quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sentidos da civilização

V CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA DA PSICANÁLISE
De 29 de outubro a 1o. de novembro de 2013
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Sentidos da civilização “Civilização sem finalidade, ou a lógica de uma história sem sentido”
Daniel Omar Perez e Francisco Verardi Bocca

Resumo
Partimos da pergunta kantiana acerca da possibilidade de pensar a história humana introduzindo uma teleologia ou uma heurística que nos permitiria afirmar de um modo não determinante a direção para o melhor.
Avançamos no modo freudiano de entender a história, também como pensada desde uma teleologia que conduz ou ao inorgânico ou ao mal-estar.
Finalmente destacamos alguns elementos darwinianos para pensar a história constituída por uma lógica que não necessariamente exige do elemento teleológico.



Resultado
O trabalho de Charles Darwin oferece uma curiosa resposta à questão (kantiana) acerca da história sem necessidade de introduzir ou se valer, por exemplo, de recursos finalistas ou teleológicos, tal como são os exemplos de Kant e Freud.

Esperamos demonstrar que sua teoria (Darwin), preservando a indicação e o reconhecimento de uma relação causal na produção dos fatos da natureza, o faz sob a lógica que introduz o acaso e a mutação, atendendo, de forma econômica, às exigências e oferecendo uma alternativa plausível para se pensar a história humana.

Eliminação de princípios metafísicos:

A natureza orgânica pode ser pensada racionalmente como não querendo ou intencionando nem viver nem morrer

A história pode ser pensada com algum sentido, mas sem garantias de execução no fracasso ou no sucesso

O tempo da história humana individual ou coletiva pode ser pensado numa lógica sem finalidade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

TEMAS SEMÂNTICOS EM KANT

Um novo livro organizado por Andrea Faggion e Joãosinho Beckenkamp da DWW Editorial com uma série de trabalhos de pesquisa sobre a filosofia kantiana.


Aqui encaminho a introdução da minha contribuição.
Conceitos de antropologia fisiológica na antropologia kantiana: Kant e os naturalistas em um debate sobre a natureza humana

Daniel Omar Perez

1.       Introdução acerca do modo de abordagem e do tópico em questão
O fato de Kant nunca ter escrito que o verdadeiro problema da razão pura era o de fazer uma ontologia, ou uma fundamentação das ciências teoréticas, ou uma explicação de como funciona a mente é o que nos autoriza a deixar de lado esse tipo de interpretação e levar adiante a leitura da declaração direta e sem ambiguidades de sua própria letra. Assim, segundo consta em seu escrito, a filosofia crítica pode ser abordada a partir da sua questão fundamental enunciada do seguinte modo: “o verdadeiro problema da razão pura está contido na seguinte pergunta: como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” (KrV, B 19). Segundo Kant, a pergunta acerca da possibilidade dos juízos, e não outra, é a questão fundamental da crítica. Se, como quer Kant, isto é verdadeiro em relação ao seu próprio trabalho, então o nosso só pode partir daqui. Essa interrogação, por um lado, serve como início do programa kantiano e, por outro lado, funciona como fio condutor para desenvolver uma interpretação sistemática dos trabalhos desenvolvidos durante os anos de 1780 e 1790 e ainda articular as questões apresentadas no denominado período pré-crítico. Deste modo, podemos entender que o exercício crítico da filosofia – em sentido kantiano – é uma pesquisa sobre as condições lógico-semânticas das proposições, que não se sustentariam apenas no princípio de identidade e não-contradição. Em outras palavras, a pergunta acerca das condições de possibilidade das proposições não é apenas uma declaração oriunda da letra de Kant e nem um fio condutor para a interpretação de textos, é também um modo de entender o trabalho da filosofia.
Assim sendo, o presente trabalho foi iniciado com a tese de doutorado de Loparic (1982), publicada sob a forma de livro em (Loparic, 2000): A semântica transcendental de Kant. O resultado mais importante desse estudo foi compreender a razão como aparelho formulador e solucionador de problemas propostos a partir de proposições cognitivas válidas. A validade das proposições teoréticas (cognitivas) estaria decidida por uma regra lógica e duas semânticas, a saber: 1) As proposições não podem ser autocontraditórias; 2) Os conceitos das proposições devem poder referir a objetos dados ou construídos na sensibilidade; 3) As formas proposicionais devem poder se relacionar com as formas da sensibilidade. Após esta pesquisa, Loparic publicou durante a década de 1990 outros textos como resultado parcial do avanço em outros tipos proposicionais. Deste modo, podemos ir da primeira crítica para a segunda e a terceira com o mesmo fio condutor e nos perguntar sobre a possibilidade das proposições cognitivas, práticas, estéticas etc., compreendendo a razão em sentido amplo como aparelho ou dispositivo para formular e decidir a possibilidade de resolver problemas em diferentes campos semânticos. Avancei sistematicamente nessa questão na minha tese de doutorado defendida em 2002, publicada em forma de livro com modificações em 2008. Este trabalho conduziu-nos não só a interrogarmos a possibilidade dos tipos específicos de proposições da experiência cognitiva teorética e prática em sentido estrito, como também às proposições da história, do direito, da política, da pedagogia, da virtude e da antropologia pragmática, até nos levar para a indagação acerca dos elementos “antropológicos” do executor das operações lógico-semânticas do formulador e solucionador de problemas. A primeira parte deste trabalho foi sendo realizado durante a década de 1990 e 2000 pelo que Ricardo Terra (2012) denominou de “a escola semântica”, referindo-se às diversas publicações do grupo tais como Loparic (2000), Hahn (2006), Faggion (2006), Linhares (2005), Perez (2008), entre outros. A segunda parte dos trabalhos, aquela que se refere aos elementos “antropológicos” do executor das operações, ainda está sendo desenvolvida.
O tipo específico de proposições da antropologia pragmática fez aparecer em destaque o problema da relação entre a estrutura proposicional e a natureza humana. A estrutura proposicional, estudada sob a pergunta acerca das condições de possibilidade dos juízos, tem relação com o aparelho executor das operações judicativas, estudada sob a pergunta acerca da natureza humana. Abordei esse tema em três textos (Perez, 2009, 2010a e 2010b). Porém, é preciso destacar que, por outras vias, estudiosos como Louden (2000), Longuenesse (2005) e Hanna (2006) – entre outros – também foram levados a perguntar sobre a mesma relação que destacamos, a saber, sobre a relação entre juízo, razão e natureza humana. No caso de Louden, a antropologia é considerada a parte impura da filosofia prática que, desde a pureza da sua fundamentação, encontraria na natureza humana o seu domínio de aplicabilidade. Nos casos de Longuenesse e Hanna, uma natureza humana teria sido pressuposta por Kant e seria anterior à sua teoria do juízo. Em Longuenesse, sua posição está muito clara na introdução da sua publicação de 2005, quando destaca o ponto de vista humano e explica sua interpretação da posição de Kant. Em Hanna (2006), seu trabalho mostra uma filosofia da mente com uma natureza humana dotada de determinadas características físicas e de um funcionamento que produzem representações.
Nossa hipótese, como já se advertiu até aqui, é a que Kant, no seu período crítico, parte da estrutura de uma proposição da qual se pergunta sobre suas condições de possibilidade (formulação e validade) e daí deriva a natureza “humana” do executor das operações judicativas. À medida que fomos avançando no detalhe da relação proposição-natureza humana, descobrimos que as questões antropológicas não apareciam apenas no curso de antropologia senão que perpassavam toda a obra de Kant.
Um trabalho de Claudia Schmidt (2007) nos oferece diferentes documentos textuais e alguma referência a outros estudiosos, nos quais se encontrariam possíveis caracterizações da antropologia em sentido transcendental, empírico, pragmático e moral. Pela nossa parte, podemos constatar o que chamamos de um projeto antropológico (no sentido em que uma interrogação significativa e sistemática avança na filosofia kantiana) desde o período pré-crítico até a Opus Postumun. Este “projeto antropológico” se apresenta como uma antropologia empírica de comportamentos sociais ou individuais aplicada a temas de estética e psicologia (especialmente em textos da década de 1760); conceitos de anatomia comparada, de estudos de biologia e fisiologia que podemos caracterizar como antropologia fisiológica (encontrados espalhados em publicações, cursos e cartas desde 1760 até 1802); elementos de antropologia pragmática como conhecimento de mundo (especialmente no curso); a menção a um projeto de antropologia transcendental associado à ideia de uma crítica do conhecimento (nas críticas e na Rx 903 do volume XV) e uma antropologia prática caraterizada como a parte “empírica” da filosofia prática (nos textos publicados de filosofia prática, nos cursos de moral e no volume XXIX, p. 599). Por um lado, encontramos tipos de conhecimentos específicos da natureza humana em cada caso; por outro lado, porém, encontramos elementos de uma natureza humana que operaria como executora das regras que efetivam os juízos. Neste sentido, é preciso não se apressar na afirmação de que Kant adota uma determinada natureza humana a partir da qual deriva uma teoria do juízo, sem antes investigar todos os aspectos do que está sendo considerado em cada caso.
O projeto antropológico compor-se-ia de elementos das cinco antropologias e estaria articulado sistematicamente na formulação das três perguntas kantianas acerca do saber, do fazer e do esperar que conduzem à quarta: o que é o homem? Dito em outras palavras, Kant perguntar-se-ia sobre a possibilidade dos juízos e, na sua resposta, além de encontrarmos regras lógico-semânticas, também nos deparamos com os elementos que compõem o executor dessas regras.
Assim, para investigar todos os aspectos do projeto antropológico de Kant, consideramos necessário e preliminar nos interrogarmos acerca do surgimento dos debates e dos conceitos a serem utilizados nos textos que nos interessam. Neste sentido, uma declaração de Zammito (2002) sobre o nascimento da antropologia é bem pertinente. Cito Zammito:
A cristalização do discurso antropológico se origina desde a convergência (con-fusão) de uma quantidade de investigações diferentes: o modelo médico da psicologia fisiológica, o modelo biológico da alma animal, o modelo pragmático ou conjetural da teoria histórico-cultural, o modelo psicológico literário do novo romance (Tristam Shandy, Sorrows of Young Werther), e o modelo filosófico da psicologia racional fundada no dilema da interação da substância (As três hipóteses). (2002, pp. 221-222)
Com efeito, durante todo o percurso do seu trabalho, Kant se nutre de e debate com filósofos, mas também com médicos, psicólogos, romancistas e com escritores de teatro e poesia. Kant vai além dos naturalistas da época, lançando mão do teatro e da poesia como a de Molière, Shakespeare, Alexander Pope, Juvenal e Homero para investigar o que é o homem. Antes de entrar por essa via, porém, o que nos interessa aqui é especialmente a relação com os pesquisadores de história natural. É no diálogo – às vezes concordante e às vezes discordante – com estes cientistas que aparecem conceitos decisivos para a indagação kantiana acerca da natureza humana e que serão interpretados e peculiarmente usados em toda sua obra, inclusive para interpretar as fontes literárias.
Os diários de viagens dos marinheiros e os estudos de anatomia comparada escritos desde o século XVI até as tentativas de classificação da natureza do século XVIII propiciaram o material com o qual Kant foi se munir para sua reflexão. O homem como um dos objetos de trabalho da história natural tinha sido incluído por John Ray em 1693 em um sistema classificatório de seres vivos. Mais tarde, no ensaio sobre o orangotango de 1699 de Tyson, o ser humano se encontraria dentro do conjunto dos primatas. Em 1735 com Linnaeus foi explicitamente incluído em uma classificação formal junto com animais e plantas e, em 1749, o conde de Buffon acrescenta uma discussão necessária sobre a natureza em geral, que ecoará na interpretação sobre as diferenças entre os homens. Passa-se, assim, de lhe darmos um lugar na classificação a nos perguntarmos sobre suas mudanças, diferenças específicas e peculiaridades.
Neste percurso, a História Natural instaurou um debate sobre o modo de abordar seu objeto em geral que incluía uma variante no modo de entender também o homem. Os naturalistas, que realizavam trabalhos de campo e recolhiam a informação in loco, precisavam estabelecer um método. A discussão se deu entre uma concepção de história natural descritiva e outra de desenvolvimento da história da natureza. O debate das diferentes perspectivas de estudo do século XVIII entre Naturbeschreibung e Naturgeschichte foi retomado por Immanuel Kant a partir dos textos do conde de Buffon e em confronto com os naturalistas Forster – pai e filho – e com Herder. Esses modos de estudo da natureza também estavam estreitamente relacionados com as teorias da poligenia, da monogenia e da epigenia na biologia. Esses conceitos remetem para o problema da origem e para a formação dos seres vivos em geral e dos humanos em particular. Kant entrou nesse debate em favor de uma origem única da espécie humana, mas incluiu o uso do conceito de germe e de impulso formativo (Blumenbach) para explicar a diferença de formas e as capacidades humanas, especialmente no que concerne à raça e ao gênero. A partir daqui é possível compreender a introdução de conceitos como disposição, temperamento e caráter que serão úteis para articular os elementos anátomofisiológicos com as condutas práticas em geral ou especificamente morais. Todos esses conceitos foram usados por Kant como elementos para constituir o executor das operações judicativas teóricas, práticas e reflexionantes.


Neste trabalho apresento em primeiro lugar a disputa descrição-narração na história natural; em segundo lugar, a diferença poligênese-monogênese; e, em terceiro lugar, a questão da epigênese e da pré-formação. Cabe mencionar que os debates de Kant foram realizados durante a década de 1770 e 1780. Com estes elementos, que surgem da história natural, poderemos ver as marcas conceituais da concepção kantiana da problemática da história e da natureza humana e, em especial, do conceito de raça. Nosso objetivo é demonstrar que os conceitos são originados em discussões da história natural, mas são também reinterpretados e ressignificados por Kant no seu novo uso. O esclarecimento do debate e o reconhecimento da interpretação kantiana dos conceitos da história natural permitir-nos-iam entender parcialmente o alcance e o limite dos elementos “antropológicos” do executor das operações lógico-semânticas do formulador e solucionador de problemas do qual falamos no inicio deste trabalho.

ESTUDOS HEGELIANOS EM ESPANHOL

Um link com uma revista de estudos hegelianos em espanhol.

http://www.revistaestudioshegelianos.cl/#!numeros/c5x0


domingo, 15 de setembro de 2013

TERRORISMO DE ESTADO. A eliminação sistemática de pessoas e os limites do político. Breve ensaio sobre a ação política.

TERRORISMO DE ESTADO


A eliminação sistemática de pessoas e os limites do político.
Breve ensaio sobre a ação política.

Daniel Omar Perez

Introdução
Este trabalho tem como objetivo fornecer elementos para pensar a ação politica e faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre identificações e afetos na vida em comum. Porém, o ponto de partida circunstancial que motiva a redação específica deste texto é o surgimento de novos documentos sobre os voos da morte na Argentina[1]. Refere-se a um verdadeiro ato de perversão que consistia em jogar pessoas previamente sequestradas e torturadas desde um avião ao mar, e que, juntamente com uma série de outros eventos não menos bizarros, conformaram o Terrorismo de Estado na Argentina (1976-1983). Este foi um plano que não foi desenvolvido isoladamente naquele país, mas na grande maioria dos países do continente, inclusive nos EEUU. Talvez deveria-se pensar mais apuradamente a relação entre os assassinatos políticos da década de 60 (desde Kennedy e Martin L. King), a eliminação dos panteiras negras nos EEUU, a aplicação dos golpes de Estado e os planos de extermínio da guerra anti-insurgente na América Latina para observar a relação entre o padrão da ação política desses anos e as práticas de eliminação sistemática. Mas o que me interessa é menos explicar o que aconteceu na época dos golpes de Estado e mais pensar os elementos da ação política desde um dispositivo conceitual que possa evitar repetir o cenário no qual aquelas forças possam voltar a se tornar hegemônicas e o suficientemente articuladas como para desenvolver seu projeto político e suas práticas de eliminação sistemática.
Para isso, abordaremos sumariamente:
  1. O conceito do político (instabilidade, homogeneidade e hegemonia).
  2. A sociedade e o Estado (indivíduos, grupos e identificação).
  3. O Estado e a política do usufruto.
  4. A identificação e a descarga afetiva nas suas modalidades perversa e sublimatória, onde a modalidade perversa elimina o próprio desejo.
  5. A sublimação como saída que sustenta a possibilidade do desejo na sua diferença.


Do conceito do político ao problema da eliminação do outro
O conceito do político é definido por Carl Schmitt a partir da relação amigo-inimigo e sua dinâmica estaria dada pelo combate (SCHMITT, 1963)[2]. Esta oposição reconhece uma instabilidade fundamental, uma disputa entre interesses divergentes, um conflito entre grupos, bandos ou partes, mas também inclui o assassinato político como modo de resolução do conflito.
O mesmo Schmitt que em 1932 militou nas eleições alemãs contra a hegemonia dos nazistas no parlamento, após receber uma carta convite de Heidegger em 22 de agosto de 1933 para colaborar com o projeto político da NSDAP na universidade[3] (FAYE, 2009, pp. 260-61), em 1934, defendeu claramente e sem ambiguidade a eliminação do outro no caso da “noite das facas longas” (Nacht der langen Messer) que acabou em assassinato de próprios e alheios (Schmitt, 1934).
Assim sendo, o conceito do político schmittiano não só incluiria o combate entre inimigos senão também a eliminação do outro. Isto nos permite dizer que, a relação de oposição amigo-inimigo, segundo pode ser pensado em Schmitt, não buscaria apenas a hegemonia na disputa, mas sim, a homogeneidade do campo. A passagem da luta pela hegemonia (no parlamento), onde o outro não pode ser eliminado, para a busca da homogeneidade (na “noite das facas longas”) onde o outro pode ser retirado da disputa pela via do assassinato é decisiva e faz toda a diferença.
Este modelo de pensamento é tão sugestivo quanto desastroso para pensar o conceito do político. Se no conceito do político se reconhece como ponto de partida um campo de instabilidade e se funda, antes que em um conflito ou em um consenso, nesse campo de instabilidade que pode possibilitar tanto conflitos quanto consensos entre sujeitos com interesses, desejos e necessidades convergentes ou divergentes, a eliminação de pessoas e seu exercício sistemático, como modo de resolução do conflito, procuraria acabar com a própria instabilidade que o funda, como se fosse possível alcançar uma homogeneização do campo.
Esse tipo de conceitualização e estratégia busca necessariamente o fim da política como ação levada adiante num campo de instabilidade e disputa pela hegemonia, na realização de uma máquina de guerra, de uma fábrica de cadáveres[4], de um Estado Perverso onde o outro não é o adversário necessário e irredutível da disputa, mas o resto a ser eliminado em busca da homogeneidade.
No caso argentino (1976-1983) o combate contra o inimigo, como inimigo interno a ser eliminado para alcançar a homogeneidade se realizou por meio do exercício do Terrorismo de Estado como um “processo de reorganização nacional” (nome dado pelos próprios militares e civis no poder de facto) que rearticularia a sociedade desde sua base econômica, industrial e financeira até sua estrutura social e cultural. Nesse sentido, os operativos de sequestro, roubo, roubo de bebês, tortura, fuzilamento, desaparição de pessoas e assassinatos não foi um excesso circunstancial, nem se tratou de eventos exagerados. Não se tratou de uma estratégia entre outras, mas da única saída possível para a busca da homogeneidade desde o exercício do poder do Estado.
Para explicar esta afirmação nos demoraremos brevemente em alguns conceitos.

A Sociedade, o Estado e a identificação
O mito liberal do indivíduo bipolar, constituído por necessidades biológicas e representações mentais, que toma decisões racionais em função das suas necessidades e deste modo entra em sociedade estabelecendo um pacto não é apenas um mito, mas um modo de justificar o funcionamento do Estado burguês. Trata-se de uma interpretação bastante recortada do Jusnaturalismo que exclui a vida em comum como fundo originário da aparição do indivíduo e do cidadão. Este modelo de interpretação permite opor a repressão do Estado à liberdade do indivíduo. Isto permite também reivindicar duas ações determinantes do poder do Estado, a saber: reduzir sua intervenção em relação à liberdade individual e reivindicar seu exercício coercitivo quando esta mesma liberdade se encontrasse ameaçada pelo caos e a desordem social. Nesse sentido, opõe-se a identidade do indivíduo e sua liberdade à alienação imposta pelo Estado ou pela desordem. A oposição identidade-alienação, onde o primeiro termo é o privilegiado e hierarquicamente superior e o segundo é depreciado, reduz o Estado a uma máquina de repressão em função de uma suposta liberdade individual natural como elemento de identidade do sujeito.
Contrariamente ao mito liberal, podemos pensar os sujeitos não como indivíduos isolados que tomam decisões racionais em função das suas necessidades biológicas, mas como sempre já dados em um clã, tribo, horda ou grupo. A mãe não pergunta para o bebê se ele quer ou não entrar em sociedade, se ele quer ou não satisfazer de tal ou qual maneira suas necessidades biológicas, ele não tem alternativa. O indivíduo, para que se constitua como tal, precisa antes de qualquer coisa se alienar ao desejo do outro. A alienação aqui cumpre uma função constitutiva e não pode ser mais degradada a segundo termo. Aquele que exerce a função materna não só nutre a criança dando resposta às necessidades biológicas, mas também erogeniza o corpo (FREUD, 1988) dando sentido àquilo que aparece, por exemplo, na forma de choro. O choro da criança é resignificado pelo desejo da mãe como fome, como mal-estar estomacal, como sono, etc. Nesse processo, a criança é nomeada e se lhe exige que responda desde esse lugar. Assim, a criança se aliena tanto ao desejo da mãe (que dá sentido às suas necessidades) quanto ao significante (paterno) que a nomeia e possibilita a articulação da relação entre o desejo e a lei (LACAN, 1997). Fora do âmbito familiar, a identificação significante e a satisfação pulsional também serão os elementos que permitirão a criação do grupo, do projeto político, da vida em comum.
O sujeito não possue uma identidade pré-estabelecida senão que surge como efeito de um processo de identificação (LACAN, 1961). Assim, se reconhece em relação com o outro mediante uma identificação significante em torno do qual se articulam outros significantes produzindo uma cadeia significante, isto é, o sentido num discurso ou narrativa. É a partir desse discurso que o sujeito aparece como seu efeito, isto é, um sujeito alienado ao discurso do Outro. Ao significante lhe corresponde uma carga afetiva, ou seja, o sujeito investe libidinalmente na identificação. Entre o significante e a carga afetiva se articulam os objetos de desejo com os quais o sujeito se identifica e descarrega. Dessa forma o indivíduo aparece como sujeito de um discurso e uns modos de descarga afetiva que o faz parte de um grupo, clã, família etc. Os grupos políticos também podem ser acolhidos nesse dispositivo conceitual.[5] Isto nos permite dizer, entre outras coisas, que a disputa política não se dá entre indivíduos ou entre indivíduos e o Estado, mas entre diferentes grupos e discursos e não opera apenas por argumentação, mas por identificação significante e descarga afetiva. A identificação significante e a descarga afetiva estabelecem o laço a partir do qual se argumenta.

O Estado e a política do usufruto
Chamamos aqui de Estado em sentido geral às instituições político-juridicas de uma sociedade produzidas a partir de grupos identitários organizados em torno de um projeto político. Uma sociedade, constituída por indivíduos e grupos de indivduos, organizada institucionalmente em sistemas de legislação e de coerção, se sustenta a partir de sistemas de repressão e controle de circulação dos desejos dos indivíduos e dos grupos de indivíduos que a integram. Nesse sentido, o Estado não pode ser concebido como aparelho de poder oposto aos indivíduos que passivamente aceitam seu disciplinamento, controle ou vigilância senão como campo de disputa, como o lugar onde a ação política se exerce fundada no campo de instabilidade originária que a torna possível .  Isto significa também que consideramos a sociedade institucionalizada como o modo em que os indivíduos e grupos de indivíduos usufruem ou são inibidos na sua demanda pulsional. Isto é, as instituições do Estado e a sociedade institucionalizada conformam o modo em que circulam e se satisfazem ou se inibem os desejos e a política não é outra coisa que a disputa dos diferentes modos de usufruto.

A identificação e a descarga afetiva
Toda sociedade institucionalizada se sustenta com mecanismos de produção, repressão e controle de formas de satisfação. Os mecanismos de repressão e controle que instituem a sociedade exigem a adesão (alienação) dos indivíduos em relações de identificação para poder ordenar a sociedade. Dito de outro modo, para participar da sociedade instituída, o indivíduo deve renunciar a determinados encaminhamentos pulsionais (canibalismo, incesto etc.) e aderir (se alienar) a outros (FREUD, 1988b).
Estes renunciamentos pulsionais podem ser ordenados de duas maneiras diferentes:
1. De modo a conduzir a saídas sublimatórias e favorecer a circulação dos desejos por outras vias, recriando o circuito pulsional e a variedade de objetos de satisfação parcial (FREUD, 1988c; LACAN, 1997b). Isto permitiria conviver com a instabilidade entre os conflitos e os concensos em uma sociedade do usufruto;
2. De um modo decididamente repressivo e então a saída será perversa. Neste caso, os mecanismos de repressão e controle pulsional exigem que o indivíduo deva renunciar à sua satisfação pulsional em relações de identificação fechadas onde aquilo que é excluido, o inimigo, é reduzido a resto, a escória, a excremento e, portanto, pode ser eliminado e não só, eliminado sistematicamente.
Esses dois modos (sublimatório e perverso) são os dois extremos de um leque de possibilidades a partir das quais se articulam os modos de encaminhamento e satisfação pulsional em sociedades institucionalmente organizadas. Assim, os projetos políticos como modos de entender o encaminhamento e a satisfação pulsional podem propor modelos institucionais mais ou menos sublimatórios ou repressivos.

Repressão e gozo perverso
As organizações políticas e os governos que exigem fortes mecanismos repressivos para incluir o sujeito nas suas relações de identificação inibem um grande leque de possibilidades de satisfação em favor de uma promessa de gozo absoluto. Eliminar o resto é a empreendimento, o compromisso e a esperança de satisfação. Há uma promessa de gozo absoluto nessa eliminação do resto, um gozo perverso[6]. Quanto mais repressivo o sistema de identificação menos sublimatório poderá ser o encaminhamento e a satisfação pulsional. O sujeito deve reprimir seus encaminhamentos pulsionais para se identificar e, desse modo, encontrar reconhecimento no Outro, mas, em relação com aquilo que é excluído, e por isso mesmo, ele não tem barreiras.  Esse gozo perverso é o que sustenta os mecanismos de eliminação sistemática de pessoas na Argentina de 1976-1983 e na Alemanha da solução final. Mas o gozo perverso que determina esse mecanismo de operação não se reduz a um indivíduo com vontade de fazer o mal, senão que se sustenta em uma infraestrutura. O mecanismo da perversão é fundamentalmente uma instalação que precisa de regras estritas e suporte material. Podemos ver em Sacher-Masoch ou Sade, onde a cena exige parceiros, ajudantes, roupas, ambiente adequado, alimentos, bebidas, regras que todos devem obedecer, posições que todos devem respeitar etc. A saída perversa não se realiza senão ordenadamente. Não há perversão sem a cena completa e sem a colaboração dos parceiros.
No Estado Perverso, onde a redução à escória do outro é uma prática sistemática, é preciso o “pervertido” como o ator da cena, mas também de toda uma infraestrutura que o suporta. No caso da solução final, foi necessário logística, tecnologia, como a empresa Man e a empresa Siemens para a construção de motores e fornos crematórios para os campos de extermínio, assim como técnicos e ajudantes para sua instalação, avaliação do consumo de combustível necessário, sistemas de financiamento, etc, para que o gozo perverso da eliminação do judeu como resto fosse possível. No caso do terrorismo de Estado na Argentina, não bastaram apenas os torturadores e os sequestradores, foi preciso que uma infraestrutura de tecnologia, logística e financiamento fornecesse o suporte. Por exemplo, os roubos de quase 500 bebês de mulheres sequestradas e torturadas pelo terrorismo de Estado[7] exigiram médicos, enfermeiras, advogados e juízes para completar o cenário.
Para poder exercer a prática política como o jogo de interesses que se pauta em um campo de instabilidade fundamental é preciso não apenas afastar o “pervertido” em favor de exercícios sublimatórios de satisfação, em favor de disputas hegemônicas ou na busca de consensos, mas também desmontar o dispositivo da perversão desde sua infraestrutura. Tanto a figura do pervertido, quanto a do cínico e do indiferente, que dão suporte à cena, devem ser desfavorecidas na sua possibilidade de aparição. Isto implica uma ação política que recrie novas e variadas formas de satisfação pulsional parcial e na recriação de novas identidades.

A sublimação e o reconhecimento das novas identidades
As organizações políticas e os governos cujo regime de renúncia pulsional se articula com o favorecimento de diversos modos de encaminhamento e satisfação e com o reconhecimento de diversos modos de identificação inibe a saída perversa e a instauração de seu cenário. A saída sublimatória se realiza em ações políticas, em políticas públicas capazes de dar um mínimo de satisfação à demanda pulsional e de reconhecer a multiplicidade de relações de identificação que possibilitem a circulação do desejo. O reconhecimento da demanda pulsional e da identificação significante constituem elementos fundamentais da ação política. O reconhecimento do matrimônio igualitário, o reconhecimento de direitos aos excluídos, o reconhecimento dos povos originários recriam novas identificações significantes sobre a base de antigas demandas, permitem o reconhecimento de novos objetos de desejo e possibilitam uma política do usufruto ou do gozo parcial. Os grupos e projetos políticos divergem e convergem nos modos em como entendem os modos de usufruir numa sociedade institucionalizada.

Referências
FAYE, E. Heidegger. La introducción del nazismo en la filosofia. Em torno a los seminarios inéditos 1933-1935. Madrid: Ediciones Akal, 2009.
FREUD, S. Tres ensayos para uma teoria sexual. IN Obras Completas, volumen 6. Buenos Aires: Hyspamerica, 1988.
_______ Totem y tabú. IN Obras Completas, volumen 9. Buenos Aires: Hyspamerica, 1988b.
_______ Los instintos y sus destinos. IN Obras Completas, volumen 11. Buenos Aires: Hyspamerica, 1988c.
HEIDEGGER, M. Bremer und Freiburger Vortrage. GA 79. Frankfurt: M, Klostermann. 1994.
LACAN, J. O seminário 3. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1997.
_______ O seminário 7. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1997b.
_______ O Seminário 9. Texto datilografado, foi consultada a tradução em português e em espanhol, 1961.
_______ O seminário 16. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2008.
LACLAU, E. La razón populista. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica, 2008.
MOUFFE, Ch. Em torno a lo político. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica, 2009.
SAFRANSKI, R. Heidegger. Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo: Geração Editorial, 2000.
SCHMITT, C. Der Begriff des Politischen. Berlin: Duncker und Humboldt, 1963.
­­­______ “Der Füher schützt das Recht” IN Deutsche Juristen Zeitung, XXXIX, 1934 n. 15, pp. 945-950.
STRAVAKAKIS, Y. Lacan y lo político. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2007.
______  La izquierda lacaniana. Psicoanálisis, teoria, política. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica, 2010.
VERBITSKY, H. El vuelo. Buenos Aires: Editorial Planeta Argentina, 1995.



[1] Ver Horacio Verbitsky (1995)
[2] O texto original de Carl Schmitt é de 1932.
[3] Ver também Rüdiger Safranski (2000, p. 289)
[4] Expressão de Martin Heidegger (1994, p. 56).
[5] Existe literatura sobre essa linha de interpretação que leva adiante análises e debates. Ver Ernesto Laclau (2008), Chantal Mouffe (2009), Yannis Stavrakakis (2007, 2010)
[6] Utilizo a noção de “gozo perverso” por oposição a “sublimado” a partir da leitura de Lacan em O Seminário 7 (Lacan 1997b). Nesse sentido, pode se entender o “gozo perverso” como promessa de “gozo absoluto” pela parte e o “gozo sublimado” como um “gozo parcial” em “objetos parciais” de satisfação como pode ser derivado da leitura de O Seminário 16 (Lacan 2008).
[7] O terrorismo de Estado na Argentina sequestrou em torno de 500 bebês de mulheres sequestradas e torturadas em centros de tortura. As crianças tiveram sua identidade biológica trocada e muitos deles foram criados como filhos biológicos dos próprios assassinos dos pais. A organização Abuelas de Plaza de Mayo já conseguiu recuperar a identidade de mais de 100 netos.

domingo, 8 de setembro de 2013

“Kant, Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”

“Kant, Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”.

VERSÃO PRELIMINAR DA APRESENTAÇÃO NO RIO DE JANEIRO

Daniel Omar Perez
daniel.omar.perez@pq.cnpq.br
(CNPQ - PUCPR)

Agradeço sinceramente o convite pare este evento porque para mim significa um grande aporte à pesquisa que estou realizando. O trabalho que vou a apresentar é um resultado provisório, em processo, e por isso espero todas suas objeções.
Eu não sou fenomenólogo, muito menos um especialista em Heidegger, não faço estudos comparativos, também não sou um historiador da filosofia nem um exegeta de conceitos filosóficos, eu trabalho filosofia desde problemas. Entretanto, minha matriz teórico-filosófica é decididamente kantiana, assim como um físico deve adotar um tipo de teoria seja ela newtoniana, relativista, quântica, etc para formular e resolver problemas eu parto do pressuposto de que na filosofia é semelhante, também é preciso adotar uma matriz teórica. Meu problema é acerca da condição de possibilidade daquilo que se considera a realidade e daquele que atua nela e se pergunta e por ela.
Nesse sentido, desde esse tema atualmente abordo algo assim como um evento filosófico determinado, a saber, a invenção da natureza humana na virada do século XVIII para o século XIX, na passagem da história natural para as ciências sociais, humanas e biomédicas. Especificamente, localizo a questão nos textos kantianos, na sua maneira de formular e resolver problemas e na sua interrogação acerca do homem. Nesse sentido, minhas pesquisas me permitiram constatar que a questão antropológica perpassa toda a filosofia transcendental e a constitui. Assim, posso dizer que Heidegger foi um dos primeiros entre muito poucos que contra as interpretações mais destacadas do kantismo chamou a atenção para dois elementos que são fundamentais para minha linha de interpretação, a saber, a tarefa da critica como a indagação acerca das condições de possibilidade dos juízos sintéticos e a questão da antropologia. Esses dois elementos decidem o rumo da minha interpretação e do meu modo de entender a maneira de formular e resolver problemas, por isso a leitura de Heidegger se torna necessária neste momento do meu trabalho de investigação. Também por isso, vou procurar ensaiar a possibilidade de pôr esses dois elementos em relação com o problema e sua resolução em outra perspectiva chegando a um resultado diferente daquele proposto por Heidegger. Não se trata de uma simples vontade de discordar, considero possível obter um melhor desfecho considerando os elementos iniciais da questão.
Existem problemas na filosofia, como na física, que não podem ser formulados em duas matrizes teóricas diferentes, considero que não é o caso e aqui, o próprio Heidegger me autoriza a entender que ele pensava do mesmo modo, pela sua declaração explícita e pela maneira de levar adiante a leitura de Kant.

Introdução
A leitura de Heidegger sobre Kant em Kant e o problema da metafísica já foi criticada em quantidade e modos suficiente nos últimos 80 anos. O livro expressa o conteúdo de um curso acadêmico ministrado por Heidegger no inverno de 1925-26 e reiterado mais tarde na mesma década, mas modificado depois segundo declara o próprio Heidegger e como tal consta nos documentos. Com relação às críticas, uma série de pesquisadores se sucede ao grande evento de Davos em 1929, onde Heidegger e Cassirer iniciam um debate sobre a interpretação de Kant. Posterior ao debate e à virada da década de 1930 a interpretação ficou relativamente ultrapassada. Aliás, foi o próprio Heidegger que se encarregou de declarar a sua distância com relação àquela interpretação. Essa posição de Heidegger consta no prólogo escrito para a segunda edição da obra em junho de 1950. Portanto, não se trata aqui de fazer uma nova lista de erros, equívocos ou falsidades. O objetivo do trabalho é destacar os elementos da interpretação heideggeriana sobre Kant que nos permitirão posicionar nossa interpretação com o intuito de propor outro encaminhamento da questão da metafísica desde a ideia e o lugar da antropologia  e do problema do juízo em Kant.
Para alcançarmos tal fim, primeiro, apresentaremos a proposição do trabalho de Heidegger; em segundo lugar, a aparição do homem com relação ao desenvolvimento do fundamento da metafísica e, em terceiro lugar, a interpretação de uma antropologia como fundamento da metafísica. Assim, pretendemos estender o que Heidegger chamou de “diálogo” entre pensadores. Heidegger (1986, 10), no prólogo à segunda edição escreveu:
“Há intermináveis objeções contra a arbitrariedade das minhas interpretações. A presente obra pode muito bem servir de base para tais objeções. Com efeito, os historiadores da filosofia tem razão quando focam sua crítica contra aqueles que tratam de expor um diálogo de pensamentos entre pensadores. Pois um diálogo desta classe, à diferença dos métodos próprios da filosofia da história, encontra-se sob leis muito distintas. São leis mais vulneráveis”.
A mesma posição de leitura é declarada por Heidegger em outros lugares, por exemplo, no texto sobre Nietzsche. Entendendo que não se trata aqui de fazer história da filosofia, mas sem deixar de pressupor alguns elementos que possibilitam o diálogo (a saber, que há uma questão comum: a metafísica; e que é possível tratar com aquilo que se interroga o que opera com relação àquela; isto é, o homem), vamos diretamente à tarefa deste artigo.

Proposição do trabalho de Heidegger em três tempos
1.
Declaradamente, na introdução de Kant e o problema da metafísica Heidegger se propõe a tarefa de “interpretar a Crítica da razão pura como uma fundamentação da metafísica” e imediatamente explica que “o problema da metafísica é focado como problema de uma ontologia fundamental”. A “ontologia fundamental” é definida como uma “analítica ontológica da essência finita do homem que deve preparar o fundamento de uma metafísica conforme à natureza do homem”.
Segundo Heidegger, a ontologia fundamental, embora vise a questão da natureza do homem não é uma antropologia nem mesmo filosófica. Para deixar isso claro Heidegger gasta algumas páginas criticando a Max Scheler (Heidegger, 1986, 177 e ss.). Assim, deve se avançar em “expor a ideia de uma ontologia fundamental (isso) significa: demonstrar que a citada analítica do da-sein é um postulado necessário e elucidar de que modo e com qual intenção, dentro de que limites e em função de quais pressupostos coloca a pergunta concreta “que é o homem?”” (Heidegger, 1986, 11)
Nesse sentido a ideia de uma ontologia fundamental se afirmará e desenvolverá por meio de uma interpretação da Crítica da razão pura como fundamentação da metafísica.
2.
A partir de Kant, Heidegger sustenta que a metafísica pode ser entendida não como edifício, mas como uma “disposição natural” no homem (Heidegger, 1986, 11). Neste sentido, os problemas da metafísica não são arbitrários, mas produzidos pelo próprio funcionamento da razão humana, tal como mostra Loparic (2000) em “A semântica transcendental de Kant”. Assim, a metafísica pertence à natureza do homem e coexiste com ele.
Deste modo, compreende-se que uma investigação sobre a fundamentação da metafísica é pensada como “projeto da possibilidade interna da metafísica”. Essa afirmação é fundamental. Não se trata de buscar a saída do problema de uma fundamentação da metafísica senão desde o interior da sua própria possibilidade, isto é, sem recorrer a elementos externos ou ad hoc.
3.
A investigação sobre o fundamento da metafísica nos envia para o problema da sua possibilidade interna, isto é, segundo Heidegger: sua origem. Assim sendo, se a metafísica é uma disposição natural do homem então devemos indagar “o que é o homem?” mas não numa antropologia filosófica e sim numa analítica do da-sein.

Heidegger estabelece aqui uma relação entre possibilidade interna da metafísica e origem que pautará decididamente seu trabalho. Porém, podemos pensar que a possibilidade interna da metafísica pode ser articulada a partir do próprio funcionamento do juízo, sem considerar o problema da origem senão apenas de seu modo de operar. Portanto, estamos diante de uma decisão interpretativa que imprimirá uma determinada orientação dos trabalhos. Seguidamente, Heidegger mostra essa orientação e relaciona a origem da metafísica com a disposição natural no homem o que indica que será necessário abordar os elementos antropológicos exigidos para revelar a origem e o funcionamento da metafísica. Por um lado, é preciso salientar mais uma vez que origem e funcionamento não estão naturalmente na mesma ordem de problemas a pesar de Heidegger colocar os dois elementos juntos. Por outro lado, devemos dizer que a maior parte dos estudos kantianos durante dezenas de anos considerou desnecessário abordar a questão da natureza humana dado que a crítica kantiana se referiria ao conhecimento a priori que pode ser alcançado com a razão, sem considerar o empírico na sua base. A partir da leitura de Heidegger cabe de modo muito pertinente se perguntar se essa natureza humana, essa antropologia, essa pergunta pelo homem é uma pergunta respondida a partir de observações empíricas, se se trata de uma antropologia pura, de uma antropologia filosófica ou está mais perto de uma “analítica do Da-sein como postulado necessário” o que implicaria em uma ideia diferente do estudo da natureza humana.

Com isto Heidegger se distancia da leitura atribuída aos neokantianos onde a Crítica da razão pura seria uma teoria do conhecimento ou uma teoria da experiência (Heidegger, 1986, 24 e 25). e avança numa indagação da fundamentação da metafísica numa antropologia  (Heidegger, 1986, 173 e ss.).

A metafísica de Aristóteles a Kant e a aparição do homem
De acordo com Heidegger, em Aristóteles a metafísica é considerada como “conhecimento do ente como ente” e também “da região suprema do ente desde a qual se determina o ente na sua totalidade” (Heidegger 1986, 17). De Baumgarten a Kant se transforma em “primeiros princípios do conhecimento humano” (Heidegger 1986, 15). Assim, “o conhecimento do ente se converte na ciência da razão pura”. A passagem da pergunta pelo ente à pergunta pelo modo de conhecimento do ente reformula a questão fundamental e seu desenvolvimento. Deste modo, Kant delimita a essência da metafísica e “reduz o problema da possibilidade da ontologia à pergunta “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?”” (Heidegger, 1986, 22). Esta indicação é fundamental porque coloca a pergunta pela possibilidade do juízo como ponto de partida do labor kantiano. Cito Kant, para confirmar a tese heideggeriana e indicar os passos a seguir (Kant, KrV B 19):
Ora, o verdadeiro problema da razão pura está contido na seguinte pergunta: como são possíveis os juízos sintéticos a priori?
O facto da metafísica até hoje se ter mantido em estado tão vacilante entre incertezas e contradições é simplesmente devido a não se ter pensado mais cedo neste problema, nem talvez na distinção entre juízos analíticos e sintéticos. A salvação ou a ruína da metafísica assenta na sulução deste problema ou numa demonstração satisfatória de que não há realmente possibilidade de resolver o que ela pretende ver esclarecido.
A tarefa será então investigar os ingredientes do juízo e seu funcionamento. Nesse sentido, já não se trataria de um conhecimento do ente, mas de um conhecimento transcendental. Kant declara: “Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa, não tanto dos objetos, mas do nosso modo de conhecer na medida em que deve ser possível a priori.” (Kant, KrV B25, A11)
A partir daqui Heidegger interpreta que “o conhecimento transcendental não investiga o ente mesmo senão a possibilidade de compreensão prévia do ser, o que quer dizer, ao mesmo tempo, a constituição ontológica do ser do ente” (Heidegger, 1986, 24). Segundo Heidegger, avançando por essa via: “A origem fundamental da fundamentação da metafísica é a razão pura humana (...) assim, o centro da problemática é (...) o caráter humano da razão, quer dizer, finito.” Nesse sentido, a tarefa “consiste em determinar a essência do conhecimento ontológico, pela explicitação da sua origem, e seus germes” (Heidegger, 1986, 28). Vamos focar brevemente no que entendemos em Heidegger por germes e origem.
Germes
Na tentativa de avançar sobre a explicitação dos germes do conhecimento na Crítica da razão pura Heidegger assinala para as intuições e os conceitos expostos na obra kantiana, mas destaca decididamente um deles: a intuição. Assim, diz com Kant que conhecer é primeiramente intuir (Heidegger, 1986, 29). “A finitude do conhecimento deve se buscar por isso, primeiramente, na finitude da intuição que lhe é peculiar” (Heidegger, 1986, 31). Assim, “o conhecimento finito é uma intuição não-criadora”, portanto, “por ser finita nossa existência (...) deve se oferecer ao ente a possibilidade de se anunciar” (Heidegger, 1986, 31). “A intuição finita, para ser um conhecimento, necessita sempre da determinação do intuído como isto ou aquilo” (Heidegger, 1986, 33). Deste modo, a intuição se articula com o conceito. “Apenas da sua união pode se originar o conhecimento” (Kant, KrV A51 B75). Assim, Heidegger assinala para a própria síntese como a essência do conhecimento finito.
Origem
Tratar-se-ia de não se deter apenas nos dois ingredientes (intuição e conceito), mas de avançar ainda em algo mais fundamental, na própria origem das duas fontes fundamentais (Heidegger, 1986, 40). Esta procura por uma unidade originária leva a Heidegger a indagar a maneira em que se revela essa origem (Heidegger, 1986, 41). Escreve Heidegger:
“O conhecimento finito do ente exige, portanto, para ser possível, um conhecer não receptivo (aparentemente não finito), algo assim como uma intuição “criadora”. Assim, se precisa acerca da possibilidade da síntese a priori: como é possível que um ser finito, que como tal está entregue ao ente e destinado à recepção dele, seja capaz de conhecer o ente antes de toda recepção, quer dizer, o intuir, sem ser seu “criador”? Por outras palavras: como tem de ser tal ser finito de acordo com a constituição do seu ser, para que lhe seja possível aportar, independentemente da experiência, a constituição do ser do ente, quer dizer, para que seja possível uma síntese ontológica?”. (Heidegger, 1986, 41).
Assim, Heidegger passa de tomar nota da possibilidade interna do funcionamento da razão e da explicitação dos germes e seu funcionamento à indagação sobre a possibilidade de um ser finito que possibilite uma síntese originária (ontológica). A partir daqui desenvolve a leitura da Crítica como o projeto da possibilidade interna da ontología, avalia os elementos do conhecimento puro (espaço e tempo na intuição e conceitos no entendimento), sua unidade na imaginação transcendental como síntese ontológica e chega ao resultado de que “a imaginação transcendental é o centro formativo do conhecimento ontológico” (Heidegger, 1986, 112), é “a raiz de ambas ramas” do conhecimento (intuição e conceito) (Heidegger, 1986, 121 e ss). Este é o ponto mais questionado da interpretação de Heidegger e considerado um erro de leitura.  Um destaque mereceria o § 30 “A imaginação transcendental e a razão prática”. Mas não nos deteremos em nenhuma das duas menções por considerá-las fora do nosso objetivo.
O significativo para este trabalho é que todo o labor de Heidegger conduz a postular um princípio de unidade na imaginação transcendental. Isto é importante para Heidegger, porque avança na origem do conhecimento, mas não para Kant e não me estou referindo aqui apenas a um erro de leitura que teria sido cometido ou a um exagero interpretativo. Um tal princípio na crítica da razão pura seria um excesso desnecessário e injustificável com relação à tarefa fundamental, a saber: indagar como são possíveis os juízos sintéticos? Kant não precisa uma unidade última num princípio originário porque o juízo em seu funcionamento não o exige e porque o operador das regras, os ingredientes e os princípios pode operar sem esse elemento. O juízo pode ser produzido e dito válido a partir das suas condições elementares, nomeadamente, com ingredientes e síntese, mas sem unidade originária das próprias fontes. Além disso, o operador do juízo que aparece em todos os traços, ingredientes, capacidades e disposições também não precisa de um princípio originário porque pode fazer funcionar a razão sem esse elemento.  Contrariamente, Heidegger deve construir uma antropologia kantiana a partir da sua teoria da imaginação e do tempo para sustentar sua interpretação ao ponto de afirmar que “o tempo e o eu penso não de apresentam incompatíveis e heterogêneos, senão que são o mesmo” (Heidegger, 1986, 163). Isto não é um erro, é uma estratégia para resolver a questão da metafísica no sentido de fazer aparecer a necessidade de uma analítica do Da-sein. Cito Heidegger (1986, 172):
A fundamentação kantiana da metafísica conduz à imaginação transcendental. Esta última é a raiz de ambas ramas: sensibilidade e entendimento. A imaginação transcendental como tal possibilita a unidade originária da síntese ontológica. Esta raíz está enraizada no tempo originário. O fundamento originário que se revela na fundamentação é o tempo. A fundamentação kantiana da metafísica parte da metaphysica generalis e se converte na pergunta acerca da possibilidade da ontologia em geral. Ésta coloca o problema da essência da constituição ontológica, que dizer o problema do ser em geral.
A fundamentação da metafísica se funda no tempo. A pergunta pelo ser, pergunta fundamental da fundamentação da metafísica é o problema de O ser e o tempo.
Assim, Heidegger passa inicialmente da pergunta aristotélica sobre o ente e o ente supremo para a pergunta kantiana sobre as condições de possibilidade dos juízos sintéticos para, finalmente, fazer aparecer o problema do tempo na raíz da própria resolução do problema colocado por Kant. É isso o que Heidegger apresenta como a repetição de um problema fundamental em um sentido ainda mais originário. Para poder levar adiante esta tarefa onde há um problema de funcionamento do juizo e operatividade do sujeito Heidegger deve acrescentar um problema acerca da origem e postular um princípio de unidade. Nesse sentido, Heidegger (1986, 174) afirma:  “A pergunta pela essência da metafísica é a pergunta pela unidade das faculdades do espírito humano. A fundamentação kantiana revela o seguinte: fundar a metafísica é igual a perguntar pelo homem, que dizer, é antropologia”. E aqui se encontra certamente mais uma fonte de irritação dos kantianos da época: (Heidegger, 1986, 174) “a antropologia desenvolvida por Kant é uma antropologia empírica e não uma antropologia que satizfaça a problemática transcendental, quer dizer, uma antropologia pura”. Heidegger chega a esta conclusão não por achar que os traços antropológicos da crítica são empíricos, ou pelo menos isso ele não diz, mas pela interpretação que faz das três grandes perguntas  da crítica às quais lhe é acrescida a quarta nas lições de lógica e também em uma carta de Kant de 1793 que Heidegger não cita. Heidegger escreve de modo muito preciso que: “Estes três interesses originais determinam o homem, não como ser natural, senão como “cidadão do mundo”. Assim sendo, “O campo da filosofia em sentido cosmopolita se deixa resumir nas seguintes perguntas: que posso saber, que devo fazer, que me está permitido esperar, que é o homem? (Heidegger, 1986, 175). Embora exista literal e declaradamente a vinculação entre a primeira pergunta desenvolvida na primeira crítica e os estudos de antropologia que deveriam ser seguidos para responder a quarta pergunta sua passagem não é tão obvia e evidente. Onde Kant teria respondido à quarta pergunta, segundo Heidegger, desde um ponto de vista empírico?. Na própria crítica? Na Antropologia em sentido pragmático, texto do qual Heiddeger retira alguns parágrafos (ver §37) e ideias sem os citar? Heidegger (1986, 181) diz que Kant não se refere à sua antropologia não só porque é empírica senão porque se converte em um problema no curso da sua fundamentação. Poderiamos dizer nós que efetivamente o homem, como problemática, sai à luz já na primeira critica, mas não a partir de observações empíricas feitas por Kant ou como o fundamento originário do juízo e sim como operador das regras do juízo. Se a quarta pergunta perpassa o texto da primeira crítica, esta o faz articulada com a questão fundamental: como são possíveis os juízos sintéticos? E não contra ela propondo um fundamento empírico.

Final: retomando para concluir
Heidegger destacou dois elementos da crítica da razão pura que são imprescindíveis para sua leitura: que o problema era sobre a possibilidade do juízo e que essa questão estava relacionada com a antropologia. O problema todo está nessa relação. Enquanto Heidegger deve postular uma analítica do Da-sein para desenvolver a fundamentação de uma metafísica, Kant analisa as condições do juízo e deriva seu executor para demonstrar a impossibilidade daquela (da metafísica). Assim, Kant não só não precisa de uma antropologia filosófica e nem (neste caso) de uma antropologia empírica, ele também não precisa de postular nenhuma analítica do Da-sein, apenas precisa fazer seu labor analítico partindo daquilo que poderá demonstrar, a saber, a validade do juízo. Com isso tem suficiente como para articular os elementos de uma antropologia da finitude do ser racional e a consequente impossibilidade de uma metafísica como ciência. Enquanto a Heidegger, ele precisará demonstrar a necessidade de postular uma analítica do Da-sein no sentido de excluir qualquer outro ponto de partida.
Kant reduz a questão da metafísica a estruturas propocicionais dadas na linguagem que se relacionam com um sujeito que as enuncia, isto é um juízo. A tarefa de Kant é indagar como são possíveis esses juízos, tarefa fundamental reconhecida pelo próprio Heidegger. Desse ponto de partida se derivam as condições (ingredientes, regras lógico-semânticas e princípios lógicos de funcionamento) de possibilidade do juízo e posteriormente o operador das regras, dos princípios e dos ingredientes encontrados na tarefa logicamente anterior. Isso torna desnecessário qualquer natureza humana ou ser como postulado, bem como qualquer antropologia filosófica ou empírica produzindo o que podemos considerar uma antropologia transcendental, nomeada por Kant na Rx 903 de antropologia. Isso impossibilita a metafísica e qualquer tentativa de fechamento ou totalização de sentido. À primeira crítica, que abre o campo semântico das proposições cognitivas lhe sucede a segunda com o campo semântico das proposições práticas e a terceira com o campo semântico das proposições reflexionantes e assim sucessivamente sem possibilidade de determinar o limite dos campos semânticos de proposições e problemas e sem a possibilidade de um meta-discurso que contenha todos os campos.
Heidegger supõe que Kant supõe um ser racional finito a partir do qual deriva um conhecimento finito, ele diz que o conhecimento é finito porque o ser racional é finito (Heidegger, 1986, 183). Isso lhe permite ler uma unidade na imaginação transcendental. Absolutamente desnecessária em Kant, os ingredientes (intuição e conceito) operam sem a necessidade de postular um princípio que os unifique. Qualquer princípio de unificação aqui é ocioso e injustificável desde o ponto de vista das condições de possibilidade do juízo. Aqui está não o erro, mas a limitação do projeto heideggeriano da década de 1920. O postulado que ele próprio não consegue demonstrar é o que lhe impede ver a radicalidade do pensamento kantiano que demostra a impossibilidade da metafísica e a possibilidade da pluralidade de campos semânticos e operadores de juízos. Assim, o homem não é uma essência, não é definido como animal racional, é um efeito, é uma construção em aberto que pode, eventualmente, vir a ser racional. Eventualmente implica aqui uma tarefa histórico-política do individuo e da espécie que se enuncia como exigência do próprio funcionamento da possibilidade interna do aparelho. Por isso a antropologia pragmática pode avançar na pesquisa do que o homem faz, pode e deve fazer de si sem necessidade de um Deus, de um nada ou de um postulado que possibilite a revelação ou ordene o campo desde fora.

Pode se observar que minha proposta não trata de mostrar um erro de leitura, mas de apresentar a possibilidade de pensar o problema colocado por Heidegger desde Kant, nesse sentido sou fiel à proposta heideggeriana de fazer um diálogo entre pensadores.

Referências
HEIDEGGER, M. Kant y el problema de la metafísica. México: FCE, 1986.
KANT, I. Kant’s Gesammelte Schriften. Berlin: Walter de Gruyter & Co, 1902-.
LOPARIC, Z. A semântica transcendental de Kant. Campinas: Coleção CLE, Vol. 41.terceria edição 2005, primeira edição 2000.
PEREZ, D. O. Kant e o problema do significado. 2002. Tese (Doutorado em Filosofia) - Universidade Estadual de Campinas. 
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