domingo, 8 de setembro de 2013

“Kant, Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”

“Kant, Heidegger, a ideia e o lugar de uma antropologia”.

VERSÃO PRELIMINAR DA APRESENTAÇÃO NO RIO DE JANEIRO

Daniel Omar Perez
daniel.omar.perez@pq.cnpq.br
(CNPQ - PUCPR)

Agradeço sinceramente o convite pare este evento porque para mim significa um grande aporte à pesquisa que estou realizando. O trabalho que vou a apresentar é um resultado provisório, em processo, e por isso espero todas suas objeções.
Eu não sou fenomenólogo, muito menos um especialista em Heidegger, não faço estudos comparativos, também não sou um historiador da filosofia nem um exegeta de conceitos filosóficos, eu trabalho filosofia desde problemas. Entretanto, minha matriz teórico-filosófica é decididamente kantiana, assim como um físico deve adotar um tipo de teoria seja ela newtoniana, relativista, quântica, etc para formular e resolver problemas eu parto do pressuposto de que na filosofia é semelhante, também é preciso adotar uma matriz teórica. Meu problema é acerca da condição de possibilidade daquilo que se considera a realidade e daquele que atua nela e se pergunta e por ela.
Nesse sentido, desde esse tema atualmente abordo algo assim como um evento filosófico determinado, a saber, a invenção da natureza humana na virada do século XVIII para o século XIX, na passagem da história natural para as ciências sociais, humanas e biomédicas. Especificamente, localizo a questão nos textos kantianos, na sua maneira de formular e resolver problemas e na sua interrogação acerca do homem. Nesse sentido, minhas pesquisas me permitiram constatar que a questão antropológica perpassa toda a filosofia transcendental e a constitui. Assim, posso dizer que Heidegger foi um dos primeiros entre muito poucos que contra as interpretações mais destacadas do kantismo chamou a atenção para dois elementos que são fundamentais para minha linha de interpretação, a saber, a tarefa da critica como a indagação acerca das condições de possibilidade dos juízos sintéticos e a questão da antropologia. Esses dois elementos decidem o rumo da minha interpretação e do meu modo de entender a maneira de formular e resolver problemas, por isso a leitura de Heidegger se torna necessária neste momento do meu trabalho de investigação. Também por isso, vou procurar ensaiar a possibilidade de pôr esses dois elementos em relação com o problema e sua resolução em outra perspectiva chegando a um resultado diferente daquele proposto por Heidegger. Não se trata de uma simples vontade de discordar, considero possível obter um melhor desfecho considerando os elementos iniciais da questão.
Existem problemas na filosofia, como na física, que não podem ser formulados em duas matrizes teóricas diferentes, considero que não é o caso e aqui, o próprio Heidegger me autoriza a entender que ele pensava do mesmo modo, pela sua declaração explícita e pela maneira de levar adiante a leitura de Kant.

Introdução
A leitura de Heidegger sobre Kant em Kant e o problema da metafísica já foi criticada em quantidade e modos suficiente nos últimos 80 anos. O livro expressa o conteúdo de um curso acadêmico ministrado por Heidegger no inverno de 1925-26 e reiterado mais tarde na mesma década, mas modificado depois segundo declara o próprio Heidegger e como tal consta nos documentos. Com relação às críticas, uma série de pesquisadores se sucede ao grande evento de Davos em 1929, onde Heidegger e Cassirer iniciam um debate sobre a interpretação de Kant. Posterior ao debate e à virada da década de 1930 a interpretação ficou relativamente ultrapassada. Aliás, foi o próprio Heidegger que se encarregou de declarar a sua distância com relação àquela interpretação. Essa posição de Heidegger consta no prólogo escrito para a segunda edição da obra em junho de 1950. Portanto, não se trata aqui de fazer uma nova lista de erros, equívocos ou falsidades. O objetivo do trabalho é destacar os elementos da interpretação heideggeriana sobre Kant que nos permitirão posicionar nossa interpretação com o intuito de propor outro encaminhamento da questão da metafísica desde a ideia e o lugar da antropologia  e do problema do juízo em Kant.
Para alcançarmos tal fim, primeiro, apresentaremos a proposição do trabalho de Heidegger; em segundo lugar, a aparição do homem com relação ao desenvolvimento do fundamento da metafísica e, em terceiro lugar, a interpretação de uma antropologia como fundamento da metafísica. Assim, pretendemos estender o que Heidegger chamou de “diálogo” entre pensadores. Heidegger (1986, 10), no prólogo à segunda edição escreveu:
“Há intermináveis objeções contra a arbitrariedade das minhas interpretações. A presente obra pode muito bem servir de base para tais objeções. Com efeito, os historiadores da filosofia tem razão quando focam sua crítica contra aqueles que tratam de expor um diálogo de pensamentos entre pensadores. Pois um diálogo desta classe, à diferença dos métodos próprios da filosofia da história, encontra-se sob leis muito distintas. São leis mais vulneráveis”.
A mesma posição de leitura é declarada por Heidegger em outros lugares, por exemplo, no texto sobre Nietzsche. Entendendo que não se trata aqui de fazer história da filosofia, mas sem deixar de pressupor alguns elementos que possibilitam o diálogo (a saber, que há uma questão comum: a metafísica; e que é possível tratar com aquilo que se interroga o que opera com relação àquela; isto é, o homem), vamos diretamente à tarefa deste artigo.

Proposição do trabalho de Heidegger em três tempos
1.
Declaradamente, na introdução de Kant e o problema da metafísica Heidegger se propõe a tarefa de “interpretar a Crítica da razão pura como uma fundamentação da metafísica” e imediatamente explica que “o problema da metafísica é focado como problema de uma ontologia fundamental”. A “ontologia fundamental” é definida como uma “analítica ontológica da essência finita do homem que deve preparar o fundamento de uma metafísica conforme à natureza do homem”.
Segundo Heidegger, a ontologia fundamental, embora vise a questão da natureza do homem não é uma antropologia nem mesmo filosófica. Para deixar isso claro Heidegger gasta algumas páginas criticando a Max Scheler (Heidegger, 1986, 177 e ss.). Assim, deve se avançar em “expor a ideia de uma ontologia fundamental (isso) significa: demonstrar que a citada analítica do da-sein é um postulado necessário e elucidar de que modo e com qual intenção, dentro de que limites e em função de quais pressupostos coloca a pergunta concreta “que é o homem?”” (Heidegger, 1986, 11)
Nesse sentido a ideia de uma ontologia fundamental se afirmará e desenvolverá por meio de uma interpretação da Crítica da razão pura como fundamentação da metafísica.
2.
A partir de Kant, Heidegger sustenta que a metafísica pode ser entendida não como edifício, mas como uma “disposição natural” no homem (Heidegger, 1986, 11). Neste sentido, os problemas da metafísica não são arbitrários, mas produzidos pelo próprio funcionamento da razão humana, tal como mostra Loparic (2000) em “A semântica transcendental de Kant”. Assim, a metafísica pertence à natureza do homem e coexiste com ele.
Deste modo, compreende-se que uma investigação sobre a fundamentação da metafísica é pensada como “projeto da possibilidade interna da metafísica”. Essa afirmação é fundamental. Não se trata de buscar a saída do problema de uma fundamentação da metafísica senão desde o interior da sua própria possibilidade, isto é, sem recorrer a elementos externos ou ad hoc.
3.
A investigação sobre o fundamento da metafísica nos envia para o problema da sua possibilidade interna, isto é, segundo Heidegger: sua origem. Assim sendo, se a metafísica é uma disposição natural do homem então devemos indagar “o que é o homem?” mas não numa antropologia filosófica e sim numa analítica do da-sein.

Heidegger estabelece aqui uma relação entre possibilidade interna da metafísica e origem que pautará decididamente seu trabalho. Porém, podemos pensar que a possibilidade interna da metafísica pode ser articulada a partir do próprio funcionamento do juízo, sem considerar o problema da origem senão apenas de seu modo de operar. Portanto, estamos diante de uma decisão interpretativa que imprimirá uma determinada orientação dos trabalhos. Seguidamente, Heidegger mostra essa orientação e relaciona a origem da metafísica com a disposição natural no homem o que indica que será necessário abordar os elementos antropológicos exigidos para revelar a origem e o funcionamento da metafísica. Por um lado, é preciso salientar mais uma vez que origem e funcionamento não estão naturalmente na mesma ordem de problemas a pesar de Heidegger colocar os dois elementos juntos. Por outro lado, devemos dizer que a maior parte dos estudos kantianos durante dezenas de anos considerou desnecessário abordar a questão da natureza humana dado que a crítica kantiana se referiria ao conhecimento a priori que pode ser alcançado com a razão, sem considerar o empírico na sua base. A partir da leitura de Heidegger cabe de modo muito pertinente se perguntar se essa natureza humana, essa antropologia, essa pergunta pelo homem é uma pergunta respondida a partir de observações empíricas, se se trata de uma antropologia pura, de uma antropologia filosófica ou está mais perto de uma “analítica do Da-sein como postulado necessário” o que implicaria em uma ideia diferente do estudo da natureza humana.

Com isto Heidegger se distancia da leitura atribuída aos neokantianos onde a Crítica da razão pura seria uma teoria do conhecimento ou uma teoria da experiência (Heidegger, 1986, 24 e 25). e avança numa indagação da fundamentação da metafísica numa antropologia  (Heidegger, 1986, 173 e ss.).

A metafísica de Aristóteles a Kant e a aparição do homem
De acordo com Heidegger, em Aristóteles a metafísica é considerada como “conhecimento do ente como ente” e também “da região suprema do ente desde a qual se determina o ente na sua totalidade” (Heidegger 1986, 17). De Baumgarten a Kant se transforma em “primeiros princípios do conhecimento humano” (Heidegger 1986, 15). Assim, “o conhecimento do ente se converte na ciência da razão pura”. A passagem da pergunta pelo ente à pergunta pelo modo de conhecimento do ente reformula a questão fundamental e seu desenvolvimento. Deste modo, Kant delimita a essência da metafísica e “reduz o problema da possibilidade da ontologia à pergunta “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?”” (Heidegger, 1986, 22). Esta indicação é fundamental porque coloca a pergunta pela possibilidade do juízo como ponto de partida do labor kantiano. Cito Kant, para confirmar a tese heideggeriana e indicar os passos a seguir (Kant, KrV B 19):
Ora, o verdadeiro problema da razão pura está contido na seguinte pergunta: como são possíveis os juízos sintéticos a priori?
O facto da metafísica até hoje se ter mantido em estado tão vacilante entre incertezas e contradições é simplesmente devido a não se ter pensado mais cedo neste problema, nem talvez na distinção entre juízos analíticos e sintéticos. A salvação ou a ruína da metafísica assenta na sulução deste problema ou numa demonstração satisfatória de que não há realmente possibilidade de resolver o que ela pretende ver esclarecido.
A tarefa será então investigar os ingredientes do juízo e seu funcionamento. Nesse sentido, já não se trataria de um conhecimento do ente, mas de um conhecimento transcendental. Kant declara: “Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa, não tanto dos objetos, mas do nosso modo de conhecer na medida em que deve ser possível a priori.” (Kant, KrV B25, A11)
A partir daqui Heidegger interpreta que “o conhecimento transcendental não investiga o ente mesmo senão a possibilidade de compreensão prévia do ser, o que quer dizer, ao mesmo tempo, a constituição ontológica do ser do ente” (Heidegger, 1986, 24). Segundo Heidegger, avançando por essa via: “A origem fundamental da fundamentação da metafísica é a razão pura humana (...) assim, o centro da problemática é (...) o caráter humano da razão, quer dizer, finito.” Nesse sentido, a tarefa “consiste em determinar a essência do conhecimento ontológico, pela explicitação da sua origem, e seus germes” (Heidegger, 1986, 28). Vamos focar brevemente no que entendemos em Heidegger por germes e origem.
Germes
Na tentativa de avançar sobre a explicitação dos germes do conhecimento na Crítica da razão pura Heidegger assinala para as intuições e os conceitos expostos na obra kantiana, mas destaca decididamente um deles: a intuição. Assim, diz com Kant que conhecer é primeiramente intuir (Heidegger, 1986, 29). “A finitude do conhecimento deve se buscar por isso, primeiramente, na finitude da intuição que lhe é peculiar” (Heidegger, 1986, 31). Assim, “o conhecimento finito é uma intuição não-criadora”, portanto, “por ser finita nossa existência (...) deve se oferecer ao ente a possibilidade de se anunciar” (Heidegger, 1986, 31). “A intuição finita, para ser um conhecimento, necessita sempre da determinação do intuído como isto ou aquilo” (Heidegger, 1986, 33). Deste modo, a intuição se articula com o conceito. “Apenas da sua união pode se originar o conhecimento” (Kant, KrV A51 B75). Assim, Heidegger assinala para a própria síntese como a essência do conhecimento finito.
Origem
Tratar-se-ia de não se deter apenas nos dois ingredientes (intuição e conceito), mas de avançar ainda em algo mais fundamental, na própria origem das duas fontes fundamentais (Heidegger, 1986, 40). Esta procura por uma unidade originária leva a Heidegger a indagar a maneira em que se revela essa origem (Heidegger, 1986, 41). Escreve Heidegger:
“O conhecimento finito do ente exige, portanto, para ser possível, um conhecer não receptivo (aparentemente não finito), algo assim como uma intuição “criadora”. Assim, se precisa acerca da possibilidade da síntese a priori: como é possível que um ser finito, que como tal está entregue ao ente e destinado à recepção dele, seja capaz de conhecer o ente antes de toda recepção, quer dizer, o intuir, sem ser seu “criador”? Por outras palavras: como tem de ser tal ser finito de acordo com a constituição do seu ser, para que lhe seja possível aportar, independentemente da experiência, a constituição do ser do ente, quer dizer, para que seja possível uma síntese ontológica?”. (Heidegger, 1986, 41).
Assim, Heidegger passa de tomar nota da possibilidade interna do funcionamento da razão e da explicitação dos germes e seu funcionamento à indagação sobre a possibilidade de um ser finito que possibilite uma síntese originária (ontológica). A partir daqui desenvolve a leitura da Crítica como o projeto da possibilidade interna da ontología, avalia os elementos do conhecimento puro (espaço e tempo na intuição e conceitos no entendimento), sua unidade na imaginação transcendental como síntese ontológica e chega ao resultado de que “a imaginação transcendental é o centro formativo do conhecimento ontológico” (Heidegger, 1986, 112), é “a raiz de ambas ramas” do conhecimento (intuição e conceito) (Heidegger, 1986, 121 e ss). Este é o ponto mais questionado da interpretação de Heidegger e considerado um erro de leitura.  Um destaque mereceria o § 30 “A imaginação transcendental e a razão prática”. Mas não nos deteremos em nenhuma das duas menções por considerá-las fora do nosso objetivo.
O significativo para este trabalho é que todo o labor de Heidegger conduz a postular um princípio de unidade na imaginação transcendental. Isto é importante para Heidegger, porque avança na origem do conhecimento, mas não para Kant e não me estou referindo aqui apenas a um erro de leitura que teria sido cometido ou a um exagero interpretativo. Um tal princípio na crítica da razão pura seria um excesso desnecessário e injustificável com relação à tarefa fundamental, a saber: indagar como são possíveis os juízos sintéticos? Kant não precisa uma unidade última num princípio originário porque o juízo em seu funcionamento não o exige e porque o operador das regras, os ingredientes e os princípios pode operar sem esse elemento. O juízo pode ser produzido e dito válido a partir das suas condições elementares, nomeadamente, com ingredientes e síntese, mas sem unidade originária das próprias fontes. Além disso, o operador do juízo que aparece em todos os traços, ingredientes, capacidades e disposições também não precisa de um princípio originário porque pode fazer funcionar a razão sem esse elemento.  Contrariamente, Heidegger deve construir uma antropologia kantiana a partir da sua teoria da imaginação e do tempo para sustentar sua interpretação ao ponto de afirmar que “o tempo e o eu penso não de apresentam incompatíveis e heterogêneos, senão que são o mesmo” (Heidegger, 1986, 163). Isto não é um erro, é uma estratégia para resolver a questão da metafísica no sentido de fazer aparecer a necessidade de uma analítica do Da-sein. Cito Heidegger (1986, 172):
A fundamentação kantiana da metafísica conduz à imaginação transcendental. Esta última é a raiz de ambas ramas: sensibilidade e entendimento. A imaginação transcendental como tal possibilita a unidade originária da síntese ontológica. Esta raíz está enraizada no tempo originário. O fundamento originário que se revela na fundamentação é o tempo. A fundamentação kantiana da metafísica parte da metaphysica generalis e se converte na pergunta acerca da possibilidade da ontologia em geral. Ésta coloca o problema da essência da constituição ontológica, que dizer o problema do ser em geral.
A fundamentação da metafísica se funda no tempo. A pergunta pelo ser, pergunta fundamental da fundamentação da metafísica é o problema de O ser e o tempo.
Assim, Heidegger passa inicialmente da pergunta aristotélica sobre o ente e o ente supremo para a pergunta kantiana sobre as condições de possibilidade dos juízos sintéticos para, finalmente, fazer aparecer o problema do tempo na raíz da própria resolução do problema colocado por Kant. É isso o que Heidegger apresenta como a repetição de um problema fundamental em um sentido ainda mais originário. Para poder levar adiante esta tarefa onde há um problema de funcionamento do juizo e operatividade do sujeito Heidegger deve acrescentar um problema acerca da origem e postular um princípio de unidade. Nesse sentido, Heidegger (1986, 174) afirma:  “A pergunta pela essência da metafísica é a pergunta pela unidade das faculdades do espírito humano. A fundamentação kantiana revela o seguinte: fundar a metafísica é igual a perguntar pelo homem, que dizer, é antropologia”. E aqui se encontra certamente mais uma fonte de irritação dos kantianos da época: (Heidegger, 1986, 174) “a antropologia desenvolvida por Kant é uma antropologia empírica e não uma antropologia que satizfaça a problemática transcendental, quer dizer, uma antropologia pura”. Heidegger chega a esta conclusão não por achar que os traços antropológicos da crítica são empíricos, ou pelo menos isso ele não diz, mas pela interpretação que faz das três grandes perguntas  da crítica às quais lhe é acrescida a quarta nas lições de lógica e também em uma carta de Kant de 1793 que Heidegger não cita. Heidegger escreve de modo muito preciso que: “Estes três interesses originais determinam o homem, não como ser natural, senão como “cidadão do mundo”. Assim sendo, “O campo da filosofia em sentido cosmopolita se deixa resumir nas seguintes perguntas: que posso saber, que devo fazer, que me está permitido esperar, que é o homem? (Heidegger, 1986, 175). Embora exista literal e declaradamente a vinculação entre a primeira pergunta desenvolvida na primeira crítica e os estudos de antropologia que deveriam ser seguidos para responder a quarta pergunta sua passagem não é tão obvia e evidente. Onde Kant teria respondido à quarta pergunta, segundo Heidegger, desde um ponto de vista empírico?. Na própria crítica? Na Antropologia em sentido pragmático, texto do qual Heiddeger retira alguns parágrafos (ver §37) e ideias sem os citar? Heidegger (1986, 181) diz que Kant não se refere à sua antropologia não só porque é empírica senão porque se converte em um problema no curso da sua fundamentação. Poderiamos dizer nós que efetivamente o homem, como problemática, sai à luz já na primeira critica, mas não a partir de observações empíricas feitas por Kant ou como o fundamento originário do juízo e sim como operador das regras do juízo. Se a quarta pergunta perpassa o texto da primeira crítica, esta o faz articulada com a questão fundamental: como são possíveis os juízos sintéticos? E não contra ela propondo um fundamento empírico.

Final: retomando para concluir
Heidegger destacou dois elementos da crítica da razão pura que são imprescindíveis para sua leitura: que o problema era sobre a possibilidade do juízo e que essa questão estava relacionada com a antropologia. O problema todo está nessa relação. Enquanto Heidegger deve postular uma analítica do Da-sein para desenvolver a fundamentação de uma metafísica, Kant analisa as condições do juízo e deriva seu executor para demonstrar a impossibilidade daquela (da metafísica). Assim, Kant não só não precisa de uma antropologia filosófica e nem (neste caso) de uma antropologia empírica, ele também não precisa de postular nenhuma analítica do Da-sein, apenas precisa fazer seu labor analítico partindo daquilo que poderá demonstrar, a saber, a validade do juízo. Com isso tem suficiente como para articular os elementos de uma antropologia da finitude do ser racional e a consequente impossibilidade de uma metafísica como ciência. Enquanto a Heidegger, ele precisará demonstrar a necessidade de postular uma analítica do Da-sein no sentido de excluir qualquer outro ponto de partida.
Kant reduz a questão da metafísica a estruturas propocicionais dadas na linguagem que se relacionam com um sujeito que as enuncia, isto é um juízo. A tarefa de Kant é indagar como são possíveis esses juízos, tarefa fundamental reconhecida pelo próprio Heidegger. Desse ponto de partida se derivam as condições (ingredientes, regras lógico-semânticas e princípios lógicos de funcionamento) de possibilidade do juízo e posteriormente o operador das regras, dos princípios e dos ingredientes encontrados na tarefa logicamente anterior. Isso torna desnecessário qualquer natureza humana ou ser como postulado, bem como qualquer antropologia filosófica ou empírica produzindo o que podemos considerar uma antropologia transcendental, nomeada por Kant na Rx 903 de antropologia. Isso impossibilita a metafísica e qualquer tentativa de fechamento ou totalização de sentido. À primeira crítica, que abre o campo semântico das proposições cognitivas lhe sucede a segunda com o campo semântico das proposições práticas e a terceira com o campo semântico das proposições reflexionantes e assim sucessivamente sem possibilidade de determinar o limite dos campos semânticos de proposições e problemas e sem a possibilidade de um meta-discurso que contenha todos os campos.
Heidegger supõe que Kant supõe um ser racional finito a partir do qual deriva um conhecimento finito, ele diz que o conhecimento é finito porque o ser racional é finito (Heidegger, 1986, 183). Isso lhe permite ler uma unidade na imaginação transcendental. Absolutamente desnecessária em Kant, os ingredientes (intuição e conceito) operam sem a necessidade de postular um princípio que os unifique. Qualquer princípio de unificação aqui é ocioso e injustificável desde o ponto de vista das condições de possibilidade do juízo. Aqui está não o erro, mas a limitação do projeto heideggeriano da década de 1920. O postulado que ele próprio não consegue demonstrar é o que lhe impede ver a radicalidade do pensamento kantiano que demostra a impossibilidade da metafísica e a possibilidade da pluralidade de campos semânticos e operadores de juízos. Assim, o homem não é uma essência, não é definido como animal racional, é um efeito, é uma construção em aberto que pode, eventualmente, vir a ser racional. Eventualmente implica aqui uma tarefa histórico-política do individuo e da espécie que se enuncia como exigência do próprio funcionamento da possibilidade interna do aparelho. Por isso a antropologia pragmática pode avançar na pesquisa do que o homem faz, pode e deve fazer de si sem necessidade de um Deus, de um nada ou de um postulado que possibilite a revelação ou ordene o campo desde fora.

Pode se observar que minha proposta não trata de mostrar um erro de leitura, mas de apresentar a possibilidade de pensar o problema colocado por Heidegger desde Kant, nesse sentido sou fiel à proposta heideggeriana de fazer um diálogo entre pensadores.

Referências
HEIDEGGER, M. Kant y el problema de la metafísica. México: FCE, 1986.
KANT, I. Kant’s Gesammelte Schriften. Berlin: Walter de Gruyter & Co, 1902-.
LOPARIC, Z. A semântica transcendental de Kant. Campinas: Coleção CLE, Vol. 41.terceria edição 2005, primeira edição 2000.
PEREZ, D. O. Kant e o problema do significado. 2002. Tese (Doutorado em Filosofia) - Universidade Estadual de Campinas. 
_________ Kant e o problema da significação Curitiba: Editora Champagnat, 2008.
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_________  El ódio al vecino o: se puede amar al prójimo? Un diálogo con los conceptos de responsabilidad y solidaridad de Dorando Michelini.. In: Anibal Fornari; Carlos Perez Zavala; Jutta Westter. (Org.). La razón en tiempos difíciles.. 1ed.Rio Cuarto - Argentina: Universidad Católica de Santa Fe - Ediciones del Icala, 2010, v. 1, p. 29-36.
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__________ A Antropologia Pragmática Como Parte Da Razão Prática Em Sentido Kantiano. Manuscrito (UNICAMP), v. 32, p. 357-397, 2009.



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