perspectiva.

Estevão, I. &. (2020). Contribuições psicanalíticas a uma política dos afetos. São Paulo: Lavrapalavra.

Freud, S. (2013). Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: LPM.

Grinberg, L., Langer, M., & Rodrigué, E. (1957). Psicoterapia del grupo. Buenos Aires: Paidos.

Grinberg, L., & Langer, M. (1968). Psicoanálisis en las Américas. Psicoanálisis en las Américas (p. 230). Buenos Aires: Paidos.

Grimberg, L. & Langer, M. & Rodrigué, E. (1957) Psicoterapia del grupo. Buenos Aires: Paidos.

Hoffmann, C. &. (2018). Uma nova leitura do populismo. São Paulo: Instituto Langage.

Kaës, R. (2010). Um singular plural. São Paulo: Loyola.

Laclau, E. (2013). A razão populista. São Paulo: Três Estrelas.

Langer, M. (1977). Psicanálise institucional e psicanálise sem instituição. Psicanálise institucional e psicanálise sem instituição (p. 239). Belo Horizonte: Interlivros.

Langer, M. (1987). Psicoanálisis sin divan. Fin de Siglo, 57-59.

_________ (1966) Fantasias eternas a la luz del psicoanálises. Buenos Aires: Paidos.

_________ (1986) Sexo y maternidade. Porto Alegre: Artes Médicas.

Langer, M. (Org. (1977) Psicanálise institucional e psicanálise sem instituição. Belo Horizonte. Interlivros.

Langer, M. (1973) A psicanálise e suas instituições. Petrópolis: Editora Vozes.

Merlin, N. (2015). Populismo y psicoanálisis. Buenos Aires: Letra viva.

Merlin, N. (2017). Colonizacion de la subjetividad. Los medios masivos en la época del biomercado. Buenos Aires: Letra viva.

Merlin, N. (2019). Mentir y Colonizar. Obediencia inconsciente y subjetividad neoliberal. Buenos Aires: Letra viva.

Merlin, N. (2020). La reinvención democrática. Un giro afectivo. Buenos Aires: Letra viva.

Perez, D. O. (2012). O inconsciente. Onde mora o desejo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Perez, D. O. (2018). Por que nos identificamos? Curitiba: CRV.

Pichon-Riviere, E. (2009) O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes.

Safatle, V. (2020). Maneiras de transformar mundos. Lacan, Política e emancipação. Belo Horizonte: Autêntica.

Stavrakakis, Y. (2010). La izquierda lacaniana. Psicoanálisis, teoría, política. Buenos Aires: FCE.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Tema: Filosofia prática, afetividade e comunidade em Kant.

 Tema: Filosofia prática, afetividade e comunidade em Kant.

Resumo: A razão prática se funda num princípio racional, puro, a priori, nomeadamente, a lei
moral, sem considerar a natureza humana (de acordo com a explícita declaração de Kant na
Fundamentação da metafísica dos costumes). Esse princípio racional é, para os seres racionais
finitos (isto é, para aqueles que além de razão também são constituídos de sensibilidade), um
princípio sintético a priori, um imperativo categórico que ordena, manda, obriga inclusive contra
os sentimentos do amor próprio. Esta situação mostra que o sujeito impulsionado a agir por dever
não só obedece a razão por ser racional senão que também lida com afetos, sentimentos (sui
generis), paixões e emoções próprias e alheias. Assim, o imperativo categórico aparece associado
a um sentimento de respeito que não se desvincula da obediência moral. Funciona não só
argumentativamente senão também de modo coercitivo (com força) e quando contestado pela
ação do sujeito provoca culpa (outro sentimento). O sujeito da razão prática em Kant tem
sentimentos, afetos, emoções e paixões associadas ou contrapostas aos conceitos de razão. Essa
sensibilidade pode afetar o juízo ou a ação inclusive antes de considerar o próprio imperativo
categórico. Suas modalidades se encontram abordadas em Ensaio sobre as enfermidades da
cabeça, Antropologia do ponto de vista pragmático, lições e reflexões de antropologia e de moral
entre outros textos. E claro, também na Fundamentação e na segunda crítica. Assim, no trato com
a própria afetividade Kant propõe em Religião A 64 que não se deve pretender extirpar seu
domínio, até porque seria impossível, mas controlar os sentimentos para que não se consumam
uns aos outros dissolvendo o próprio sujeito da experiência prática em questão. No trato com a
afetividade alheia Kant propõe, também no texto da Religião, propiciar uma comunidade que
possa se impor a um modo de malignidade humana que habita no próprio convívio entre as
pessoas. Esta pesquisa procura avançar na formulação e resolução proposta por Kant ao problema
dos sentimentos, afetos, paixões e emoções individuais e coletivos com relação à realização de
regras práticas que dizem respeito ao indivíduo e à comunidade. Pretendemos progredir nos
argumentos que demonstram que a experiência prática, pensada a partir da filosofia
transcendental, não pode ser reduzida a um simples intelectualismo, individualismo ou mero
solipsismo, senão que deve considerar a sensibilidade e a relação com o outro numa comunidade.
Palavras-chave: Kant; psicologia, antropologia, moral, sentimentos
Esse projeto será trabalhado de 2022 até 2026.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O capitalismo acabou

 O tecno-feudalismo, baseado no controle da mídia digital, pauta as relações de poder e de transferência de capital, de oferta e procura, do que se torna visível e do que fica no ostracismo.

O capitalismo, tal como o conhecíamos acabou de desaparecer. Agora vivemos a era dos Feudos digitais que não só controlam o alcance da sua mensagem senão que direcionam afetos, geram ansiedades, provocam ódios e decidem o que está certo e o que está errado.








Endógeno / Exógeno

 Epidemias de angústia, de pânico, de autismo, de depressão, de ansiedade, de cansaço crônico, de esgotamento físico e mental, .....

De repente a doença mental que seria por causas endógenas ( falta de uma substância, problemas genéticos, mecanismos neurais...) aparecem por ondas, como as epidemias.
Ou os problemas endógenos se multiplicam na espécie por mutação ou as causas não são meramente endógenas.

O romance individual e social do neurótico.


Uma das formas da neurose mostra como o sujeito pode sustentar seu egoísmo na vida social junto com o altruísmo da vida pessoal.
Quer dizer, o neurótico convive com uma forma de vida onde o egoísmo prevalece nos seus anseios por cargos públicos, espaços de poder institucional e acumulo de riqueza material, mas se realiza desde um discurso altruísta, onde tudo o que faz é, supostamente, pelo bem do outro. Assim, o neurótico se torna a voz dos que não tem voz, reclama justiça para aqueles que não a tem e vive individualmente aquilo que condena nos outros.
Uma das formas da neurose mostra como o sujeito pode sustentar seu egoísmo na vida social junto com o altruísmo da vida pessoal.
Quer dizer, o neurótico convive com uma forma de vida onde o egoísmo prevalece nos seus anseios por cargos públicos, espaços de poder institucional e acumulo de riqueza material, mas se realiza desde um discurso altruísta, onde tudo o que faz é, supostamente, pelo bem do outro. Assim, o neurótico se torna a voz dos que não tem voz, reclama justiça para aqueles que não a tem e vive individualmente aquilo que condena nos outros.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Mesa: Jacques Lacan leitor de Freud I

 



Grupo de Trabalho Filosofia e Psicanálise da ANPOF

Profa. Maria Cristina Sparano (UFPI) Profa. Claudia Murta (UFES) Prof. Daniel Perez (Unicamp) Mediador: Prof. Sergio Fernandes (UFRB)



LEITURAS DA PSICANÁLISE | Betty Fuks, Daniel Perez e Tales Ab'Saber | 19/11/2021

 Live com a participação dos conferencistas do 3º Ciclo de Conferências Leituras da Psicanálise dedicado ao texto de Freud Psicologia da Massas e Análise do Eu (1921) com mediação de Francisco Capoulade.





A origem de nossas identidades coletivas | Daniel Omar Perez | 17/11/2021

 

Professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)




Aula Preparatória Carl Hart - Prof Daniel Omar Perez

 O pesquisador e professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Daniel Omar Perez ressalta o percurso da formação intelectual como cientista e a posição de Carl Hart em relação ao consumo e os diferentes efeitos de diversas substâncias psicoativas, não só como consumidor, mas especialmente como cientista. Além disso, destaca o seu trabalho durante décadas em relação a experiências quanto aos efeitos farmacológicos e comportamentais de substâncias psicoativas em seres humanos.

Carl Hart é um dos mais reconhecidos e instigantes neurocientistas da atualidade. É um dos primeiros professores de ciências afro-americanos permanentes na Universidade de Columbia, onde leciona desde 1998.


Paulo Gala/ Economia & Finanças conversas filosóficas

 

Professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pesquisador PQ 1D no CNPQ com pesquisas sobre o sujeito e a linguagem a partir de Kant. Atualmente, a pesquisa aborda a relação entre a estrutura da proposição e a natureza humana (antropologia). Também desenvolve um projeto sobre a constituição do sujeito a partir das relações de identificação - uma abordagem entre a filosofia kantiana e a psicanálise freudiana e lacanaina. O trabalho de pesquisa se concentra na questão de como os indivíduos se constituem como sujeitos - tanto individual, quanto coletivamente. Sendo assim, são abordados fenômenos como massa, povo, coletivo, relações amorosas e situações diagnosticadas no espectro do autismo. O professor ainda realiza trabalho de extensão com filosofia, psicanálise e autismo.




Stanisław Lem

  Em Fábulas de Robôs , Stanisław Lem constrói um universo literário que parece ao mesmo tempo medieval e futurista, onde reis, príncipes e ...