segunda-feira, 15 de junho de 2020

Fe, rei e lei


Essa era a consigna de conquistadores espanhóis e portugueses na América.É porque os povos originários não tinham Fé (a dos europeus), rei (o dos europeus) e lei (a dos europeus) que os povos nativos podiam ser exterminados fisicamente, espoliados culturalmente e saqueados economicamente.Será que isso deve ser homenageado na América?
Na maior parte do território americano houve um guerra revolucionária no final do século XVIII e início do século XIX para acabar com a exploração colonialista. Porém, ainda hoje temos defensores locais da ideologia do colonizador.
Olhar a história da América desde de uma cátedra de alguma universidade europeia tem sido uma constante de muitos grupos de intelectuais locais.

Homenagem a escravista, genocida ou torturador não é patrimônio histórico.


Na Argentina se conservaram os campos de sequestro e tortura da ditadura genocida, mas não se fizeram estatuas para Videla ou Galtieri. Na Alemanha se conservaram os campos de concentração e de extermínio, mas não se nomearam ruas, avenidas e praças com os nomes dos genocidas nazistas.
Quando se derrubou o muro de Berlim não lembro de ninguém falando: gente isso é patrimônio histórico!!! Vamos deixar o muro e os pontos de controle de Berlim intatos!. Quando caiu a União soviética não vi ninguém triste porque a estatua de Stalin era derrubada. Da mesma forma, ninguém fez defesa de patrimônio cultural o dia que no Iraque derrubaram as estatuas de Saddan Hussein e apagaram suas pinturas.
A nossa colonização cultural é tão visceral que aceitamos homenagens a saqueadores como se fossem patrimônio cultural.

Conservar o que?


Cada vez que um sujeito vai para análise (psicanálise) revisa sua história e a reescreve várias vezes no processo de tratamento. Isso faz com que algumas imagens que eram idealizadas como estatuas caiam e outras questões aparecem. Da mesma forma aquelas ideias que eram protegidas como grandes obras de arte se transformem em um objeto qualquer e outros elementos passem a ocupar o estatuto de obra de arte. Enunciados que eram princípios inquestionáveis como se fossem escrituras ou livros sagrados se dissolvem numa sopa de letras e outras narrativas aparecem.
Do mesmo modo acontece com as identificações coletivas e suas historias como grupos, massas e povos.

Patrimônio cultural ou ideologia do invasor?


Brasil tem nomes de ditadores e genocidas em ruas, estradas, estatuas, bairros e praças. Na América toda encontramos estatuas de escravistas, criminosos de guerra e saqueadores.
Agora resulta que essa estratégia ideológica do colonialismo e do imperialismo se chama patrimônio cultural.
Quando morei na Alemanha não vi nenhuma estatua de Hitler ou uma rua ou avenida em homenagem às SS. Será que eles estão perdendo o "patrimônio cultural".
Para mim, o patrimônio cultural é o ouro e as obras de arte roubadas da América que estão nos museus e coleções privadas da Europa.