A repetição do mesmo e a inscrição do
fenômeno
Do mesmo modo que nunca me perguntei
como é que tenho costas ou joelho, também nunca achei que poderia ser uma
pergunta o fato de eu ser torcedor de Rosario Central. Várias vezes pensei
nisso, mas nunca me pareceu algo sobre o qual caberia uma pergunta. Tem
alienações tão consolidadas de coisas tão insolitamente estúpidas aos olhos de
qualquer um que parecem absolutamente naturais para nós. Achamos estranho, feio
ou errado que o outro não compartilhe a mesma situação de alienação. Ás vezes
consideramos a situação anormal ou doentia.
Ser torcedor de futebol é uma
situação que traz não só prazer ou alegria senão geralmente excitação,
nervosismo, angustia e sofrimento e mesmo assim repetimos a cena inúmeras vezes.
Podemos dizer que é o futebol que nos
faz vivenciar isso, mas também podemos pensar que é essa situação sensitiva que
se justifica (precariamente) no relato do futebol, e desse modo, aparece mais
ou menos tolerável na sociedade que vivemos.
Essa hipótese poderia se estender e
poderíamos pensar que as excitações prazerosas ou desagradáveis encontram
justificativa em essas narrativas: esportivas, estéticas, políticas, acadêmicas
etc. Se aceitarmos a hipótese podemos pensar que há um jogo de afetividades que
são vivenciadas como positivas ou negativas quando articuladas com a linguagem
em narrativas imaginárias e inscritas simbolicamente produzindo um efeito de
sujeito que goza de alguma forma. Vou explicar um pouco melhor.
Quando o gozo (estado de excitação e
desgaste no real da carne) no real do corpo não se articula numa narrativa (num
relato sobre a realidade circundante ou fantasiada) e não se inscreve
simbolicamente (com elementos significantes que ordenem a estrutura do
discurso) o real do corpo se goza na repetição do mesmo mecanismo sem sentido
até se esgotar. Pensamos que o gozo deve se inscrever para encontrar sentido e
um possível corte, interrompendo o caminho ao esgotamento final.
Aqui apontamos duas coisas: uma
hipótese acerca da estrutura de funcionamento da repetição e um encaminhamento.
(1) agentes de trabalho na
instituição mostram casos onde aquilo que se repete no fenômeno não é aleatório
senão que tem sua base num acontecimento vivido pelo sujeito e marcado pelo
gozo. (Isso implica que o alguma inscrição houve e um efeito de sujeito
apareceu e continua aparecendo como alienação)
(2) todos os agentes da instituição trabalham a partir do fenômeno
e não contra ele dos seguintes modos: inscrevendo o fenômeno em outro horizonte
de sentido, rearticulando seus elementos, substituindo os elementos, procurando
passar do individual para o coletivo fazendo laço com o outro semelhante e o
Outro enquanto horizonte de sentido, em vez de apenas treinar movimentos
pautados socialmente exigindo respostas padrão se procura partir daquilo que o
sujeito traz estando aberto a possíveis situações criativas e procurando fazer
lugar num horizonte de sentido primeiro grupal e depois social.
Na medida em que a excitação
repetitiva encontra articulação imaginária e simbólica pode vir a encontrar
corte e possibilitar laço com sujeitos e objetos. É preciso advertir que o
fenômeno pode vir a encontrar corte. Mas também pode ser o caso em que o
sentido dado conduza ainda ao desgaste final. Porém, a articulação nos permite
trabalhar com outros elementos que não apenas a intervenção medicamentosa,
absolutamente necessária para obter um mínimo de estabilidade funcional em
alguns casos, mas insuficiente para articular sentido à motricidade. Para
passar do movimento mecânico ao ato inscrito culturalmente que possibilita laço
e propicia comunicabilidade e sociabilidade devemos trabalhar no registro da
linguagem.



