FUNDAMENTACIÓN DE LA METAFÍSICA DE LAS COSTUMBRES
http://www.youtube.com/watch?v=R3NqnTUJByQ
OUTRA VERSÃO E LEITURA DA FUNDAMENTAÇÃO EM ESPANHOL
http://www.youtube.com/watch?v=fZEuW9hL9x4
http://www.youtube.com/watch?v=0oxM7mF1CCc
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Aulas de Kant e a crítica da razão pura do professor Claudio Costa
Aulas de Kant e a crítica da razão pura do professor Claudio
Costa para terminar o ano de 2013
http://www.youtube.com/watch?v=4sriIA7_70kquarta-feira, 30 de outubro de 2013
Sentidos da civilização
V CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA DA PSICANÁLISE
De 29 de outubro a 1o. de novembro de 2013
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Sentidos da civilização “Civilização sem finalidade, ou a lógica de uma história sem sentido”
Daniel Omar Perez e Francisco Verardi Bocca
Resumo
Partimos da pergunta kantiana acerca da possibilidade de pensar a história humana introduzindo uma teleologia ou uma heurística que nos permitiria afirmar de um modo não determinante a direção para o melhor.
Avançamos no modo freudiano de entender a história, também como pensada desde uma teleologia que conduz ou ao inorgânico ou ao mal-estar.
Finalmente destacamos alguns elementos darwinianos para pensar a história constituída por uma lógica que não necessariamente exige do elemento teleológico.
Resultado
O trabalho de Charles Darwin oferece uma curiosa resposta à questão (kantiana) acerca da história sem necessidade de introduzir ou se valer, por exemplo, de recursos finalistas ou teleológicos, tal como são os exemplos de Kant e Freud.
Esperamos demonstrar que sua teoria (Darwin), preservando a indicação e o reconhecimento de uma relação causal na produção dos fatos da natureza, o faz sob a lógica que introduz o acaso e a mutação, atendendo, de forma econômica, às exigências e oferecendo uma alternativa plausível para se pensar a história humana.
Eliminação de princípios metafísicos:
A natureza orgânica pode ser pensada racionalmente como não querendo ou intencionando nem viver nem morrer
A história pode ser pensada com algum sentido, mas sem garantias de execução no fracasso ou no sucesso
O tempo da história humana individual ou coletiva pode ser pensado numa lógica sem finalidade.
De 29 de outubro a 1o. de novembro de 2013
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Sentidos da civilização “Civilização sem finalidade, ou a lógica de uma história sem sentido”
Daniel Omar Perez e Francisco Verardi Bocca
Resumo
Partimos da pergunta kantiana acerca da possibilidade de pensar a história humana introduzindo uma teleologia ou uma heurística que nos permitiria afirmar de um modo não determinante a direção para o melhor.
Avançamos no modo freudiano de entender a história, também como pensada desde uma teleologia que conduz ou ao inorgânico ou ao mal-estar.
Finalmente destacamos alguns elementos darwinianos para pensar a história constituída por uma lógica que não necessariamente exige do elemento teleológico.
Resultado
O trabalho de Charles Darwin oferece uma curiosa resposta à questão (kantiana) acerca da história sem necessidade de introduzir ou se valer, por exemplo, de recursos finalistas ou teleológicos, tal como são os exemplos de Kant e Freud.
Esperamos demonstrar que sua teoria (Darwin), preservando a indicação e o reconhecimento de uma relação causal na produção dos fatos da natureza, o faz sob a lógica que introduz o acaso e a mutação, atendendo, de forma econômica, às exigências e oferecendo uma alternativa plausível para se pensar a história humana.
Eliminação de princípios metafísicos:
A natureza orgânica pode ser pensada racionalmente como não querendo ou intencionando nem viver nem morrer
A história pode ser pensada com algum sentido, mas sem garantias de execução no fracasso ou no sucesso
O tempo da história humana individual ou coletiva pode ser pensado numa lógica sem finalidade.
domingo, 27 de outubro de 2013
Por quê nos identificamos? Histórias de amor e dos projetos políticos.
Parte I
http://www.youtube.com/watch?v=hTWwAGtxibM
Parte II
http://www.youtube.com/watch?v=4Y5OxVXlf9w
Parte III
http://www.youtube.com/watch?v=kZTGK_XcJpQ
Parte IV
http://www.youtube.com/watch?v=wWz-ECXs_jQ
Parte V
http://www.youtube.com/watch?v=tx5PT5Ih85Y
Parte VI
http://www.youtube.com/watch?v=Zl4NzoLqofE
http://www.youtube.com/watch?v=hTWwAGtxibM
Parte II
http://www.youtube.com/watch?v=4Y5OxVXlf9w
Parte III
http://www.youtube.com/watch?v=kZTGK_XcJpQ
Parte IV
http://www.youtube.com/watch?v=wWz-ECXs_jQ
Parte V
http://www.youtube.com/watch?v=tx5PT5Ih85Y
Parte VI
http://www.youtube.com/watch?v=Zl4NzoLqofE
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
TEMAS SEMÂNTICOS EM KANT
Um novo livro organizado por Andrea Faggion e Joãosinho Beckenkamp da DWW Editorial com uma série de trabalhos de pesquisa sobre a filosofia kantiana.
Aqui encaminho a introdução da minha contribuição.
Conceitos
de antropologia fisiológica na antropologia kantiana: Kant e os naturalistas em
um debate sobre a natureza humana
Daniel Omar
Perez
1.
Introdução acerca do modo de abordagem e do tópico em
questão
O fato de Kant nunca ter escrito que o verdadeiro problema
da razão pura era o de fazer uma ontologia, ou uma fundamentação das ciências
teoréticas, ou uma explicação de como funciona a mente é o que nos autoriza a deixar
de lado esse tipo de interpretação e levar adiante a leitura da declaração direta
e sem ambiguidades de sua própria letra. Assim, segundo consta em seu escrito, a
filosofia crítica pode ser abordada a partir da sua questão fundamental
enunciada do seguinte modo: “o verdadeiro problema da razão pura está
contido na seguinte pergunta: como são
possíveis os juízos sintéticos a
priori?” (KrV, B 19). Segundo Kant, a pergunta acerca da
possibilidade dos juízos, e não outra, é a questão fundamental da crítica. Se, como
quer Kant, isto é verdadeiro em relação ao seu próprio trabalho, então o nosso
só pode partir daqui. Essa interrogação, por um lado, serve como início do
programa kantiano e, por outro lado, funciona como fio condutor para
desenvolver uma interpretação sistemática dos trabalhos desenvolvidos durante
os anos de 1780 e 1790 e ainda articular as questões apresentadas no denominado
período pré-crítico. Deste modo, podemos entender que o exercício crítico da
filosofia – em sentido kantiano – é uma pesquisa sobre as condições
lógico-semânticas das proposições, que não se sustentariam apenas no princípio
de identidade e não-contradição. Em outras palavras, a pergunta acerca das
condições de possibilidade das proposições não é apenas uma declaração oriunda da
letra de Kant e nem um fio condutor para a interpretação de textos, é também um
modo de entender o trabalho da filosofia.
Assim sendo, o
presente trabalho foi iniciado com a tese de doutorado de Loparic (1982),
publicada sob a forma de livro em (Loparic, 2000): A semântica transcendental de Kant. O resultado mais importante desse
estudo foi compreender a razão como aparelho formulador e solucionador de
problemas propostos a partir de proposições cognitivas válidas. A validade das
proposições teoréticas (cognitivas) estaria decidida por uma regra lógica e
duas semânticas, a saber: 1) As proposições não podem ser autocontraditórias; 2)
Os conceitos das proposições devem poder referir a objetos dados ou construídos
na sensibilidade; 3) As formas proposicionais devem poder se relacionar com as
formas da sensibilidade. Após esta pesquisa, Loparic publicou durante a década
de 1990 outros textos como resultado parcial do avanço em outros tipos
proposicionais. Deste modo, podemos ir da primeira crítica para a segunda e a
terceira com o mesmo fio condutor e nos perguntar sobre a possibilidade das proposições
cognitivas, práticas, estéticas etc., compreendendo a razão em sentido amplo como
aparelho ou dispositivo para formular e decidir a possibilidade de resolver
problemas em diferentes campos semânticos. Avancei sistematicamente nessa
questão na minha tese de doutorado defendida em 2002, publicada em forma de
livro com modificações em 2008. Este trabalho conduziu-nos não só a
interrogarmos a possibilidade dos tipos específicos de proposições da
experiência cognitiva teorética e prática em sentido estrito, como também às
proposições da história, do direito, da política, da pedagogia, da virtude e da
antropologia pragmática, até nos levar para a indagação acerca dos elementos
“antropológicos” do executor das operações lógico-semânticas do formulador e solucionador
de problemas. A primeira parte deste trabalho foi sendo realizado durante a
década de 1990 e 2000 pelo que Ricardo Terra (2012) denominou de “a escola
semântica”, referindo-se às diversas publicações do grupo tais como Loparic
(2000), Hahn (2006), Faggion (2006), Linhares (2005), Perez (2008), entre
outros. A segunda parte dos trabalhos, aquela que se refere aos elementos
“antropológicos” do executor das operações, ainda está sendo desenvolvida.
O tipo
específico de proposições da antropologia pragmática fez aparecer em destaque o
problema da relação entre a estrutura proposicional e a natureza humana. A
estrutura proposicional, estudada sob a pergunta acerca das condições de
possibilidade dos juízos, tem relação com o aparelho executor das operações
judicativas, estudada sob a pergunta acerca da natureza humana. Abordei esse
tema em três textos (Perez, 2009, 2010a e 2010b). Porém, é preciso destacar que,
por outras vias, estudiosos como Louden (2000), Longuenesse (2005) e Hanna (2006)
– entre outros – também foram levados a perguntar sobre a mesma relação que
destacamos, a saber, sobre a relação entre juízo, razão e natureza humana. No
caso de Louden, a antropologia é considerada a parte impura da filosofia
prática que, desde a pureza da sua fundamentação, encontraria na natureza
humana o seu domínio de aplicabilidade. Nos casos de Longuenesse e Hanna, uma
natureza humana teria sido pressuposta por Kant e seria anterior à sua teoria
do juízo. Em Longuenesse, sua posição está muito clara na introdução da sua
publicação de 2005, quando destaca o ponto
de vista humano e explica sua interpretação da posição de Kant. Em Hanna (2006),
seu trabalho mostra uma filosofia da mente com uma natureza humana dotada de
determinadas características físicas e de um funcionamento que produzem
representações.
Nossa hipótese,
como já se advertiu até aqui, é a que Kant, no seu período crítico, parte da
estrutura de uma proposição da qual se pergunta sobre suas condições de
possibilidade (formulação e validade) e daí deriva a natureza “humana” do
executor das operações judicativas. À medida que fomos avançando no detalhe da
relação proposição-natureza humana, descobrimos que as questões antropológicas
não apareciam apenas no curso de antropologia senão que perpassavam toda a obra
de Kant.
Um trabalho de
Claudia Schmidt (2007) nos oferece diferentes documentos textuais e alguma
referência a outros estudiosos, nos quais se encontrariam possíveis
caracterizações da antropologia em sentido transcendental, empírico, pragmático
e moral. Pela nossa parte, podemos constatar o que chamamos de um projeto antropológico (no sentido em que
uma interrogação significativa e sistemática avança na filosofia kantiana)
desde o período pré-crítico até a Opus
Postumun. Este “projeto antropológico” se apresenta como uma antropologia
empírica de comportamentos sociais ou individuais aplicada a temas de
estética e psicologia (especialmente em textos da década de 1760); conceitos de
anatomia comparada, de estudos de biologia e fisiologia que podemos
caracterizar como antropologia
fisiológica (encontrados espalhados em publicações, cursos e cartas desde
1760 até 1802); elementos de antropologia
pragmática como conhecimento de mundo (especialmente no curso); a menção a
um projeto de antropologia transcendental associado à ideia de uma crítica do
conhecimento (nas críticas e na Rx 903 do volume XV) e uma antropologia prática caraterizada como a parte “empírica” da
filosofia prática (nos textos publicados de filosofia prática, nos cursos de
moral e no volume XXIX, p. 599). Por um lado, encontramos tipos de
conhecimentos específicos da natureza humana em cada caso; por outro lado, porém,
encontramos elementos de uma natureza humana que operaria como executora das
regras que efetivam os juízos. Neste sentido, é preciso não se apressar na
afirmação de que Kant adota uma determinada natureza humana a partir da qual
deriva uma teoria do juízo, sem antes investigar todos os aspectos do que está
sendo considerado em cada caso.
O projeto
antropológico compor-se-ia de elementos das cinco antropologias e estaria
articulado sistematicamente na formulação das três perguntas kantianas acerca
do saber, do fazer e do esperar que conduzem à quarta: o que é o homem? Dito em
outras palavras, Kant perguntar-se-ia sobre a possibilidade dos juízos e, na
sua resposta, além de encontrarmos regras lógico-semânticas, também nos
deparamos com os elementos que compõem o executor dessas regras.
Assim, para
investigar todos os aspectos do projeto
antropológico de Kant, consideramos necessário e preliminar nos
interrogarmos acerca do surgimento dos debates e dos conceitos a serem
utilizados nos textos que nos interessam. Neste sentido, uma declaração de
Zammito (2002) sobre o nascimento da antropologia é bem pertinente. Cito
Zammito:
A cristalização
do discurso antropológico se origina desde a convergência (con-fusão) de uma quantidade de investigações diferentes: o modelo
médico da psicologia fisiológica, o modelo biológico da alma animal, o modelo
pragmático ou conjetural da teoria histórico-cultural, o modelo psicológico
literário do novo romance (Tristam Shandy, Sorrows of Young Werther), e o
modelo filosófico da psicologia racional fundada no dilema da interação da
substância (As três hipóteses). (2002,
pp. 221-222)
Com efeito, durante
todo o percurso do seu trabalho, Kant se nutre de e debate com
filósofos, mas também com médicos, psicólogos, romancistas e com escritores de
teatro e poesia. Kant vai além dos naturalistas da época, lançando mão do
teatro e da poesia como a de Molière, Shakespeare, Alexander Pope, Juvenal e
Homero para investigar o que é o homem. Antes de entrar por essa via, porém, o
que nos interessa aqui é especialmente a relação com os pesquisadores de
história natural. É no diálogo – às vezes concordante e às vezes discordante –
com estes cientistas que aparecem conceitos decisivos para a indagação kantiana
acerca da natureza humana e que serão interpretados e peculiarmente usados em
toda sua obra, inclusive para interpretar as fontes literárias.
Os diários de
viagens dos marinheiros e os estudos de anatomia comparada escritos desde o
século XVI até as tentativas de classificação da natureza do século XVIII
propiciaram o material com o qual Kant foi se munir para sua reflexão. O homem
como um dos objetos de trabalho da história natural tinha sido incluído por John
Ray em 1693 em um sistema classificatório de seres vivos. Mais tarde, no ensaio
sobre o orangotango de 1699 de Tyson, o ser humano se encontraria dentro do
conjunto dos primatas. Em 1735 com Linnaeus foi explicitamente incluído em uma
classificação formal junto com animais e plantas e, em 1749, o conde de Buffon
acrescenta uma discussão necessária sobre a natureza em geral, que ecoará na
interpretação sobre as diferenças entre os homens. Passa-se, assim, de lhe
darmos um lugar na classificação a nos perguntarmos sobre suas mudanças,
diferenças específicas e peculiaridades.
Neste percurso,
a História Natural instaurou um debate sobre o modo de abordar seu objeto em
geral que incluía uma variante no modo de entender também o homem. Os
naturalistas, que realizavam trabalhos de campo e recolhiam a informação in loco, precisavam estabelecer um
método. A discussão se deu entre uma concepção de história natural descritiva e outra de desenvolvimento da história da natureza. O debate das diferentes
perspectivas de estudo do século XVIII entre Naturbeschreibung e Naturgeschichte
foi retomado por Immanuel Kant a partir dos textos do conde de Buffon e em
confronto com os naturalistas Forster – pai e filho – e com Herder. Esses modos
de estudo da natureza também estavam estreitamente relacionados com as teorias
da poligenia, da monogenia e da epigenia
na biologia. Esses conceitos remetem para o problema da origem e para a
formação dos seres vivos em geral e dos humanos em particular. Kant entrou nesse
debate em favor de uma origem única da espécie humana, mas incluiu o uso do
conceito de germe e de impulso formativo (Blumenbach) para explicar a diferença de formas e as capacidades
humanas, especialmente no que concerne à raça e ao gênero. A partir daqui é
possível compreender a introdução de conceitos como disposição, temperamento
e caráter que serão úteis para
articular os elementos anátomofisiológicos com as condutas práticas em geral ou
especificamente morais. Todos esses conceitos foram usados por Kant como
elementos para constituir o executor das operações judicativas teóricas,
práticas e reflexionantes.
Neste trabalho
apresento em primeiro lugar a disputa
descrição-narração na história natural; em segundo
lugar, a diferença poligênese-monogênese; e, em terceiro lugar, a questão da epigênese e da pré-formação. Cabe
mencionar que os debates de Kant foram realizados durante a década de 1770 e
1780. Com estes elementos, que surgem da história natural, poderemos ver as
marcas conceituais da concepção kantiana da problemática da história e da
natureza humana e, em especial, do conceito de raça. Nosso objetivo é
demonstrar que os conceitos são originados em discussões da história natural,
mas são também reinterpretados e ressignificados por Kant no seu novo uso. O
esclarecimento do debate e o reconhecimento da interpretação kantiana dos
conceitos da história natural permitir-nos-iam entender parcialmente o alcance
e o limite dos elementos “antropológicos” do executor das operações lógico-semânticas
do formulador e solucionador de problemas do qual falamos no inicio deste
trabalho.
ESTUDOS HEGELIANOS EM ESPANHOL
Um link com uma revista de estudos hegelianos em espanhol.
http://www.revistaestudioshegelianos.cl/#!numeros/c5x0
http://www.revistaestudioshegelianos.cl/#!numeros/c5x0
domingo, 15 de setembro de 2013
TERRORISMO DE ESTADO. A eliminação sistemática de pessoas e os limites do político. Breve ensaio sobre a ação política.
TERRORISMO DE ESTADO
A eliminação sistemática de pessoas e os
limites do político.
Breve ensaio sobre a ação política.
Daniel Omar Perez
Introdução
Este trabalho
tem como objetivo fornecer elementos para pensar a ação politica e faz parte de
uma pesquisa mais ampla sobre identificações e afetos na vida em comum. Porém,
o ponto de partida circunstancial que motiva a redação específica deste texto é
o surgimento de novos documentos sobre os voos da morte na Argentina[1]. Refere-se
a um verdadeiro ato de perversão que consistia em jogar pessoas previamente
sequestradas e torturadas desde um avião ao mar, e que, juntamente com uma
série de outros eventos não menos bizarros, conformaram o Terrorismo de Estado
na Argentina (1976-1983). Este foi um plano que não foi desenvolvido isoladamente
naquele país, mas na grande maioria dos países do continente, inclusive nos
EEUU. Talvez deveria-se pensar mais apuradamente a relação entre os assassinatos
políticos da década de 60 (desde Kennedy e Martin L. King), a eliminação dos
panteiras negras nos EEUU, a aplicação dos golpes de Estado e os planos de extermínio
da guerra anti-insurgente na América Latina para observar a relação entre o
padrão da ação política desses anos e as práticas de eliminação sistemática. Mas
o que me interessa é menos explicar o que aconteceu na época dos golpes de
Estado e mais pensar os elementos da ação política desde um dispositivo
conceitual que possa evitar repetir o cenário no qual aquelas forças possam
voltar a se tornar hegemônicas e o suficientemente articuladas como para
desenvolver seu projeto político e suas práticas de eliminação sistemática.
Para isso,
abordaremos sumariamente:
- O
conceito do político (instabilidade, homogeneidade e hegemonia).
- A
sociedade e o Estado (indivíduos, grupos e identificação).
- O
Estado e a política do usufruto.
- A
identificação e a descarga afetiva nas suas modalidades perversa e
sublimatória, onde a modalidade perversa elimina o próprio desejo.
- A
sublimação como saída que sustenta a possibilidade do desejo na sua
diferença.
Do conceito do
político ao problema da eliminação do outro
O conceito do político é definido por Carl Schmitt a partir da relação
amigo-inimigo e sua dinâmica estaria dada pelo combate (SCHMITT, 1963)[2].
Esta oposição reconhece uma instabilidade fundamental, uma disputa entre
interesses divergentes, um conflito entre grupos, bandos ou partes, mas também
inclui o assassinato político como modo de resolução do conflito.
O mesmo Schmitt que em 1932 militou nas eleições alemãs contra a hegemonia
dos nazistas no parlamento, após receber uma carta convite de Heidegger em 22
de agosto de 1933 para colaborar com o projeto político da NSDAP na
universidade[3] (FAYE,
2009, pp. 260-61), em 1934, defendeu claramente e sem ambiguidade a eliminação
do outro no caso da “noite das facas longas” (Nacht der langen Messer) que acabou em assassinato de próprios e
alheios (Schmitt, 1934).
Assim sendo, o conceito do político schmittiano não só incluiria o combate
entre inimigos senão também a eliminação do outro. Isto nos permite dizer que,
a relação de oposição amigo-inimigo, segundo pode ser pensado em Schmitt, não buscaria
apenas a hegemonia na disputa, mas
sim, a homogeneidade do campo. A passagem
da luta pela hegemonia (no
parlamento), onde o outro não pode ser eliminado, para a busca da homogeneidade (na “noite das facas
longas”) onde o outro pode ser retirado da disputa pela via do assassinato é decisiva
e faz toda a diferença.
Este modelo de pensamento é tão sugestivo quanto desastroso para pensar o
conceito do político. Se no conceito do político se reconhece como ponto de
partida um campo de instabilidade e se funda, antes que em um conflito ou em um
consenso, nesse campo de instabilidade que pode possibilitar tanto conflitos quanto
consensos entre sujeitos com interesses, desejos e necessidades convergentes ou
divergentes, a eliminação de pessoas e seu exercício sistemático, como modo de
resolução do conflito, procuraria acabar com a própria instabilidade que o
funda, como se fosse possível alcançar uma homogeneização
do campo.
Esse tipo de conceitualização e estratégia busca necessariamente o fim da
política como ação levada adiante num campo de instabilidade e disputa pela
hegemonia, na realização de uma máquina de guerra, de uma fábrica de cadáveres[4],
de um Estado Perverso onde o outro não é o adversário necessário e irredutível
da disputa, mas o resto a ser eliminado em busca da homogeneidade.
No caso argentino (1976-1983) o combate contra o inimigo, como inimigo
interno a ser eliminado para alcançar a homogeneidade se realizou por meio do
exercício do Terrorismo de Estado como um “processo de reorganização nacional”
(nome dado pelos próprios militares e civis no poder de facto) que
rearticularia a sociedade desde sua base econômica, industrial e financeira até
sua estrutura social e cultural. Nesse sentido, os operativos de sequestro,
roubo, roubo de bebês, tortura, fuzilamento, desaparição de pessoas e
assassinatos não foi um excesso circunstancial, nem se tratou de eventos
exagerados. Não se tratou de uma estratégia entre outras, mas da única saída possível
para a busca da homogeneidade desde o exercício do poder do Estado.
Para explicar esta afirmação nos demoraremos brevemente em alguns
conceitos.
A Sociedade, o Estado e a identificação
O mito liberal do indivíduo bipolar, constituído por necessidades
biológicas e representações mentais, que toma decisões racionais em função das
suas necessidades e deste modo entra em sociedade estabelecendo um pacto não é
apenas um mito, mas um modo de justificar o funcionamento do Estado burguês. Trata-se
de uma interpretação bastante recortada do Jusnaturalismo que exclui a vida em
comum como fundo originário da aparição do indivíduo e do cidadão. Este modelo de
interpretação permite opor a repressão do Estado à liberdade do indivíduo. Isto
permite também reivindicar duas ações determinantes do poder do Estado, a
saber: reduzir sua intervenção em relação à liberdade individual e reivindicar
seu exercício coercitivo quando esta mesma liberdade se encontrasse ameaçada
pelo caos e a desordem social. Nesse sentido, opõe-se a identidade do indivíduo e sua liberdade à alienação imposta pelo Estado ou pela desordem. A oposição
identidade-alienação, onde o primeiro termo é o privilegiado e hierarquicamente
superior e o segundo é depreciado, reduz o Estado a uma máquina de repressão em
função de uma suposta liberdade individual natural como elemento de identidade
do sujeito.
Contrariamente ao mito liberal, podemos pensar os sujeitos não como indivíduos
isolados que tomam decisões racionais em função das suas necessidades
biológicas, mas como sempre já dados em um clã, tribo, horda ou grupo. A mãe
não pergunta para o bebê se ele quer ou não entrar em sociedade, se ele quer ou
não satisfazer de tal ou qual maneira suas necessidades biológicas, ele não tem
alternativa. O indivíduo, para que se constitua como tal, precisa antes de
qualquer coisa se alienar ao desejo do outro. A alienação aqui cumpre uma função constitutiva e não pode ser mais
degradada a segundo termo. Aquele que exerce a função materna não só nutre a
criança dando resposta às necessidades biológicas, mas também erogeniza o corpo
(FREUD, 1988) dando sentido àquilo que aparece, por exemplo, na forma de choro.
O choro da criança é resignificado pelo desejo da mãe como fome, como mal-estar
estomacal, como sono, etc. Nesse processo, a criança é nomeada e se lhe exige
que responda desde esse lugar. Assim, a criança se aliena tanto ao desejo da
mãe (que dá sentido às suas necessidades) quanto ao significante (paterno) que
a nomeia e possibilita a articulação da relação entre o desejo e a lei (LACAN,
1997). Fora do âmbito familiar, a identificação significante e a satisfação
pulsional também serão os elementos que permitirão a criação do grupo, do
projeto político, da vida em comum.
O sujeito não possue uma identidade pré-estabelecida senão que surge como
efeito de um processo de identificação (LACAN, 1961). Assim, se reconhece em
relação com o outro mediante uma identificação significante em torno do qual se
articulam outros significantes produzindo uma cadeia significante, isto é, o
sentido num discurso ou narrativa. É a partir desse discurso que o sujeito aparece
como seu efeito, isto é, um sujeito alienado ao discurso do Outro. Ao
significante lhe corresponde uma carga afetiva, ou seja, o sujeito investe
libidinalmente na identificação. Entre o significante e a carga afetiva se
articulam os objetos de desejo com os quais o sujeito se identifica e
descarrega. Dessa forma o indivíduo aparece como sujeito de um discurso e uns
modos de descarga afetiva que o faz parte de um grupo, clã, família etc. Os
grupos políticos também podem ser acolhidos nesse dispositivo conceitual.[5] Isto
nos permite dizer, entre outras coisas, que a disputa política não se dá entre
indivíduos ou entre indivíduos e o Estado, mas entre diferentes grupos e
discursos e não opera apenas por argumentação, mas por identificação
significante e descarga afetiva. A identificação significante e a descarga
afetiva estabelecem o laço a partir do qual se argumenta.
O Estado e a política do usufruto
Chamamos aqui de Estado em sentido geral às instituições
político-juridicas de uma sociedade produzidas a partir de grupos identitários
organizados em torno de um projeto político. Uma sociedade, constituída por
indivíduos e grupos de indivduos, organizada institucionalmente em sistemas de
legislação e de coerção, se sustenta a partir de sistemas de repressão e
controle de circulação dos desejos dos indivíduos e dos grupos de indivíduos que
a integram. Nesse sentido, o Estado não pode ser concebido como aparelho de
poder oposto aos indivíduos que passivamente aceitam seu disciplinamento,
controle ou vigilância senão como campo de disputa, como o lugar onde a ação
política se exerce fundada no campo de instabilidade originária que a torna
possível . Isto significa também que
consideramos a sociedade institucionalizada como o modo em que os indivíduos e
grupos de indivíduos usufruem ou são inibidos na sua demanda pulsional. Isto é,
as instituições do Estado e a sociedade institucionalizada conformam o modo em
que circulam e se satisfazem ou se inibem os desejos e a política não é outra coisa que a disputa dos diferentes modos de
usufruto.
A identificação e a descarga
afetiva
Toda sociedade institucionalizada se sustenta com mecanismos de produção,
repressão e controle de formas de satisfação. Os mecanismos de repressão e
controle que instituem a sociedade exigem a adesão (alienação) dos indivíduos
em relações de identificação para poder ordenar a sociedade. Dito de outro
modo, para participar da sociedade instituída, o indivíduo deve renunciar a
determinados encaminhamentos pulsionais (canibalismo, incesto etc.) e aderir (se
alienar) a outros (FREUD, 1988b).
Estes renunciamentos pulsionais podem ser ordenados de duas maneiras
diferentes:
1. De modo a conduzir a saídas sublimatórias e favorecer a circulação dos
desejos por outras vias, recriando o circuito pulsional e a variedade de
objetos de satisfação parcial (FREUD, 1988c; LACAN, 1997b). Isto permitiria
conviver com a instabilidade entre os conflitos e os concensos em uma sociedade
do usufruto;
2. De um modo decididamente repressivo e então a saída será perversa. Neste
caso, os mecanismos de repressão e controle pulsional exigem que o indivíduo
deva renunciar à sua satisfação pulsional em relações de identificação fechadas
onde aquilo que é excluido, o inimigo, é reduzido a resto, a escória, a
excremento e, portanto, pode ser eliminado e não só, eliminado
sistematicamente.
Esses dois modos (sublimatório e perverso) são os dois extremos de um
leque de possibilidades a partir das quais se articulam os modos de
encaminhamento e satisfação pulsional em sociedades institucionalmente
organizadas. Assim, os projetos políticos como modos de entender o
encaminhamento e a satisfação pulsional podem propor modelos institucionais
mais ou menos sublimatórios ou repressivos.
Repressão e gozo perverso
As organizações políticas e os governos que exigem fortes mecanismos
repressivos para incluir o sujeito nas suas relações de identificação inibem um
grande leque de possibilidades de satisfação em favor de uma promessa de gozo
absoluto. Eliminar o resto é a empreendimento, o compromisso e a esperança de
satisfação. Há uma promessa de gozo absoluto nessa eliminação do resto, um gozo
perverso[6]. Quanto
mais repressivo o sistema de identificação menos sublimatório poderá ser o
encaminhamento e a satisfação pulsional. O sujeito deve reprimir seus
encaminhamentos pulsionais para se identificar e, desse modo, encontrar
reconhecimento no Outro, mas, em relação com aquilo que é excluído, e por isso
mesmo, ele não tem barreiras. Esse gozo
perverso é o que sustenta os mecanismos de eliminação sistemática de pessoas na
Argentina de 1976-1983 e na Alemanha da solução final. Mas o gozo perverso que
determina esse mecanismo de operação não se reduz a um indivíduo com vontade de
fazer o mal, senão que se sustenta em uma infraestrutura. O mecanismo da
perversão é fundamentalmente uma instalação que precisa de regras estritas e suporte
material. Podemos ver em Sacher-Masoch ou Sade, onde a cena exige parceiros,
ajudantes, roupas, ambiente adequado, alimentos, bebidas, regras que todos
devem obedecer, posições que todos devem respeitar etc. A saída perversa não se
realiza senão ordenadamente. Não há perversão sem a cena completa e sem a colaboração
dos parceiros.
No Estado Perverso, onde a redução à escória do outro é uma prática
sistemática, é preciso o “pervertido” como o ator da cena, mas também de toda
uma infraestrutura que o suporta. No caso da solução final, foi necessário
logística, tecnologia, como a empresa Man e a empresa Siemens para a construção
de motores e fornos crematórios para os campos de extermínio, assim como
técnicos e ajudantes para sua instalação, avaliação do consumo de combustível
necessário, sistemas de financiamento, etc, para que o gozo perverso da
eliminação do judeu como resto fosse possível. No caso do terrorismo de Estado
na Argentina, não bastaram apenas os torturadores e os sequestradores, foi preciso
que uma infraestrutura de tecnologia, logística e financiamento fornecesse o
suporte. Por exemplo, os roubos de quase 500 bebês de mulheres sequestradas e
torturadas pelo terrorismo de Estado[7] exigiram
médicos, enfermeiras, advogados e juízes para completar o cenário.
Para poder exercer a prática política como o jogo de interesses que se
pauta em um campo de instabilidade fundamental é preciso não apenas afastar o
“pervertido” em favor de exercícios sublimatórios de satisfação, em favor de
disputas hegemônicas ou na busca de consensos, mas também desmontar o dispositivo
da perversão desde sua infraestrutura. Tanto a figura do pervertido, quanto a
do cínico e do indiferente, que dão suporte à cena, devem ser desfavorecidas na
sua possibilidade de aparição. Isto implica uma ação política que recrie novas
e variadas formas de satisfação pulsional parcial e na recriação de novas
identidades.
A sublimação e o reconhecimento
das novas identidades
As organizações políticas e os governos cujo regime de renúncia pulsional
se articula com o favorecimento de diversos modos de encaminhamento e
satisfação e com o reconhecimento de diversos modos de identificação inibe a
saída perversa e a instauração de seu cenário. A saída sublimatória se realiza
em ações políticas, em políticas públicas capazes de dar um mínimo de
satisfação à demanda pulsional e de reconhecer a multiplicidade de relações de
identificação que possibilitem a circulação do desejo. O reconhecimento da
demanda pulsional e da identificação significante constituem elementos
fundamentais da ação política. O reconhecimento do matrimônio igualitário, o
reconhecimento de direitos aos excluídos, o reconhecimento dos povos
originários recriam novas identificações significantes sobre a base de antigas
demandas, permitem o reconhecimento de novos objetos de desejo e possibilitam
uma política do usufruto ou do gozo parcial. Os grupos e projetos políticos
divergem e convergem nos modos em como entendem os modos de usufruir numa
sociedade institucionalizada.
Referências
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1933-1935. Madrid: Ediciones Akal, 2009.
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vuelo. Buenos Aires: Editorial Planeta Argentina, 1995.
[1] Ver Horacio
Verbitsky (1995)
[2] O texto
original de Carl Schmitt é de 1932.
[3] Ver
também Rüdiger Safranski (2000, p. 289)
[4]
Expressão de Martin Heidegger (1994, p. 56).
[5] Existe
literatura sobre essa linha de interpretação que leva adiante análises e
debates. Ver Ernesto Laclau (2008), Chantal Mouffe (2009), Yannis Stavrakakis
(2007, 2010)
[6]
Utilizo a noção de “gozo perverso” por oposição a “sublimado” a partir da
leitura de Lacan em O Seminário 7
(Lacan 1997b). Nesse sentido, pode se entender o “gozo perverso” como promessa
de “gozo absoluto” pela parte e o “gozo sublimado” como um “gozo parcial” em
“objetos parciais” de satisfação como pode ser derivado da leitura de O Seminário 16 (Lacan 2008).
[7] O
terrorismo de Estado na Argentina sequestrou em torno de 500 bebês de mulheres
sequestradas e torturadas em centros de tortura. As crianças tiveram sua
identidade biológica trocada e muitos deles foram criados como filhos
biológicos dos próprios assassinos dos pais. A organização Abuelas de Plaza de Mayo já conseguiu recuperar a identidade de
mais de 100 netos.
domingo, 8 de setembro de 2013
“Kant, Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”
“Kant,
Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”.
VERSÃO PRELIMINAR DA APRESENTAÇÃO NO RIO DE JANEIRO
Daniel
Omar Perez
daniel.omar.perez@pq.cnpq.br
(CNPQ - PUCPR)
Agradeço sinceramente o convite pare
este evento porque para mim significa um grande aporte à pesquisa que estou
realizando. O trabalho que vou a apresentar é um resultado provisório, em
processo, e por isso espero todas suas objeções.
Eu não sou fenomenólogo, muito menos um
especialista em Heidegger, não faço estudos comparativos, também não sou um
historiador da filosofia nem um exegeta de conceitos filosóficos, eu trabalho filosofia
desde problemas. Entretanto, minha matriz teórico-filosófica é decididamente
kantiana, assim como um físico deve adotar um tipo de teoria seja ela newtoniana,
relativista, quântica, etc para formular e resolver problemas eu parto do
pressuposto de que na filosofia é semelhante, também é preciso adotar uma
matriz teórica. Meu problema é acerca da condição de possibilidade daquilo que
se considera a realidade e daquele que atua nela e se pergunta e por ela.
Nesse sentido, desde esse tema atualmente
abordo algo assim como um evento filosófico determinado, a saber, a invenção da
natureza humana na virada do século XVIII para o século XIX, na passagem da
história natural para as ciências sociais, humanas e biomédicas. Especificamente,
localizo a questão nos textos kantianos, na sua maneira de formular e resolver
problemas e na sua interrogação acerca do homem. Nesse sentido, minhas
pesquisas me permitiram constatar que a questão antropológica perpassa toda a
filosofia transcendental e a constitui. Assim, posso dizer que Heidegger foi um
dos primeiros entre muito poucos que contra as interpretações mais destacadas
do kantismo chamou a atenção para dois elementos que são fundamentais para
minha linha de interpretação, a saber, a tarefa da critica como a indagação acerca
das condições de possibilidade dos juízos sintéticos e a questão da
antropologia. Esses dois elementos decidem o rumo da minha interpretação e do
meu modo de entender a maneira de formular e resolver problemas, por isso a
leitura de Heidegger se torna necessária neste momento do meu trabalho de
investigação. Também por isso, vou procurar ensaiar a possibilidade de pôr
esses dois elementos em relação com o problema e sua resolução em outra
perspectiva chegando a um resultado diferente daquele proposto por Heidegger. Não
se trata de uma simples vontade de discordar, considero possível obter um
melhor desfecho considerando os elementos iniciais da questão.
Existem problemas na filosofia, como na
física, que não podem ser formulados em duas matrizes teóricas diferentes, considero
que não é o caso e aqui, o próprio Heidegger me autoriza a entender que ele
pensava do mesmo modo, pela sua declaração explícita e pela maneira de levar
adiante a leitura de Kant.
Introdução
A leitura de Heidegger sobre Kant em Kant e o problema da metafísica já foi
criticada em quantidade e modos suficiente nos últimos 80 anos. O livro
expressa o conteúdo de um curso acadêmico ministrado por Heidegger no inverno
de 1925-26 e reiterado mais tarde na mesma década, mas modificado depois
segundo declara o próprio Heidegger e como tal consta nos documentos. Com
relação às críticas, uma série de pesquisadores se sucede ao grande evento de
Davos em 1929, onde Heidegger e Cassirer iniciam um debate sobre a
interpretação de Kant. Posterior ao debate e à virada da década de 1930 a
interpretação ficou relativamente ultrapassada. Aliás, foi o próprio Heidegger
que se encarregou de declarar a sua distância com relação àquela interpretação.
Essa posição de Heidegger consta no prólogo escrito para a segunda edição da
obra em junho de 1950. Portanto, não se trata aqui de fazer uma nova lista de
erros, equívocos ou falsidades. O objetivo do trabalho é destacar os elementos
da interpretação heideggeriana sobre Kant que nos permitirão posicionar nossa
interpretação com o intuito de propor outro encaminhamento da questão da
metafísica desde a ideia e o lugar da antropologia e do problema do juízo em Kant.
Para alcançarmos tal fim, primeiro,
apresentaremos a proposição do trabalho de Heidegger; em segundo lugar, a
aparição do homem com relação ao desenvolvimento do fundamento da metafísica e,
em terceiro lugar, a interpretação de uma antropologia como fundamento da
metafísica. Assim, pretendemos estender o que Heidegger chamou de “diálogo”
entre pensadores. Heidegger (1986, 10), no prólogo à segunda edição escreveu:
“Há
intermináveis objeções contra a arbitrariedade das minhas interpretações. A
presente obra pode muito bem servir de base para tais objeções. Com efeito, os
historiadores da filosofia tem razão quando focam sua crítica contra aqueles
que tratam de expor um diálogo de pensamentos entre pensadores. Pois um diálogo
desta classe, à diferença dos métodos próprios da filosofia da história, encontra-se
sob leis muito distintas. São leis mais vulneráveis”.
A mesma posição de leitura é declarada
por Heidegger em outros lugares, por exemplo, no texto sobre Nietzsche. Entendendo
que não se trata aqui de fazer história da filosofia, mas sem deixar de pressupor
alguns elementos que possibilitam o diálogo (a saber, que há uma questão comum:
a metafísica; e que é possível tratar com aquilo que se interroga o que opera
com relação àquela; isto é, o homem), vamos diretamente à tarefa deste artigo.
Proposição
do trabalho de Heidegger em três tempos
1.
Declaradamente, na introdução de Kant e o problema da metafísica Heidegger
se propõe a tarefa de “interpretar a Crítica
da razão pura como uma fundamentação da metafísica” e imediatamente explica
que “o problema da metafísica é focado como problema de uma ontologia
fundamental”. A “ontologia fundamental” é definida como uma “analítica
ontológica da essência finita do homem que deve preparar o fundamento de uma
metafísica conforme à natureza do
homem”.
Segundo Heidegger, a ontologia
fundamental, embora vise a questão da natureza do homem não é uma antropologia
nem mesmo filosófica. Para deixar isso claro Heidegger gasta algumas páginas
criticando a Max Scheler (Heidegger, 1986, 177 e ss.). Assim, deve se avançar
em “expor a ideia de uma ontologia fundamental (isso) significa: demonstrar que
a citada analítica do da-sein é um
postulado necessário e elucidar de que modo e com qual intenção, dentro de
que limites e em função de quais pressupostos coloca a pergunta concreta “que é
o homem?”” (Heidegger, 1986, 11)
Nesse sentido a ideia de uma ontologia
fundamental se afirmará e desenvolverá por meio de uma interpretação da Crítica da razão pura como fundamentação
da metafísica.
2.
A partir de Kant, Heidegger sustenta que
a metafísica pode ser entendida não como edifício, mas como uma “disposição
natural” no homem (Heidegger, 1986, 11). Neste sentido, os problemas da
metafísica não são arbitrários, mas produzidos pelo próprio funcionamento da
razão humana, tal como mostra Loparic (2000) em “A semântica transcendental de Kant”. Assim, a metafísica pertence à
natureza do homem e coexiste com ele.
Deste modo, compreende-se que uma
investigação sobre a fundamentação da metafísica é pensada como “projeto da possibilidade interna da metafísica”.
Essa afirmação é fundamental. Não se trata de buscar a saída do problema de uma
fundamentação da metafísica senão desde o interior da sua própria
possibilidade, isto é, sem recorrer a elementos externos ou ad hoc.
3.
A investigação sobre o fundamento da metafísica nos envia para
o problema da sua possibilidade interna,
isto é, segundo Heidegger: sua origem. Assim sendo, se a metafísica é uma disposição natural do homem então devemos indagar “o que é o homem?” mas não numa
antropologia filosófica e sim numa analítica do da-sein.
Heidegger estabelece aqui uma relação
entre possibilidade interna da
metafísica e origem que pautará decididamente
seu trabalho. Porém, podemos pensar que a possibilidade interna da metafísica
pode ser articulada a partir do próprio funcionamento do juízo, sem considerar
o problema da origem senão apenas de seu modo de operar. Portanto, estamos
diante de uma decisão interpretativa que imprimirá uma determinada orientação
dos trabalhos. Seguidamente, Heidegger mostra essa orientação e relaciona a origem da metafísica com a disposição natural no homem o que
indica que será necessário abordar os elementos antropológicos exigidos para
revelar a origem e o funcionamento da metafísica. Por um lado, é preciso
salientar mais uma vez que origem e funcionamento não estão naturalmente na
mesma ordem de problemas a pesar de Heidegger colocar os dois elementos juntos.
Por outro lado, devemos dizer que a maior parte dos estudos kantianos durante
dezenas de anos considerou desnecessário abordar a questão da natureza humana
dado que a crítica kantiana se referiria ao conhecimento a priori que pode ser alcançado com a razão, sem considerar o empírico
na sua base. A partir da leitura de Heidegger cabe de modo muito pertinente se
perguntar se essa natureza humana, essa antropologia, essa pergunta pelo homem
é uma pergunta respondida a partir de observações empíricas, se se trata de uma
antropologia pura, de uma antropologia filosófica ou está mais perto de uma
“analítica do Da-sein como postulado necessário” o que implicaria em uma ideia
diferente do estudo da natureza humana.
Com isto Heidegger se distancia da
leitura atribuída aos neokantianos onde a Crítica
da razão pura seria uma teoria do conhecimento ou uma teoria da experiência
(Heidegger, 1986, 24 e 25). e avança numa indagação da fundamentação da
metafísica numa antropologia (Heidegger,
1986, 173 e ss.).
A
metafísica de Aristóteles a Kant e a aparição do homem
De acordo com Heidegger, em Aristóteles
a metafísica é considerada como “conhecimento do ente como ente” e também “da
região suprema do ente desde a qual se determina o ente na sua totalidade”
(Heidegger 1986, 17). De Baumgarten a Kant se transforma em “primeiros
princípios do conhecimento humano” (Heidegger 1986, 15). Assim, “o conhecimento
do ente se converte na ciência da razão pura”. A passagem da pergunta pelo ente
à pergunta pelo modo de conhecimento do ente reformula a questão fundamental e
seu desenvolvimento. Deste modo, Kant
delimita a essência da metafísica e “reduz o problema da possibilidade da
ontologia à pergunta “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?”” (Heidegger, 1986, 22). Esta
indicação é fundamental porque coloca a pergunta pela possibilidade do juízo
como ponto de partida do labor kantiano. Cito Kant, para confirmar a tese
heideggeriana e indicar os passos a seguir (Kant, KrV B 19):
Ora, o verdadeiro problema da razão pura
está contido na seguinte pergunta: como
são possíveis os juízos sintéticos a priori?
O facto da metafísica até hoje se ter mantido
em estado tão vacilante entre incertezas e contradições é simplesmente devido a
não se ter pensado mais cedo neste problema, nem talvez na distinção entre
juízos analíticos e sintéticos. A salvação ou a ruína da metafísica assenta na
sulução deste problema ou numa demonstração satisfatória de que não há
realmente possibilidade de resolver o que ela pretende ver esclarecido.
A tarefa será então investigar os
ingredientes do juízo e seu funcionamento. Nesse sentido, já não se trataria de
um conhecimento do ente, mas de um conhecimento transcendental. Kant declara:
“Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa, não tanto dos
objetos, mas do nosso modo de conhecer na medida em que deve ser possível a priori.” (Kant, KrV B25, A11)
A partir daqui Heidegger interpreta que
“o conhecimento transcendental não investiga o ente mesmo senão a possibilidade
de compreensão prévia do ser, o que quer dizer, ao mesmo tempo, a constituição
ontológica do ser do ente” (Heidegger, 1986, 24). Segundo Heidegger, avançando
por essa via: “A origem fundamental da fundamentação da metafísica é a razão
pura humana (...) assim, o centro da problemática é (...) o caráter humano da razão, quer dizer, finito.” Nesse sentido, a tarefa
“consiste em determinar a essência do conhecimento ontológico, pela
explicitação da sua origem, e seus germes” (Heidegger, 1986, 28). Vamos
focar brevemente no que entendemos em Heidegger por germes e origem.
Germes
Na tentativa de avançar sobre a
explicitação dos germes do
conhecimento na Crítica da razão pura
Heidegger assinala para as intuições e os conceitos expostos na obra kantiana,
mas destaca decididamente um deles: a intuição. Assim, diz com Kant que conhecer
é primeiramente intuir (Heidegger, 1986, 29). “A finitude do conhecimento deve
se buscar por isso, primeiramente, na finitude da intuição que lhe é peculiar”
(Heidegger, 1986, 31). Assim, “o conhecimento finito é uma intuição não-criadora”,
portanto, “por ser finita nossa existência (...) deve se oferecer ao ente a
possibilidade de se anunciar” (Heidegger, 1986, 31). “A intuição finita, para
ser um conhecimento, necessita sempre da determinação do intuído como isto ou
aquilo” (Heidegger, 1986, 33). Deste modo, a intuição se articula com o conceito.
“Apenas da sua união pode se originar o conhecimento” (Kant, KrV A51 B75). Assim,
Heidegger assinala para a própria síntese como a essência do conhecimento
finito.
Origem
Tratar-se-ia de não se deter apenas nos
dois ingredientes (intuição e conceito), mas de avançar ainda em algo mais fundamental,
na própria origem das duas fontes
fundamentais (Heidegger, 1986, 40). Esta procura por uma unidade originária
leva a Heidegger a indagar a maneira em que se revela essa origem (Heidegger,
1986, 41). Escreve Heidegger:
“O conhecimento finito do ente exige,
portanto, para ser possível, um conhecer não receptivo (aparentemente não finito), algo assim como uma intuição “criadora”.
Assim, se precisa acerca da possibilidade da síntese a priori: como é possível que um ser finito, que como tal está entregue
ao ente e destinado à recepção dele, seja capaz de conhecer o ente antes de
toda recepção, quer dizer, o intuir, sem ser seu “criador”? Por outras
palavras: como tem de ser tal ser finito de acordo com a constituição do seu
ser, para que lhe seja possível aportar, independentemente da experiência, a
constituição do ser do ente, quer dizer, para que seja possível uma síntese
ontológica?”. (Heidegger, 1986, 41).
Assim, Heidegger passa
de tomar nota da possibilidade interna do
funcionamento da razão e da explicitação
dos germes e seu funcionamento à indagação sobre a possibilidade de um ser finito que possibilite uma síntese originária (ontológica). A
partir daqui desenvolve a leitura da Crítica
como o projeto da possibilidade interna da ontología, avalia os elementos do
conhecimento puro (espaço e tempo na intuição e conceitos no entendimento), sua
unidade na imaginação transcendental como síntese ontológica e chega ao
resultado de que “a imaginação transcendental é o centro formativo do
conhecimento ontológico” (Heidegger, 1986, 112), é “a raiz de ambas ramas” do
conhecimento (intuição e conceito) (Heidegger, 1986, 121 e ss). Este é o ponto
mais questionado da interpretação de Heidegger e considerado um erro de
leitura. Um destaque mereceria o § 30 “A
imaginação transcendental e a razão prática”. Mas não nos deteremos em nenhuma
das duas menções por considerá-las fora do nosso objetivo.
O significativo para
este trabalho é que todo o labor de Heidegger conduz a postular um princípio de
unidade na imaginação transcendental. Isto é importante para Heidegger, porque
avança na origem do conhecimento, mas não para Kant e não me estou referindo
aqui apenas a um erro de leitura que teria sido cometido ou a um exagero
interpretativo. Um tal princípio na crítica da razão pura seria um excesso desnecessário
e injustificável com relação à tarefa fundamental, a saber: indagar como são
possíveis os juízos sintéticos? Kant não precisa uma unidade última num
princípio originário porque o juízo em seu funcionamento não o exige e porque o
operador das regras, os ingredientes e os princípios pode operar sem esse
elemento. O juízo pode ser produzido e dito válido a partir das suas condições
elementares, nomeadamente, com ingredientes e síntese, mas sem unidade
originária das próprias fontes. Além disso, o operador do juízo que aparece em
todos os traços, ingredientes, capacidades e disposições também não precisa de
um princípio originário porque pode fazer funcionar a razão sem esse
elemento. Contrariamente, Heidegger deve
construir uma antropologia kantiana a partir da sua teoria da imaginação e do
tempo para sustentar sua interpretação ao ponto de afirmar que “o tempo e o eu
penso não de apresentam incompatíveis e heterogêneos, senão que são o mesmo”
(Heidegger, 1986, 163). Isto não é um erro, é uma estratégia para resolver a
questão da metafísica no sentido de fazer aparecer a necessidade de uma
analítica do Da-sein. Cito Heidegger (1986, 172):
A fundamentação
kantiana da metafísica conduz à imaginação transcendental. Esta última é a raiz
de ambas ramas: sensibilidade e entendimento. A imaginação transcendental como
tal possibilita a unidade originária da síntese ontológica. Esta raíz está
enraizada no tempo originário. O fundamento originário que se revela na
fundamentação é o tempo. A fundamentação kantiana da metafísica parte da
metaphysica generalis e se converte na pergunta acerca da possibilidade da
ontologia em geral. Ésta coloca o problema da essência da constituição
ontológica, que dizer o problema do ser em geral.
A fundamentação da
metafísica se funda no tempo. A pergunta pelo ser, pergunta fundamental da
fundamentação da metafísica é o problema de O
ser e o tempo.
Assim, Heidegger passa inicialmente da
pergunta aristotélica sobre o ente e o ente supremo para a pergunta kantiana
sobre as condições de possibilidade dos juízos sintéticos para, finalmente,
fazer aparecer o problema do tempo na raíz da própria resolução do problema
colocado por Kant. É isso o que Heidegger apresenta como a repetição de um
problema fundamental em um sentido ainda mais originário. Para poder levar
adiante esta tarefa onde há um problema de funcionamento do juizo e
operatividade do sujeito Heidegger deve acrescentar um problema acerca da
origem e postular um princípio de unidade. Nesse sentido, Heidegger (1986, 174)
afirma: “A pergunta pela essência da
metafísica é a pergunta pela unidade das faculdades do espírito humano. A
fundamentação kantiana revela o seguinte: fundar a metafísica é igual a perguntar
pelo homem, que dizer, é antropologia”. E aqui se encontra certamente mais uma
fonte de irritação dos kantianos da época: (Heidegger, 1986, 174) “a
antropologia desenvolvida por Kant é uma antropologia empírica e não uma
antropologia que satizfaça a problemática transcendental, quer dizer, uma
antropologia pura”. Heidegger chega a esta conclusão não por achar que os
traços antropológicos da crítica são empíricos, ou pelo menos isso ele não diz,
mas pela interpretação que faz das três grandes perguntas da crítica às quais lhe é acrescida a quarta
nas lições de lógica e também em uma carta de Kant de 1793 que Heidegger não
cita. Heidegger escreve de modo muito preciso que: “Estes três interesses
originais determinam o homem, não como ser natural, senão como “cidadão do
mundo”. Assim sendo, “O campo da filosofia em sentido cosmopolita se deixa
resumir nas seguintes perguntas: que posso saber, que devo fazer, que me está
permitido esperar, que é o homem? (Heidegger, 1986, 175). Embora exista literal
e declaradamente a vinculação entre a primeira pergunta desenvolvida na
primeira crítica e os estudos de antropologia que deveriam ser seguidos para
responder a quarta pergunta sua passagem não é tão obvia e evidente. Onde Kant
teria respondido à quarta pergunta, segundo Heidegger, desde um ponto de vista
empírico?. Na própria crítica? Na Antropologia em sentido pragmático, texto do
qual Heiddeger retira alguns parágrafos (ver §37) e ideias sem os citar?
Heidegger (1986, 181) diz que Kant não se refere à sua antropologia não só
porque é empírica senão porque se converte em um problema no curso da sua
fundamentação. Poderiamos dizer nós que efetivamente o homem, como
problemática, sai à luz já na primeira critica, mas não a partir de observações
empíricas feitas por Kant ou como o fundamento originário do juízo e sim como
operador das regras do juízo. Se a quarta pergunta perpassa o texto da primeira
crítica, esta o faz articulada com a questão fundamental: como são possíveis os
juízos sintéticos? E não contra ela propondo um fundamento empírico.
Final:
retomando para concluir
Heidegger destacou dois
elementos da crítica da razão pura que são imprescindíveis para sua leitura:
que o problema era sobre a possibilidade do juízo e que essa questão estava
relacionada com a antropologia. O problema todo está nessa relação. Enquanto
Heidegger deve postular uma analítica do Da-sein para desenvolver a
fundamentação de uma metafísica, Kant analisa as condições do juízo e deriva
seu executor para demonstrar a impossibilidade daquela (da metafísica). Assim,
Kant não só não precisa de uma antropologia filosófica e nem (neste caso) de
uma antropologia empírica, ele também não precisa de postular nenhuma analítica
do Da-sein, apenas precisa fazer seu labor analítico partindo daquilo que
poderá demonstrar, a saber, a validade do juízo. Com isso tem suficiente como
para articular os elementos de uma antropologia da finitude do ser racional e a
consequente impossibilidade de uma metafísica como ciência. Enquanto a
Heidegger, ele precisará demonstrar a necessidade de postular uma analítica do
Da-sein no sentido de excluir qualquer outro ponto de partida.
Kant reduz a questão da metafísica a
estruturas propocicionais dadas na linguagem que se relacionam com um sujeito
que as enuncia, isto é um juízo. A tarefa de Kant é indagar como são possíveis
esses juízos, tarefa fundamental reconhecida pelo próprio Heidegger. Desse
ponto de partida se derivam as condições (ingredientes, regras
lógico-semânticas e princípios lógicos de funcionamento) de possibilidade do
juízo e posteriormente o operador das regras, dos princípios e dos ingredientes
encontrados na tarefa logicamente anterior. Isso torna desnecessário qualquer
natureza humana ou ser como postulado, bem como qualquer antropologia
filosófica ou empírica produzindo o que podemos considerar uma antropologia
transcendental, nomeada por Kant na Rx 903 de antropologia. Isso impossibilita
a metafísica e qualquer tentativa de fechamento ou totalização de sentido. À
primeira crítica, que abre o campo semântico das proposições cognitivas lhe sucede
a segunda com o campo semântico das proposições práticas e a terceira com o
campo semântico das proposições reflexionantes e assim sucessivamente sem
possibilidade de determinar o limite dos campos semânticos de proposições e
problemas e sem a possibilidade de um meta-discurso que contenha todos os
campos.
Heidegger supõe que Kant supõe um ser
racional finito a partir do qual deriva um conhecimento finito, ele diz que o
conhecimento é finito porque o ser racional é finito (Heidegger, 1986, 183).
Isso lhe permite ler uma unidade na imaginação transcendental. Absolutamente
desnecessária em Kant, os ingredientes (intuição e conceito) operam sem a
necessidade de postular um princípio que os unifique. Qualquer princípio de
unificação aqui é ocioso e injustificável desde o ponto de vista das condições
de possibilidade do juízo. Aqui está não o erro, mas a limitação do projeto
heideggeriano da década de 1920. O postulado que ele próprio não consegue
demonstrar é o que lhe impede ver a radicalidade do pensamento kantiano que
demostra a impossibilidade da metafísica e a possibilidade da pluralidade de
campos semânticos e operadores de juízos. Assim, o homem não é uma essência,
não é definido como animal racional, é um efeito, é uma construção em aberto
que pode, eventualmente, vir a ser racional. Eventualmente implica aqui uma
tarefa histórico-política do individuo e da espécie que se enuncia como
exigência do próprio funcionamento da possibilidade interna do aparelho. Por
isso a antropologia pragmática pode avançar na pesquisa do que o homem faz,
pode e deve fazer de si sem necessidade de um Deus, de um nada ou de um
postulado que possibilite a revelação ou ordene o campo desde fora.
Pode se observar que minha proposta não
trata de mostrar um erro de leitura, mas de apresentar a possibilidade de
pensar o problema colocado por Heidegger desde Kant, nesse sentido sou fiel à
proposta heideggeriana de fazer um diálogo entre pensadores.
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